
A noção que o Presidente recém empossado tem de cooperação entre as instituições da democracia portuguesa é estranha, mas não surpreende. Cavaco Silva aproveitou esta oportunidade para, mais uma vez, abrir caminho a eleições antecipadas, em vez de promover a estabilidade, que tanto apregoou antes e durante a campanha presidencial. Aproveitou, cinicamente, os movimentos da geração à rasca, tal como aproveitou as manifestações e as marchas a favor da escola pública, promovidas pelos sindicatos dos professores.
O Presidente Cavaco Silva fez um discurso que traçou as linhas gerais do próximo governo de coligação PSD/CDS. A alternância é natural e saudável em democracia. Já não é saudável que seja o Presidente da República a liderar a oposição.
Ao reduzir a última década a um conjunto de anos perdidos, leia-se pela governação socialista, mais especificamente pela governação de Sócrates, Cavaco Silva não se lembrou da União Europeia, ao apontar a dependência alimentar não se lembrou da política agrícola comum. Ao falar da aposta na tecnologia e na ciência também se esqueceu do significativo aumento de cientistas em Portugal, nacionais e estrangeiros, e do aumento de publicações científicas. Quando diagnosticou a dependência do exterior também se esqueceu da aposta nas energias renováveis, nas tecnologias da comunicação, nomeadamente na banda larga. Não houve lugar, no seu discurso, para a verdadeira reforma que se iniciou no ensino. Cavaco Silva lembrou-se agora dos artistas e da cultura, mas esqueceu a crise.
Tudo já foi dito sobre este início presidencial. Tal como o Eduardo Pitta penso que esta nova era, como muitos gulosamente já lhe chamaram, inaugurada pelo discurso de Cavaco Silva, deveria ser assumida em pleno. Era clarificador que o governo apresentasse uma moção de confiança à Assembleia da República.