20 fevereiro 2011

Intervalo


 


 


Intervalo feito de mar e bruma. O ruído acalma e os olhos enchem-se de azul e brilho. Pausa e asas, sinto-me leve. Ao meu lado passam rodas, pernas esforçadas, cabelos molhados de suor, óculos escuros, mochilas às costas, garrafas de água nas mãos cansadas.


 


Aos pares ou isoladas, gente que conversa, que ouve música, que fotografa, que observa, que pesca. Gente do lado verde da vida.


16 fevereiro 2011

Que se arrasta


George Bellows: New-York 


 


 


I.
Às portas da cidade, entre
os passos da chuva e o bramir
da multidão, correm os olhos. É mais
o ruído das vozes interiores, o rodopiar
de sentidos entre os dedos, que o coro
anónimo que se arrasta de gente.



II.
Dói-me a tua mão que falta
o ardor do exacto local
onde não estás.



III.
Perfeição de músculo, câmaras de entrada
e de saída, sem refluxos
nem arritmias. Já nem de corda
mas digital, corações
automáticos. Espero transplante
cerebral.


13 fevereiro 2011

O concerto


  


Não percam. Está ainda no Fonte Nova e no El Corte Inglés.


 


Entretanto, ouçam o concerto para violino Op. 35, de Tchaikovsky, por David Oistrakh.


 









Amarrotar

 



João Jacinto


 


Gosto de escavar na voz interior, no meu interior, não das vísceras a que ligamos a humanidade, mas da única víscera que nos faz aprofundar a úlcera dos sentidos, aquela víscera que nos sabe a medo e a sublime, que nos assusta e nos impele para o âmago do animal.


 


Todos os gestos analiso e questiono e repenso e refaço, mas nunca de forma a transformar o acto mental em físico, como se uma atadura, uma armadura me tolhesse e espartilhasse os movimentos. Só me movo por dentro do cérebro, em viagens indistintas, amálgamas de sonhos, antecipações ou ruminações de passados mais ou menos presentes. Mole e pesado corpo numa vívida componente de sinapses, água e electrólitos, uma electricidade que não detona qualquer bomba.


 


Vou amarfanhando os papéis que, ao longo das horas, começo a escrever dentro da minha pele, sem nervos nem músculos. Quando me deito e aguardo pelo bem-vindo apagamento, amarroto o que restou do dia e deito-o para o buraco negro da noite.


12 fevereiro 2011

Junto ao rio


Bordalo II


 


Manhã junto ao rio, lisa


branca macia, como a folha


em que se projectam dores


ou tédio, como o início de um poema


o ensaio de um grito, como um frémito de beijo.


Afirma-se e desmente-se

 


Como disse há alguns dias, era necessário saber ao certo o que se tinha passado no dia das eleições, para que se apurassem responsabilidades e se percebesse se teria havido possíveis implicações nos resultados eleitorais.


 


Após a prestação do Ministro Rui Pereira na Assembleia da República e do desmentido do ex-Director-Geral da Administração Interna, a confusão é ainda maior. No relatório encomendado pelo Ministro fica a saber-se que 770.000 eleitores deveriam ter recebido uma notificação sobre a mudança do número de eleitor e do local de votação. Ou seja, setecentos e setenta mil eleitores podem ter ficado sem votar.


 


É claro que considero que os eleitores também são responsáveis por não se terem informado. A verdade é que todos achamos que os outros são sempre responsáveis por aquilo que nos diz respeito a nós. Mas isso não pode apagar as responsabilidades do Ministério como um todo e do próprio Ministro em particular. E este novelo em que se está a transformar o relatório, as explicações e os desmentidos, é degradante. O Ministro deveria pedir a demissão.


 


Como disse ontem Correia de Campos, se Rui Pereira se tivesse demitido no próprio dia das eleições, era um herói, assim coloca-se, a ele e ao governo, numa situação cada vez mais desconfortável.


 

Da falta de censura ao disparate

 


Se alguma vez alguém teve a leve esperança que o BE pudesse ser uma força política para apoiar ou incluir um governo de esquerda, a apresentação desta moção de censura, com um mês de antecedência e sem qualquer objectivo de derrubar o governo, como José Manuel Pureza reconhece, é a mais disparatada e patética iniciativa de que Francisco Louçã se poderia lembrar.


 


Tão disparatada e patética é a titubeante reacção de Passos coelho que ao contrário de alguns dos seus companheiros de partido, ainda não esclareceu que nunca iria apoiar esta moção de censura.


 

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...