25 abril 2010

Estrela da tarde











Carlos do Carmo


José Carlos Ary dos Santos & Fernando Tordo


 


 


Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia


 


Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia


 


Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza


 


Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram


 


Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram


 


Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto


 


Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto.

Do que somos


Loel Barr: Waiting for the world


 


Nasce um dia brilhante filho de dias de chumbo


há poucas crianças para correr.


Olho os campos de flores vadias


crescem porque são flores e porque são vadias.


Saboreio a antecipação das pétalas


mas não me movo – metáfora quase sagrada


do que somos e do que desejamos.

Um tempo que passou






 


Chico Buarque & Sérgio Godinho


Canta Sérgio Godinho


 


Vou
uma vez mais
correr atrás
de todo o meu tempo perdido
quem sabe, está guardado
num relógio escondido por quem
nem avalia o tempo que tem


 


Ou
alguém o achou
examinou
julgou um tempo sem sentido
quem sabe, foi usado
e está arrependido o ladrão
que andou vivendo com meu quinhão


 


Ou dorme num arquivo
um pedaço de vida
a vida, a vida que eu não gozei
eu não respirei
eu não existia


 


Mas eu estava vivo
vivo, vivo
o tempo escorreu
o tempo era meu
e apenas queria
haver de volta
cada minuto que passou sem mim


 


Sim
encontro enfim
iguais a mim
outras pessoas aturdidas
descubro que são muitas
as horas dessas vidas que estão
talvez postas em grande leilão


 


São
mais de um milhão
uma legião
um carrilhão de horas vivas
quem sabe, dobram juntas
as dores colectivas, quiçá
no canto mais pungente que há


 


Ou dançam numa torre
as nossas sobrevidas
vidas, vidas
a se encantar
a se combinar
em vidas futuras


 


Enquanto o vinho corre, corre, corre
morrem de rir
mas morrem de rir
naquelas alturas
pois sabem que não volta jamais
um tempo que passou

25 de Abril de 1974 - 25 de Abril de 2010


Há 36 anos começou um tempo diferente, em que era possível sonhar com a liberdade, outras condições de vida, com a tão simples e difícil vontade de participar.


 


Hoje olhamos para a democracia e queixamo-nos das suas imperfeições. Das desigualdades, da corrupção, da justiça morosa e injusta, das listas de espera, da falta de médicos, da edução deficiente, do desemprego.


 


São muitas e graves as falhas de um percurso de 36 anos. Mas a melhor conquista de todas foi a recuperação da liberdade. Para nos queixarmos do que não gostamos, para criticar os jornalistas e os deputados, para abrir a internet, ler os jornais que nos apetece, ouvir a música que queremos. Para apoiarmos os candidatos da nossa predilecção, irmos para a rua com cartazes gritar contra este governo, o capital, os mercados. Ir para a rua e gritar que era melhor quando não havia liberdade.


 


Durante estes anos podemos orgulhar-nos de ter sistemas de saúde e de educação universais, uma segurança social que apoia os mais velhos e os desempregados. É pouco, mal fiscalizado, com insuficiências, mas antes do 25 de Abril não era.


 


Este é um dia para comemorar aqueles que há 36 anos arriscaram e acreditaram que era possível fazer diferente e melhor. E é nisso que, agora, eu acredito também.

24 abril 2010

Pensamento único


 


Estamos numa escalada perigosa na lógica do pensamento único, do fundamentalismo moralizador e dos polícias do pensamento. Tanto se fala na liberdade de expressão que se esquece a suprema liberdade de pensar, argumentar, rebater, discutir. Criam-se novos tabus numa sociedade que se diz cada vez mais aberta.


 


A comissão de inquérito parlamentar é um palco para uma luta política que perdeu de vista o objectivo proclamado, tendo permanecido o objectivo subjacente – desgastar o governo como um todo e o Primeiro-ministro em particular. O deputado Ricardo Rodrigues, com as saídas intempestivas de cena, ajuda à descredibilização da sua bancada. É uma peça de teatro sem qualidade. Mas no Parlamento, na casa da democracia, o facto de alguém se remeter ao silêncio é motivo para escândalo e protestos de indignidade, por parte de quem deveria defender o direito a falar ou a calar-se. A Assembleia da República travestida de tribunal inquisitório.


 


Afinal a deputada Inês de Medeiros sempre tem direito a que lhe paguem as viagens para Paris. Depois de ter sido difamada e enlameada pelos jornais, blogues e comentaristas militantes, daqueles que se indignam pelo facto do dinheiro dos contribuintes pagar deslocações de deputados mas que se insurgem contra medidas de regularização de salários milionários dos apóstolos dos mercados, num país que assiste à extrema hipocrisia social e à desigualdade na distribuição da riqueza, obviamente vilipendiadas pelos mesmos apóstolos, mantém-se como alvo de ataques de carácter, uma das melhores contribuições da anterior direcção do PSD para a luta político-partidária.


 


O episódio do teste de Direito Constitucional do Prof. Paulo Otero deixa-nos uma amarga sensação de que é proibido falar, caricaturar, usar a palavra homossexual ou o conceito de homossexualidade, pelo perigo de ofensa grave. Pelo que fui lendo ao longo dos últimos dias, um Professor resolveu usar exemplos absurdos para que os estudantes, todos eles maiores de idade, usassem os seus conhecimentos e a sua capacidade argumentativa para defender o indefensável. Repentinamente o Professor passou a ser maldito por homofóbico e reaccionário, iniciando-se aquilo que parece uma uma caça às bruxas. Na opinião de alguém que o conhece e que lhe reconhece ideias ultraconservadoras, o Paulo Otero é um excelente professor, encoraja os alunos a exporem as suas ideias e premeia quem as defende, mesmo que sejam opostas às suas.


 


Como essa mesma pessoa disse, o primeiro que caricaturou George W. Bush como um macaco foi espirituoso e muito arguto; se alguém se atrever a fazer o mesmo a Barack Obama é, de certeza, racista.


 


Amanhã é 25 de Abril. E viva a democracia, a criatividade, a liberdade de pensamento, a transgressão, a provocação intelectual, o desalinhamento.


 


21 abril 2010

Sur le Pont de l'Alma mía









cantam: Agnès Jaoui & Dimas MD


 


 


Rien qu’un regard, un simple regard qui vous frôle


Un seule sourire  et juste un sourire qui s’envole


Il suffit qu’il se pose en plein cœur pour qu’il vous désarçonne


Pour qu’un esprit battu capitule, abandonne.


 


Il était là sur le pont de l’Alma


En pleine conversation s’échappaient de si jolis sons que


Même dans le soir j’ai cru savoir.


 


Je pourrait tout quitter, partir, le suivre partout où il voudrait


Je pourrait l’embrasser, aller si loin, très loin autant qu’il le faudrait


Comment dit-on « coup de foudre » en espagnol ?


 


Pero qué linda que es esa chica que va


Que va pasando y cruzando me mira…


Si es así en Paris, si es normal su forma de mirar


Más pareciera que ella quisiera venirme a hablar.


 


Muy despacito ya va pasando


Y tan cerca de mí que puedo sentir palpitando


Su corazón en el mío.


 


Je pourrait tout quitter, partir, le suivre partout où il voudrait


Je pourrait l’embrasser, aller si loin, très loin autant qu’il le faudrait


Comment dit-on « Je t’aime» en espagnol ?


 


Je crois qu’il me regarde, me sourit, je m’égare


Je ralentis le pas un peu sans trop y croire


Est-ce qu’il est déjà derrière moi le temps de changer mon histoire?


Vais-je avoir le courage de forcer le hasard?


 


Quelle drôle de joie pour la première fois


Ce pont semble un peu court, alma mía


Est-ce toi, mon amour


Devant lequel je n’ose pas?


 


Ya su cuerpo pasó, ya se va alejando


Ya lentamente su espalda va saludando


Y si fuera hacia ella, a su lado y a decirle algo


Qué le diría, qué me diría, qué me dirá?


 


Podría yo acercarme y hablarle a ella así


Bajo la luz de sus ojitos, sus manitos tomaría ahí


La abrazaría hasta que se enamore…


 


Je pourrait tout quitter, partir, le suivre partout où il voudrait


Je pourrait l’embrasser, aller si loin, très loin autant qu’il le faudrait


La abrazaría hasta que se enamore…


La abrazaría hasta que se enamore…

Um dia como os outros (53)







Pouco depois de receber o prémio Pessoa, passei de pessoa vulgar, a Persona, no sentido de me ter transformado numa máscara, por onde se esperava que saísse uma voz a manifestar posições públicas. De repente pediam-me a opinião sobre tudo e nada. Desde logo, recusei dizer qual era a minha cor preferida, o meu signo, se gostava ou não de café com leite de manhã ou um copo de whisky à noite, ou dar as minhas opiniões políticas sobre as primárias do Partido Democrata nos EUA ou sobre as vicissitudes do PSD.

 




Decidi apenas falar de história e de memória, do nosso passado recente ditatorial e, nesse sentido, dei prioridade a deslocações a escolas. Quase que me transformei numa caixeira viajante a quem perguntavam sobre a PIDE/DGS, o Estado Novo e a situação das mulheres durante a ditadura. E o certo é que – agora a sério – tive excelentes surpresas, totalmente contraditórias com o que consta sobre a Escola e os professores, nomeadamente de História. (...)

 




(...) Sei que provavelmente essas escolas constituem excepções, mas basta a sua existência para se perceber que em todo o lado onde há iniciativa, preparação, conjunção de esforços de professores e alunos, a História se torna em algo de apetecível. Em muitos casos, perguntavam-me como se investiga em Portugal. Ou seja, os alunos sentiam uma curiosidade renovada e até… a apetência pela investigação histórica. Sentia-se que, longe de ser uma «seca», a História surgia como um conjunto de histórias contadas e de memórias vividas a contribuírem para um sentido de identidade, baseada num passado comum, que reforçava a cumplicidade no presente.

 




Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...