16 outubro 2010

Entretanto

 


Troféus Pedrada no Charco - Melhor Disco do Ano 2010 (atribuída pelo Orfeão de Leiria Conservatório de Artes) - Graffiti - Júlio Pereira, Tiago Torres da Silva, Tiago Taron. Cantam - Sara Tavares, Dulce Pontes, Olga Cerpa, Marisa Liz, Nancy Vieira, Manuela Azevedo, Maria João, Sofia Vitória, Filipa Pais e Luanda Cozetti.


 







 


Marisa Liz



Eu às vezes não sei o que hei-de dizer
sou refém da palavra que me quer fugir
prendo o salto no verbo que deve ser
ou tropeço no nome a seguir

'stá debaixo da língua
brincando às 'scondidas com o coração
'stá debaixo da língua
parece que vai aparecer ou parece que não

e depois... e porém... e não sei... talvez
fico muda... repito tim-tim-por tim-tim
sinto o chão a tremer debaixo dos pés
e gaguejo ou qualquer coisa assim

'stá debaixo da língua
tão longe e quem sabe ao alcance da mão
'stá debaixo da língua
parece que já me lembrei ou parece que não

(desato a rir
não lembro de mais nada
eu desato a rir
o fio escapa à meada
eu desato a rir
e sim, e coisa e tal
eu sei lá)

sobe o pano, o actor quando cai em si
não se lembra da fala e não sabe o que é
fecha os olhos, diz "to be or not to be"
e o público aplaude de pé

'stá debaixo da língua
atada à cortina e ao projector
'stá debaixo da língua
talvez amanhã ela volte a ligar ao actor

Tolerância zero (1)

 



 


O governo está apostado em tudo fazer para se cobrir de vergonha e se descredibilizar. Depois da inominável pantomima a que assistimos, mais uma vez, na entrega da famosa pen ao Presidente da Assembleia da República, ouvimos da boca do Ministro das Finanças justificações inaceitáveis em qualquer profissional que se preze, quanto mais de um responsável político.


 


De tal forma que não é preciso ser da oposição para se estar muito descrente no que quer que este governo diga em relação às finanças públicas, aos impostos e à redução da despesa.


 


Na verdade também não se entende o coro de lamentações de partidos como o PSD e o CDS. Estiveram meses a pedir as medidas de austeridade. Por coerência só as poderiam apoiar entusiasticamente.


 


O que me preocupa é continuar sem perceber com o que se passa com a execução orçamental de 2010, com a falta de orientação da política de saúde, a quebra de importantes medidas, anteriormente bandeiras do PS, como a prescrição por DCI, que apenas pela insistência do CDS e por uma coligação negativa foi possível fazer passar no Parlamento.


 


O que me preocupa é a unanimidade do dramatismo e a falta de alternativas.


 


O que me preocupa é a negligência e a incompetência do governo numa altura em que seria crucial que confiássemos nele.


 

15 outubro 2010

Um dia como os outros (71)

 



(...) Trata-se, afinal, de um partido que não se inibe de venerar publicamente um autor de crimes contra a humanidade que ombreia com Hitler - sim, o "genial pai dos povos" Estaline; cujos dirigentes consideram a monstruosa monarquia da Coreia do Norte "opção do povo", quiçá uma democracia; que defende a greve geral por cá a propósito do corte de salários no sector público e o despedimento de um milhão de funcionários públicos na ditatorial e oligárquica Cuba; que protesta, em comunicado oficial, contra a atribuição do Nobel a Liu Xiaobo, condenado a 11 anos de prisão por delito de opinião na China do capitalismo selvagem de partido único, da depredação ambiental e do recorde mundial das execuções capitais. (...)


 


Fernanda Câncio

13 outubro 2010

Haiti






 



Caetano Veloso & Gilberto Gil






Quando você for convidado pra subir no adro
Da fundação casa de Jorge Amado
Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos
Dando porrada na nuca de malandros pretos
De ladrões mulatos e outros quase brancos
Tratados como pretos
Só pra mostrar aos outros quase pretos
(E são quase todos pretos)
E aos quase brancos pobres como pretos
Como é que pretos, pobres e mulatos
E quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados
E não importa se os olhos do mundo inteiro
Possam estar por um momento voltados para o largo
Onde os escravos eram castigados
E hoje um batuque um batuque
Com a pureza de meninos uniformizados de escola secundária
Em dia de parada
E a grandeza épica de um povo em formação
Nos atrai, nos deslumbra e estimula
Não importa nada:
Nem o traço do sobrado
Nem a lente do fantástico,
Nem o disco de Paul Simon
Ninguém, ninguém é cidadão
Se você for a festa do pelô, e se você não for
Pense no Haiti, reze pelo Haiti
O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui
E na TV se você vir um deputado em pânico mal dissimulado
Diante de qualquer, mas qualquer mesmo, qualquer, qualquer
Plano de educação que pareça fácil
Que pareça fácil e rápido
E vá representar uma ameaça de democratização
Do ensino do primeiro grau
E se esse mesmo deputado defender a adoção da pena capital
E o venerável cardeal disser que vê tanto espírito no feto
E nenhum no marginal
E se, ao furar o sinal, o velho sinal vermelho habitual
Notar um homem mijando na esquina da rua sobre um saco
Brilhante de lixo do Leblon
E quando ouvir o silêncio sorridente de São Paulo
Diante da chacina
111 presos indefesos, mas presos são quase todos pretos
Ou quase pretos, ou quase brancos quase pretos de tão pobres
E pobres são como podres e todos sabem como se tratam os pretos
E quando você for dar uma volta no Caribe
E quando for trepar sem camisinha
E apresentar sua participação inteligente no bloqueio a Cuba
Pense no Haiti, reze pelo Haiti
O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui

Somos todos chilenos


O resgate


 


Nota: Título roubado (sem saber) à Câmara Corporativa.

10 outubro 2010

10.10.10


 


Ana Vidigal


 

A divisão do país

 


Uma pequena parte do país entretém-se a predizer horrores caso o OE para 2011 não passe na Assembleia da República. De tal forma que há quem peça encarecidamente ao PSD para se abster, mesmo que odeie o OE, mas por imperativo patriótico, nacional, responsabilidade política e, último e indispensável argumento, para acalmar Os Mercados.


 


A outra grande parte do país não percebe o que são Os Mercados, a razão de continuarem nervosos, apesar de todos os prometidos cortes salariais, do incontornável aumento de impostos, da propagandeada redução da despesa pública à custa dos parasitas do país - os funcionários públicos. Suspeito mesmo que essa grande parte do país pense que nada acalmará os irascíveis Mercados, visto que têm um humor mais negro que os ferozes deuses do Olimpo.


 


Essa grande parte do país também não entende muito bem porque é que, no início da crise de 2008 e durante o ano de 2009, a Europa se penalizou e penitenciou pela falta de regulação dos ditos Mercados, pela selvajaria do capitalismo, pelo esquecimento do estado social, sugerindo uma intervenção do Estado na banca, no investimento, nas empresas, no incentivo ao emprego e no apoio aos desempregados, para depois, num volte-face mais ou menos abrupto para o que existia antes da crise, se encarnice agora contra os défices públicos, que aumentaram astronomicamente nos anos anteriores.


 


Essa grande parte do país apenas se interroga: quando vamos receber menos - neste ou no próximo ano? Quando aumenta o IVA para 23% - neste ou no próximo ano? Vamos manter o 13º mês? E no próximo ano, ainda existirá? Quando vou conseguir emprego? E se perco o emprego? E se adoeço? E se não consigo pagar a renda? Essa grande parte do país olha para os dias que passam com aflição e medo. O medo que está a ser uma constante nestes tempos modernos: a criminalidade, o terrorismo, o desemprego, a crise, a bancarrota, o FMI.


 


Essa grande parte do país que votou maioritariamente à esquerda não entende porque é que a esquerda não apoia o governo, como também não entende que o governo não se apoie na esquerda. Não entende que o PSD queira acalmar Os Mercados mas tudo faça para que, fora de Portugal, olhem para nós com a sensação de que a elite política gosta de brincar com o fogo.


 


Se o PSD quer derrubar o governo que o faça e assuma as suas responsabilidades. Se o governa acha assim tão indispensável que o OE seja aprovado, que faça as negociações necessárias, no Parlamento, para encontrar um compromisso com que seja possível não desvirtuar a sua política. Mesmo que, como essa grande parte do país desconfia, não haja grandes diferenças nas práticas dos partidos políticos, tendo em vista as orientações a que nos obrigámos a obedecer.


 


Entretanto a grande parte do país assustada, assiste impotente e incrédula, aguarda que a democracia cumpra o seu papel e que os representantes que elegeu façam o seu trabalho sem se queixarem.


 


Nota: É bom que esclareça que, quando me refiro à pouca diferença nas práticas dos partidos políticos, refiro-me ao PS e ao PSD. O BE e o PCP não apresentam alternativas credíveis. Aliás, penso que a governação é demasiado para os seus horizontes de partidos da contestação, barricando-se continuamente no passado, mais próximo ou mais afastado, sem qualquer respeito pelas escolhas e decisões eleitorais.


 

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...