
Após a falência do Lehman Brothers e da recessão que se lhe seguiu, muitos pensaram que o capitalismo estava em crise. O Estado serviu, nessa altura, para defender os cidadãos de estranhas manobras financeiras de grandes empresas bancárias, cujo risco de falência globalizada arrastava para a penúria milhões de pessoas em toda a Europa e EUA. Houve um ressurgir das ideologias que repudiavam o lucro pelo lucro, fazendo-se inúmeras comparações com o que se tinha passado antes da grande depressão, na esperança de uma mudança que valorizasse o indivíduo, a qualidade de vida e o bem-estar da sociedade, a bem de todas as democracias.
Pelo contrário, a enorme campanha a que temos assistido em toda a Europa, que redundou na substituição democrática, nuns casos, e não democrática noutros, dos governos de muitos dos países europeus, branqueando a natureza sistémica da crise e apontando como criminosas as políticas que tinham sido implementadas para impedir situações semelhantes às da Grande Depressão, tem subvertido e mudado radicalmente a perceção da vivência e da sociedade no futuro próximo.
Neste momento há já o convencimento de que o Estado não serve para defender as pessoas, para lhes assegurar direitos fundamentais e uma vida digna, mas que é uma excrescência a retirar da vida pública. Também já se conseguiu convencer as populações que não há sustentabilidade para um sistema de segurança social e para um sistema nacional de saúde. Ou seja, a assistência na velhice e na saúde depende dos rendimentos de cada um.
Estamos portanto a construir uma sociedade em que o trabalho é um privilégio e que as perspetivas de desenvolvimento individual, com um mínimo de segurança e qualidade, só está ao alcance de um pequeno grupo de indivíduos, sem se perceber o porquê dessa diferenciação. A falta de pudor de algumas declarações dos novos senhores do mundo é avassaladora e as hordas de jovens sem futuro sustentado avolumam-se.
O populismo e os discursos moralistas foram apenas uma estratégia da direita para chegar ao poder. Por isso a revolta é ainda maior, quando se assistem a discursos de personalidades como o Presidente da República, o Governador do Banco de Portugal, Eduardo Catroga ou Manuela Ferreira Leite, advogando a maior austeridade para quem já está no fundo da escala e no mínimo dos rendimentos, enquanto eles próprios usufruem das exceções. Em Portugal as exceções penalizam sempre os mais desfavorecidos e os mais carenciados.
O pior é que, nem interna nem externamente se vislumbram ideias nem força para as defender, pessoas que se recusem a esta triste globalização da desigualdade e do empobrecimento.
Resta-nos continuar. E reagir, nem que seja a escrever.
(*) - filme de Ingmar Bergman