Este é o texto de Bruno Reis, publicado ontem (26/Fevereiro) pelo Público, em Cartas à Directora (pág.40), a propósito do último artigo de Pacheco Pereira: Um estranho Verão entre eleições
O PÚBLICO fez eco, assim como alguns dos seus colunistas, de afirmações caluniosas quanto ao blogue Simplex surgidas em blogues e nalguma imprensa. Eu fiz parte do blogue Simplex. Como muitos dos que lá escreveram, não tenho, nem tive, nem conto ter qualquer cargo político remunerado por via do actual Governo. Nego terminantemente como insultuosas e difamatórias as notícias que caracterizam o Simplex e os que nele participaram como parte de uma campanha de informação determinada pelo Governo e paga com dinheiro público.
Para quem conheça o descontraído e tudo menos ortodoxo João Galamba é delirante pensar que ele seria chefe de fila de uma qualquer cabala coordenada pelo Governo. Que a imprensa de referência ande a dar como notícias tais patetices insultuosas só mostra como desceu o seu nível de referência. A mesma imprensa que tanto critica os blogues dá eco ao que de pior por lá se publica.
O que escrevi no Simplex foi sempre livremente decidido por mim. Foi essa a condição da minha entrada no blogue em conversa com o próprio João Galamba. Os mails, ilegalmente publicados sem autorização (aparentemente não se vê agora obstáculo em fazer notícias com base em divulgação de correspondência privada, ao contrário do que aconteceu quando se tratava de mails trocados entre jornalistas do PÚBLICO), fizeram parte de uma quantidade enorme de mails referente aos mais variados temas políticos ou mundanos. Essa troca de mails resultou simplesmente de uma rede de amizades e convergências políticas que levou a que se trocassem informações sobre os debates que dominavam a campanha eleitoral – foi expressamente com esse objectivo que o blogue foi criado e quem o lia sabia isso. Essa troca de mails nada teve de anormal ou de ilegal. Nenhum foi assinado por um membro do Governo, nem configura qualquer instrução do Governo.
Sei bem o que é estar num blogue com uma linha política definida, e sei bem a diferença. No Barnabé, blogue em que participavam pessoas mais ou menos ligadas ao Bloco de Esquerda – e agora cronistas em jornais de referência –, mas que se reclamava um blogue plural de toda a esquerda, aí, sim, sofri pressões de alguns para não me desviar de uma determinada linha. Tal nunca sucedeu no Simplex. Sei sobretudo que o Carlos Santos que o PÚBLICO e outros media apresentam como defensor da liberdade de expressão, da imparcialidade e da ética república, CENSUROU a publicação do post em que eu tencionava explicar por que saía do blogue A Regra do Jogo. Sei que o Carlos Santos criou o blogue A Regra do Jogo, logo a seguir ao fim do Simplex e convidando, com elogios rasgados, os que tinham participado nesse (agora) aparentemente temível exemplo de manipulação da informação. Sei ainda que o mesmo Carlos Santos apelou a participantes no Simplex para lhe arranjarem um lugar de cronista na imprensa. Sei que há oportunistas em todos os partidos, que os usam como forma de promoção pessoal. A minha pergunta é se não será esse o caso do Carlos Santos.
Convém também recordar que são pagos pelo erário público os deputados e respectivos assessores dos partidos da oposição que, também eles, fazem política e participam no debate público na imprensa e nos blogues. Cabe perguntar, portanto, se o que se quer, na verdade, é que os apoiantes do programa do actual Governo não tenham a liberdade de participar no debate público para defender as suas ideias – sejam eles assessores do Governo, membros do Governo, ou, como é o meu caso, não tenham mais do que prejuízo com o tempo que gastam na política.
Há um clima crescente na sociedade portuguesa de intolerância e tentativa de silenciar os que apoiam as corajosas reformas e os ambiciosos projectos para o país do actual Governo. Quantos comentadores no PÚBLICO defendem regularmente a política do Governo – 1, 2? Entre quantos? Os jornais não têm de reflectir os resultados eleitorais na escolha de colunistas políticos. Mas também não têm o direito de dar eco a calúnias que visam vozes que se atrevem a desafiar os poderes fácticos e os interesses instalados na imprensa e não só.
Bruno Reis, Lisboa