Keith Page: Street musicians in Prague
Em tempos de crise a tendência é reduzir o consumo ao essencial, olharmos para os gastos e considerarmos supérfluas as conversas à volta de um café, o jantar fora com os amigos ou a família, o cinema, os livros, os bailados, a pintura, os concertos, dizermos a nós próprios que o que importa é comer, vestir, trabalhar.
De facto o que importa é viver. Sem música, teatro, pintura, bailado, poesia, romance, não se vive. O ser humano inventa e sonha, precisa da arte para sobreviver. O cérebro necessita dessa alimentação etérea. Nas situações mais críticas, como nos campos de concentração, a música manifestou-se como o último resquício de sanidade. De pouco se faz música, ritmo. A melodia das palavras, o enlevo da dança, o balanço e o brilho das formas e das cores.
A arte é a essência das pessoas e das comunidades. É nas diversas formas de comunicação que os povos se definem, se misturam e se diferenciam. Essa é a marca original, a marca de uma sociedade e de um país. Esse é um investimento seguro e rentável, para o Estado e para a iniciativa privada. Exportar a cultura portuguesa, os seus criadores, a sua arte, é uma aposta que não se equaciona. Tudo o que vive e se mexe à voltas das ofertas dos museus, das galerias de arte, das salas de concerto, dos jardins públicos, dos bares, das salas de teatro, as tertúlias, os convívios, os restaurantes, os livros, os discos, o conhecimento dos meios urbanos, as geografias e as rotas gastronómicas, o artesanato, a moda, os bonecos de barro, as marionetas, as festas e romarias, os provérbios, os santos.
Em tempos de crise percebemos que não podemos prescindir da arte. Deveria ser um dos investimentos prioritários para vencer a tristeza, a modorra, a desmotivação.