27 junho 2011

Vozes de uma Estrela Distante

 



 


Ana Sofia Pereira, um nome para uma mulher, estudou argumento na Universidade Católica, do Porto. Em conjunto com outros 4 jovens, tem uma empresa Produtora de Audiovisuais – Cimbalino Filmes – que já fez 4 anos, muitos trabalhos, outros tantos projectos e alguns prémios. Trabalhadora, metódica, pacata, silenciosa, divertida, dotada de um sarcasmo muito saudável, é uma filha do Porto, dos seus 28 anos, da sua geração.


 


Pulgarzinha, de Pulga, de Polegar, de inha, um nome para uma escritora ([…] Não mais do que uma pulga/ ou talvez menos ainda.), escondida, clara, dolorosa, sem rede para tanta emoção, para tanta letra. Os seus poemas, em verso ou em prosa, são reflexo de uma profunda solidão ([..]Sou o parasita da solidão/ que a suga até ao tutano.// […]), dessa solidão rígida em que os poetas se prendem, sem conseguirem romper alas a não ser pela voz do poema ([…]Experimento os dedos das minhas mãos,/ testo os dedos dos meus pés,/ dobro os braços e as pernas./ Corto tudo o que já não serve./[…]). O mundo que não se abre, o tropel que entope a garganta, o mundo virado do avesso (inspirar bem fundo,/ engolir todo o mundo/ e deixá-lo ficar/ até um dia/ ser capaz de expirar.), mas devagar, composta, firme, presente, com os olhos e o silêncio que a partem ([..]E eu aqui, pequenina, de pés fincados no chão a gritar até que alguém me ouça, a esbracejar até que alguém me veja...// E daqui não saio. Daqui ninguém me tira.).


 


Ana Sofia Pereira olha o mundo do lado de fora dele, do lado de dentro dela. A imagética remete-nos para a esfera de uma meninice que teima em perdurar, dentro de um crescimento doloroso a que se recusa, lembrando a personagem Oskar Matzerath, do filme O Tambor (1979, realização de Volker Schlöndorff, argumento de Günter Grass), que decide parar de crescer. Os poemas centram-se no corpo para se projectarem no espaço, na luz, nas estrelas, sempre uma realidade exterior em oposição à realidade interior. Versos curtos, melodiosos, absolutamente precisos e depurados, em que as palavras são a geometria do silêncio. A procura e a incerteza do que se quer dizer, do que se quer mostrar, a crua observação da incessante busca de se transcender, faz dos poemas questões e gestos que se encontram ([…]no epicentro da mais caótica sinfonia do mundo.).


 


Ana Sofia Pereira, Pulgarzinha, de Pulga, de Polegar, de inha.


(Vozes de uma Estrela Distante - http://uma-estrela-distante.blogspot.com/)


 


Gostava de ter um caderno que lesse as palavras que giram na minha cabeça e as escrevesse no papel. Porque a minha mão tem vontade própria, a caneta escreve só o que quer, e aquilo que imagino, o que vive na minha cabeça, não fica escrito no papel. O que aqui fica, é uma colaboração entre a minha cabeça, a minha mão e a tinta da caneta. Eu não escrevi isto assim, e nunca ninguém vai ler o que eu escrevi dentro de mim.


 


E de um momento para o outro, mudam-me. Sem pedir licença, pegam em mim e informam-me que já não sou assim, que já não posso ser assim, que já não devo ser assim. Já não és a última da linha, a sensível, a criativa, a sonhadora... agora sou mudança, original, inovadora, independente, excêntrica, imprevisível... Agora sou aquário... sem peixes.


 


E por muito que os meus olhos estejam fechados,
estão abertos
à espera do próximo golpe.
Este já não me apanhará de surpresa,
de certeza...

e isso não fará a mais pequena diferença.


 


Sinto-me tão frágil aqui no meio de tanto ar, tanta terra, tanto mar, tanta gente, tanto respirar, tanto suor, tanto lutar, tantas lágrimas, tantos risos, tanto ir e voltar. E eu aqui, pequenina, de pés fincados no chão a gritar até que alguém me ouça, a esbracejar até que alguém me veja...


 


E daqui não saio. Daqui ninguém me tira.


 


Não mais do que o tamanho de uma pulga.
Não mais do que a coragem de uma pulga.
Não mais do que a força de uma pulga.
Não mais do que a vontade de uma pulga.

Sou o parasita da solidão
que a suga até ao tutano.

Não mais do que uma pulga
ou talvez menos ainda.


 


Há tanto para ver aqui que as palavras atrasam-se a chegar e, quando chegam, já eu cá não estou. Fica apenas este espaço em branco, nem eu que já não estou, nem as minhas palavras que não chegaram a ser. E descubro, não sem surpresa, que onde finalmente me encontro é onde nunca estive, onde as minhas palavras não chegaram, na descoberta de mim no epicentro da mais caótica sinfonia do mundo.


 


Que sorriso foi esse
que estranhaste nos meus lábios?
Todos os dias ponho um diferente
e ensaio um novo olhar.
Experimento os dedos das minhas mãos,
testo os dedos dos meus pés,
dobro os braços e as pernas.
Corto tudo o que já não serve.
Reinvento-me,
reencontro-me
e já não sou eu...
Mas aquele sorriso,
o tal que tu estranhaste,
esse,
esse, já é o meu!


 


Intervalo do Meu Mundo


inspirar bem fundo,
engolir todo o mundo
e deixá-lo ficar
até um dia
ser capaz de expirar.


 


em Revista-Me nº 2


 

A Poesia Rima com quê? Com Economia?

 



 


Economia, ou actividade económica - Produção, distribuição e consumo de bens e serviços, e repartição de rendimentos


do gr. Oikonomía - direcção de uma casa


Poesia, ou género lírico, ou lírica - Uma das sete artes tradicionais, pela qual a linguagem humana é utilizada com fins estéticos; carácter daquilo que, por ser considerado belo ou ideal, desperta uma emoção ou sentimento estético


do gr. Poíesis - acção de fazer alguma coisa


 


Produzimos palavras cobertas de silêncio, dedilhadas mecanicamente pelas teclas, com a mais alta tecnologia da solidão. Não deduzimos medo nem paixão, consumimos a própria alma, devagar ou subitamente, ressuscitando e regurgitando o poema, repetido e inacabado eternamente. Servimos letras em dedais de espuma, sempre e teimosamente esticados com os arames que seguram a dignidade. E sonhamos com a distribuição do sonho, em catadupas ou milimetricamente, na medida do que nem sequer sabemos que existe.


 


De bens, ou de bem, essa verdade ou necessidade ou actividade ou representação do real. Do bem que não sabemos definir, a economia complicada das redes multiplicadas pelos sorrisos. Economicamente achamos bem ou somos o mal, com ou sem a qualidade do demo, desprezados sem utilidades nem uso conhecido, deixamos os números das certezas para quem serve, para quem se quer curto e certo.


 


Precisamos da língua, como órgão do som e da palavra nesta Babel mundial em torre cada vez mais alta, que a globalização não destrói. Órgão muscular que dança e se contorce na produção fonética das emoções com lágrimas, com rugas, com pedras. Precisamos da mordedura sensual da palavra, das cores inimagináveis que as palavras pintam entre a gente amassada, amarfanhada, lisa, estática, enorme, das telas brancas que riscam sem pedir razões, das máscaras que cobrem na forma, na rima, nas folhas, paredes, palcos personagens duplas e triplas desdobradas em pétalas ou cimento.


 


Não uma das sete mas todas as sete, nove ou treze artes, não sei se cabalísticas ou precisas, a poesia não rima, não cede, não se troca, mas diz-se, sente-se, ouve-se, sem género nem lírica, bem de consumo lento, ao serviço dos bens maiores, distribuindo arrepios, assim se consome, uma economia totalmente privada mesmo que pública, mista e mística, filosofia em estado puro.


 


em Revista-Me nº 02


 

26 junho 2011

Primeira semana

 


Os detractores de Sócrates e do governo anterior, a totalidade dos partidos que não o PS, e mesmo dentro deste, não comentam agora a necessidade de mais PECs, conforme Passos Coelho anunciou, secundado por Miguel Relvas, após o Conselho Europeu. Afinal estes anúncios e estas medidas são mais ditadas pela vontade da União Europeia do que pela dos chefes do governo, como sempre o souberam os partidos políticos, à esquerda e à direita do PS.


 


No PS a luta pela liderança parece estar já decidida. Infelizmente mal decidida, pois António José Seguro vai dando sinais de que não aprendeu nada com os erros da anterior oposição ao seu partido. Pelos vistos para ele fazer oposição é dizer que não, seja lá ao que for: não aceita fazer uma revisão constitucional? Porquê? Não é precisa? Critica os planos de austeridade do governo? E então? Quais são as suas alternativas?


 


Valha-nos (São) Francisco (de) Assis.


 

Concerto de Brandenburgo N º 4 em Sol maior


J. S. Bach & Café Zimmermann

 

25 junho 2011

Trocas

 



Mrinalini Mukherjee: lava


 


Troco as palavras pelos dedos pelos olhos pela boca


troco de língua de roupa de cama


troco os passos pelos dias os atalhos pelos riscos


troco de mãos de sangue de cor de forma de ser.


 


Troco tudo e que se troca


até de mim


mas de ti não.


 

24 junho 2011

Populismo

 


A anunciada medida de trocar os lugares em executiva por lugares em económica, nos voos europeus, de Passos Coelho e de todo o governo, não é mais do que demagogia e populismo. É claro que, mais cedo ou mais tarde, este tipo de propaganda estala nas mãos de quem a incentivou. Neste caso, se isto for verdade, foi bem mais cedo.


 

Irreversível

 



Ronald Rae: Widow Woman 


 


A face enrugada e os lábios engolidos pela falta de dentes, querida face de quem me é tudo e me deu tudo, de quem me olha confiante e eu sem saber se sou de confiar. O abandono do corpo tão grande como a entrega da alma serena e sem reservas, olhos sorridentes e um pouco assustados, a fala da quase criança em que nos transformamos, de tantos os anos, iguais aos nascituros.


 


Querida face enrugada de quem me é tudo e me deu tudo, de quem me olha como se a vida se tornasse reversível.


 

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...