13 março 2011

(Des)Informação

 


Não, afinal não eram 200.000, eram 300.000. Podemos fazer um leilão, a ver quem dá mais.


 


É aterradora a forma acrítica com que se replicam informações, boatos e certezas nos media portugueses. Esta manifestação, que foi, sem dúvida, um êxito, independentemente do que cada um de nós possa pensar das razões ou falta delas desta geração à rasca, não foi nada do que se tem escrito e publicitado em tudo o que é jornal, rádio, blogues, etc.


 


Não foi convocada pelo Facebooka iniciativa foi divulgada através do Facebook, mas deve ter havido poucas manifestações que tenham sido tão pré publicitadas, por quase todos os órgãos tradicionais de comunicação, como esta. Durante mais de uma semana não houve dia em que não tivéssemos sido lembrados da novidade e importância reivindicativa desta manifestação, sem organizadores e totalmente espontânea, tão interessante e tão igual às manifestações do Egipto e da Tunísia. Agora sim, o povo é quem mais ordena.


 


Não foi preciso qualquer esforço de organização nem de divulgação – a comunicação social e partidos da contestação se encarregaram disso.


 


Quanto aos números de manifestantes, o contágio da falta de sentido crítico é espantoso. Ontem começou por se falar em 200.000. Um dia depois a organização (aquela que não existia) contou 300.000, e os meios de comunicação, os tradicionais e os do séc. XXI, repetiram como papagaios esse número. Como me fizeram ver ontem, 200.000 pessoas equivalem a 4 estádios de Alvalade cheios; 300.000 correspondem a 6 estádios. Como também se sabe, ou deveria saber, há quem desenvolva métodos científicos para medir o número de manifestantes. Mas, claro que isso não interessa nada.


 


Porque o número de manifestantes interessa. Não significa o mesmo a presença de 3.000, 30.000 ou 300.000 pessoas na rua, em protesto.


 


Quanto à cobertura televisiva dada ontem da dita manifestação, foi eloquente. Durante toda a tarde, em directo, por vários canais de televisão, tivemos direito a ouvir as reportagens em cima do acontecimento, a motivação e o empolgamento perante tantos e tão desesperados jovens, menos jovens, Homens da Luta, Fernando Tordo, gente contra políticos e contra a política, desempregados, empregados a recibos verde, a contratos a termo, estudantes, reformados, enfim, uma panóplia de gente que, com as suas razões, decidiu mostrar descontentamento.


 


Não se percebe se esta forma de informar é apenas o resultado de incompetência ou falta de profundidade, se é intencional e manipuladora. O que é patente é a impossibilidade que os cidadãos têm de acreditar, minimamente, no que os meios de comunicação dizem sendo eles, em princípio e em teoria, os garantes da formação da opinião pública, em liberdade.


 


Nota: vale a pena ler este post.


 

12 março 2011

Os milhares


 


A manifestação de hoje, convocada pela geração à rasca, foi um êxito. Grande mobilização, calma, razões misturadas, desagrados vários, e um enorme desagrado geral, contra a falta de luzes ao fundo do túnel. Os aproveitamentos do costume e, para meu espanto, a estimativa do número de manifestantes, que começa a ser hilariante. Nada menos que 200.000 em Lisboa. Como me fizeram ver, hoje à noite, 200.000 pessoas equivalem a 4 estádios do Sporting ou a 3 estádios do Benfica em lotação esgotada.


 


Não havia necessidade.

Critérios editoriais

 



 


Confesso que leio pouco a revista da Ordem dos Médicos (ROM). Também não tenho estado muito atenta a algumas polémicas que se vão desenrolando na blogosfera. Aliás tenho sentido um cansaço imenso, quase uma náusea, de toda esta actualidade que nos apavora, de cada vez que ligamos o rádio ou vemos televisão.


 


Mas ontem a curiosidade (e a apreensão) venceram e fui ler com cuidado o artigo de opinião assinado por William H. Clode O sentido do sexo, publicado na edição de Janeiro da ROM. É um artigo de opinião dividido em 3 partes, datadas de 14 de Novembro de 2008, 8 de Setembro de 2009 e 1 de Dezembro de 2009. Nestes 3 textos o autor desenvolve a ideia de que o sexo é um sexto sentido, tal como o da visão, discorrendo sobre as alterações genéticas que levam ao daltonismo e comparando a homossexualidade com uma alteração genética, ainda não identificada nem estudada. Descreve também a consequência dessa eventual alteração genética, que correspondem a um comportamento típico, repugnante e com pouca higiene, fazendo parte desse comportamento desviante a utilização da boca e do ânus como órgãos sexuais.


 


Confesso, mais uma vez, que a discussão sobre a liberdade de opinião e o cabimento deste artigo numa revista da Ordem dos Médicos, por muito generalista que ela seja, me soa a exercício masturbatório de pseudointelectuais desempregados. Este artigo é um tal aglomerado de disparates que só o facto da ROM o ter aceite para publicação é inacreditável, quanto mais a defesa da sua publicação em nome da liberdade de opinião.


 


A minha reacção está muito para além do espanto. Acho degradante e atentatório da credibilidade da ROM, para além da credibilidade da classe médica como um todo, o critério editorial da ROM e o facto do Bastonário da OM achar normal a publicação deste artigo.

11 março 2011

Violência da natureza

Austeridade sem fim

Se tivéssemos alguma dúvida, José Sócrates e Teixeira dos Santos simpática e obstinadamente esclarecem-nos que as contas que prestam é a Angela Merkel e à União Europeia, que a política e a governação do país são dirigidas por Angela Merkel e pela União Europeia.´


 


Acho inadmissível que se apresentem mais medidas de austeridade sem que haja pelo menos a decência de as divulgar ao Parlamento português, para aplacar e suavizar as avaliações da Alemanha e da União Europeia, para tentar ganhar mais uns dias ou uns meses, não sei bem com que objectivo.


 


A estas medidas somar-se-á mais recessão económica, a que se seguirão mais medidas de austeridade. Não parece que nada disto tenha fim. Ou pelo menos um bom fim.

Distinções

Defendo a democracia participativa com partidos. Defendo a democracia participativa para além dos partidos. Defendo a liberdade de expressão de opinião e de manifestação, seja qual for o grupo ou opinião que se queira manifestar, pacificamente, respeitando a lei.


 


É importante que os cidadãos exerçam a cidadania com exigência e não se deixem manipular por formas mais ou menos escusas, abrindo a confusão e misturando coisas que não se devem misturar. Como sou uma das pessoas que tem assumido como a mesma a manifestação convocada para amanhã, da geração à rasca, com uma manifestação contra a política e os políticos, que pede a demissão de toda a classe política, devo informar que, pelos vistos, essas duas manifestações não são a mesma.


 


O que não apaga tudo o que penso dos protestos que este movimento tem protagonizado, o que não impede que pense que este movimento está a ser aproveitado/conduzido oportunisticamente por forças políticas, como o PCP e o BE, que tentam cavalgar todo e qualquer protesto.

10 março 2011

A nova era

 



 


A noção que o Presidente recém empossado tem de cooperação entre as instituições da democracia portuguesa é estranha, mas não surpreende. Cavaco Silva aproveitou esta oportunidade para, mais uma vez, abrir caminho a eleições antecipadas, em vez de promover a estabilidade, que tanto apregoou antes e durante a campanha presidencial. Aproveitou, cinicamente, os movimentos da geração à rasca, tal como aproveitou as manifestações e as marchas a favor da escola pública, promovidas pelos sindicatos dos professores.


 


O Presidente Cavaco Silva fez um discurso que traçou as linhas gerais do próximo governo de coligação PSD/CDS. A alternância é natural e saudável em democracia. Já não é saudável que seja o Presidente da República a liderar a oposição.


 


Ao reduzir a última década a um conjunto de anos perdidos, leia-se pela governação socialista, mais especificamente pela governação de Sócrates, Cavaco Silva não se lembrou da União Europeia, ao apontar a dependência alimentar não se lembrou da política agrícola comum. Ao falar da aposta na tecnologia e na ciência também se esqueceu do significativo aumento de cientistas em Portugal, nacionais e estrangeiros, e do aumento de publicações científicas. Quando diagnosticou a dependência do exterior também se esqueceu da aposta nas energias renováveis, nas tecnologias da comunicação, nomeadamente na banda larga. Não houve lugar, no seu discurso, para a verdadeira reforma que se iniciou no ensino. Cavaco Silva lembrou-se agora dos artistas e da cultura, mas esqueceu a crise.


 


Tudo já foi dito sobre este início presidencial. Tal como o Eduardo Pitta penso que esta nova era, como muitos gulosamente já lhe chamaram, inaugurada pelo discurso de Cavaco Silva, deveria ser assumida em pleno. Era clarificador que o governo apresentasse uma moção de confiança à Assembleia da República.


 

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...