10 fevereiro 2012

Veremos

 


Vemos na Grécia, Portugal. Porque será que achamos que somos diferentes dos gregos? Mas que Europa é esta em que Merkel se julga dona da União Europeia, do dinheiro da União Europeia, das políticas da União Europeia?


 


Vemos na Grécia, Portugal. E veremos outros países. Como eles começam a ver em Merkel outro Hitler. Como outros hão de ver.


 

Encontro incidental

 



Monet


 


Entrou no quarto com cara amarrada, levemente indisposta pela companhia. A miúda passou o tempo como ela imaginava que passaria, ao telemóvel. Telefonou a várias pessoas, entre familiares e amigos, a contar da sua entrada inusitada nas urgências, das dores e da operação, da cicatriz e dos repuxões, da má qualidade da comida e da simpatia da médica.


 


Entre as vítimas contava-se o namorado, um desgraçado escurinho e magrinho, com a indumentária de gueto exibida numa demonstração de arrogância de tribo, com um ar de preguiça e tédio que se impunha, avesso às várias tentativas de vitimização da companheira. Como as mulheres são manipuladoras, atrevidamente dramáticas, descrevendo e mostrando interiores doridos, ao que eles apenas são capazes de regurgitar que nooojjjooo. Mas o mais extraordinário foi o facto de, mal o rapaz ter desaparecido de vista, ter voltado aos telefonemas intempestivos, de longos minutos, a perguntar como estava a ocupar todos os segundos da vida dele. Isto até ao exacto momento anterior ao adormecimento.


 


Apesar de tudo, a carranca foi-se-lhe suavizando. Era uma miúda terna e divertida, com uma noção perfeita de que não deveria provocar a velha (com certeza que, para ela, era uma velha com cara de pesadelo). Não fez perguntas, não fez comentários, não fez nada que lhe acirrasse o desagrado. Dormia com o silêncio das almas jovens sem torturas, bem diferente do seu ressonar bastante audível, aquisição que muitos anos e muitos quilos lhe tinham somado, das suas insónias bravias e dos seus calores nocturnos, transpirados de desalento e de inúmeras ideias, que se esvaíam mal raiava o dia.


 


Foi quase como uma noitada antes de um qualquer evento científico, companheiras de uma noite, distâncias bem guardadas mas com o seu quê de cumplicidade, mesmo sem que a idade, o estilo e as ideias fossem diametralmente opostas. E seríam?


 

World Press Photo 2011

 



 

07 fevereiro 2012

Demora

 



John Marin


 


 


Terei que saber reforçar os minutos que me sobram


pela angústia do conhecido.


Tenho que saber demorar as horas que não chegam


pela tácita compreensão da paciência.


Apresento-me à perícia


de quem repete diariamente gestos precisos


à avidez das inevitáveis dobras


de um tempo que demora a chegar


e tem pressa de partir.


 


 

04 fevereiro 2012

A ortografia é a questão

 




 


Não concordo com o acordo ortográfico. Não percebo a necessidade, nem os pressupostos, nem o resultado deste acordo. Nesse aspecto comungo da opinião de Vasco da Graça Moura. Mas também suponho que tenha havido sempre ferozes e ilustres opositores aos vários acordos ortográficos que foram sendo absorvidos pela língua portuguesa e pelas várias gerações de portugueses. Este será só mais um.


 


Mas só nesse aspecto. Desde que haja legislação que nos obrigue, desde o início deste ano, a usar o dito acordo, mesmo que nos meus posts o não use, em tudo o que for oficial devo cumprir a lei. Eu e qualquer outra pessoa, nomeadamente Vasco da Graça Moura. Além de um inútil disparate, esta atitude é bem demonstrativa de uma certa cultura instalada – mal sai uma lei a primeira coisa a fazer é encontrar uma ou várias maneiras de a boicotar e não a cumprir. Será que Vasco da Graça Moura mediu bem a sua (e da Administração unânime) decisão? E se alguém resolver cumprir a lei, dentro do CCB? O que lhe vai acontecer? Se Vasco da Graça Moura quiser lutar denodadamente para alterar essa determinação, não me parece a melhor forma de o fazer. Para além disso, será que informou quem o nomeou dessa sua intenção?


 


Não partilho do coro de protestos pelo saneamento político de António Mega Ferreira. Cumpriu até ao fim o seu mandato e foi substituído. Foi uma nomeação política? Pois foi como terá sido a de Mega Ferreira. É da competência do poder político fazer essas nomeações. Mas o que me causa pena é ver que o PS, pela educadíssima e pausada voz do seu líder, em vez de fazer oposição política à concretização de uma ideologia retrógrada, conservadora, de desmantelamento das funções dos estado, mais precisamente as da saúde, educação e segurança social, de alienação de sectores chave para a soberania, de não acautelamento da liberdade e da independência da informação, do autoritarismo fiscal, etc., tenha escolhido esta bravata de Graça Moura para fingir que é oposição.


 


Nota: Aqui fica o esclarecimento. Pelso vistos, só a partir de 2014 o uso do acordo é obrigatório para todos.


 

O Sr. Meireles

 



 


E o Sr. Meireles (como lhe chama uma amiga) entrou, final e triunfalmente na minha casa. Grande, robusto, fiável (esperemos), promete mundos e fundos de sabor.


 


Mas não foi fácil. Em primeiro lugar, ninguém pense que aproveitar algumas coisas menos velhas, que outros, com amor e carinho nos doaram, vale a pena. No caso em apreço, reutilizar um fogão composto por placa e forno eléctrico, numa casa apetrechada com um fogão a gás inteiriço, tudo num só, fica ao triplo do preço de um novo fogão inteiriço a gás, novinho em folha, para substituir a velharia. Isto quando não embarcamos num único orçamento, feito por um dos muitos Mourinhos de cozinhas, que se esquece, coisa pouca, de que a torneira de segurança do gás deve ficar, obrigatoriamente, à mão de semear.


 


Mas a solução de troca de fogões, Sr. Portugal por Sr. Meireles, é muito mais complicada do que parece. A empresa que fabrica e comercializa os fogões Meireles, portuguesa com certeza, vende-o on line ou através de outras casas que estão perto de toda a gente. Por isso fui feliz e contente à Rádio Popular para adquirir o famoso fogão Meireles. Apesar de ter avisado que o gás que corria nos canos da minha casa era o natural, disseram-me logo que o fogão era entregue preparado para gás butano, e que iria lá um técnico Meireles para trocar os injectores. Apesar de me terem tentado esclarecer, não percebi a explicação da razão pela qual o fogão não poderia ser entregue já com os injectores correspondentes. Depois teria que ser o cliente - neste caso eu - a contactar um técnico credenciado para a instalação do fogão. A Rádio Popular faria o obséquio de me dar o nome de uma empresa credenciada para o efeito. E também podiam remover o fogão antigo se e só se já estivesse desligado da canalização.


 


Impossível tentar juntar todos estes elaborados e laboriosos passos. Portanto eu comprava um fogão que me iam entregar a casa (a Media Markt, por um trajecto de 5 Km, cobra a módica quantia de 20,00€); a seguir, não sei quanto tempo depois, aparecia o técnico para trocar os injectores; depois, iria outro técnico fazer a instalação; a seguir eu ajeitava o fogão velho como um móvel a mais, até ser possível a Câmara ir lá buscá-lo. Muito prático, não há dúvida.


 


Como não me rendi, procurei na internet todas as casas que forneciam fogões Meireles e oh, surpresa, a Neocasa, instalada na zona de Leiria, faz tudo ao mesmo tempo: traz o fogão novo, já com os injectores adaptados ao gás que temos, instala o fogão porque é credenciada para isso, leva o fogão velho, e entrega a factura em troca do pagamento por multibanco, na nossa própria residência. Não é extraordinário?


 

03 fevereiro 2012

Escolhas

 




 


 


Escolho o nada exactamente a simples existência do quotidiano sobressaltado alienado de trabalho e tarefas que se somam e seguem sem pausa. Escolho o conforto da mediania casa pão e mantas tardes de domingo em doce transformação do alimento em doce mansidão de carinho amassando o dia para os que amo. Escolho a surdez selectiva para o absurdo a cegueira propositada para a negrura a apatia planeada da placidez.


 


Passam rostos vozes entre o desligar da mente figuras indistintas e pomposas que se ouvem aplaudem acenam sisudas e bem vestidas apertadas e cingidas entre cinzentos e campainhas. Reconheço vagamente vultos de uma irrisória magnitude que incomodam como um arranhar agudo de giz na ardósia. Fogem os olhos da nuvem de poeira como as palavras pulverizadas dos fatos que se cumprimentam dos penteados que se opulenta.


 


Escolho o branco dos lençóis a música o ritmo repetitivo da vida que assinamos pontualmente desde que toca o despertador.


 

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...