04 agosto 2009

Análise de risco e preconceito

 


(...) Um exemplo inesperado da lógica economicista é a rejeição de dadores de sangue homossexuais, para simplificar o controlo dos dadores em geral. (...)


(Fernanda Palma, Correio da Manhã, 02/08/2009)


 


A ciência tem os seus limites e deve aprender a minorá-los. Não há nenhuma análise, por mais sofisticada que seja, cujos resultados não tenham margem de erro. O conhecimento científico aprofunda-se todos s dias e, hoje em dia, é possível fazer um controlo bastante apertado ao sangue colhido dos dadores, pelo menos aos agentes infecciosos que se conhecem.


 


A selecção de dadores de sangue rege-se por análises de avaliação e controlo de risco. Tal como a decisão de escolher grupos de risco a quem aplicar as vacinas da gripe ou do colo do útero; tal como a decisão de definir grupos que beneficiam de um determinado agente terapêutico; tal como se definem grupos populacionais para rastreios de determinadas doenças.


 


Só para exemplificar, o rastreio do cancro da mama é efectuado às mulheres que têm história familiar de cancro da mama e à população feminina com mais de 50 anos, no NHS (Reino Unido). Mesmo havendo países que baixam a idade de rastreio para este tipo de cancro, não há nenhuma organização de saúde que preconize o rastreio a toda a população. Seria incomportável a nível dos recursos humanos, logísticos e financeiros. E no entanto há mulheres mais novas com cancro da mama, assim como há cancro da mama em homens, não sendo estes incluídos no rastreio.


 


Neste caso poderá alegar-se que quem não é rastreado poderá ser prejudicado porque corre o risco de ter cancro da mama sem que este seja detectado em fases iniciais (o objectivo do rastreio). Tal como no caso da determinação de grupos de risco para administração da vacina da gripe, pode colocar-se a questão da restante população estar a ser discriminada por correr o risco de ser infectada quando há uma hipótese de prevenção.


 


No caso dos dadores de sangue quem não dá sangue não corre qualquer risco por esse facto. Quem o recebe sim. E como não existe a certeza cientificamente comprovada de que as análises a que temos acesso são capazes de excluir todo o risco de contaminação, esta é uma forma de proteger quem vai receber as transfusões. Por exemplo, a dádiva de sangue era paga em muitos países. Há, neste momento, orientações da OMS para os dadores sejam 100% voluntários porque se concluiu que os pagos tinha muito maior prevalência de doenças que os voluntários.


 


Não me parece portanto que esteja em causa qualquer lógica economicista com a exclusão dos homossexuais masculinos, mas apenas uma lógica de aplicação dos conhecimentos actuais e dos recursos disponíveis em benefício do tratamento de doentes.

 

Debates de Verão (2)

 


 


 


Continuam, com Mariana Vieira da Silva, pelo SIMplex:


 


Silêncios claustrofóbicos





(...) Enquanto o PSD não apresentar o seu programa eleitoral, ou se, como é provável, não vier a contrariar aquelas que são as ideias apresentadas pelo Instituto Sá Carneiro e pelo seu gabinete de estudos, é também isto que está em jogo nas próximas eleições: escolher entre a estratégia do PS, explícita no seu programa eleitoral, de continuar a melhorar e qualificar a escola pública e o serviço nacional de saúde e de aprofundar o combate às desigualdades ou a agenda do PSD de redução do papel do Estado e de ruptura nas políticas sociais que vimos ouvindo no discurso dos seus dirigentes. (...)


 


e André Abrantes Amaral, pelo Jamais.


 

Sem porto

 


 


pintura de Claude Monet


Étretat, la porte d'Aval: bateaux de pêche sortant du port


 


Sol estala

fende areia nua

brilha mar

escalda gelo azul

vozes longas agudas

gaivotas

barco rumor largo

corpo

solto rumo vigem

sem porto.


 

03 agosto 2009

Da separação de poderes

 


Marques Mendes veio a público considerando que um político - autarca, deputado ou governante - acusado, pronunciado ou condenado por crimes especialmente graves - como corrupção, peculato ou fraude fiscal, por exemplo - está fortemente diminuído na sua autoridade, na sua credibilidade e nas condições para o exercício de um cargo político, comprometendo, assim, o prestígio da política e a imagem das instituições.


 


Este é um princípio que eu subscrevo. E também concordo com Marques Mendes quando ele aponta a falta de coragem dos partidos e do Parlamento para, depois de aprovarem na generalidade e por unanimidade um projecto-lei em que se consagrava a inelegibilidade de candidatos a contas com acusações ou condenações judiciais especialmente graves, há 3 anos, esse projecto foi esquecido por todos os partidos, apesar dos protestos continuados de dignificação dos detentores de cargos públicos e da política, da importância da transparência e do combate à corrupção.


 


Mas as declarações de Guilherme Silva às quais, aparentemente, ninguém deu atenção, são de uma gravidade extrema. Guilherme Silva desculpou o seu partido afirmando que a razão pelo congelamento do projecto lei foi o facto de haver politização da justiça. Com estas declarações Guilherme Silva, sem qualquer pejo, lançou por terra a independência do sistema de justiça, sugerindo que este estava inquinado e controlado pelo poder político.


 


Este tipo de afirmações não podem passar em claro porque a separação entre os poderes é a base do nosso sistema democrático. Caso isto fosse verdade esperar-se-ia dos agentes políticos, nomeadamente do Parlamento e do Presidente da República, para já não falar dos representantes do Poder Judicial, exposição desta grave distorção do funcionamento democrático e esforços para reverter a situação.


 


A irresponsabilidade destas afirmações, secundadas pela demagogia de Manuela Ferreira Leite que se esqueceu que este projecto-lei tem 3 anos e não foi colocado apenas na véspera destas eleições. Honra seja feita a Marques Mendes que em 2005 teve a coragem de afastar nomes como Isaltino Morais, mesmo sabendo que podia perder as eleições.


 


É bom que se realce a complacência e omissão por parte dos restantes partidos políticos com representação parlamentar. Todos foram cúmplices do adormecimento do projecto-lei.


 


Mais uma vez a transparência é uma palavra demasiado transparente.


Nota: também aqui.


 

Ciência imprescindível

 



Tirado daqui

Debates de Verão (1)

 



 


O Diário Económico está a publicar textos dos bloguers do SIMpleX e do Jamais. Hoje coube a vez ao João Galamba, pelo SIMPleX, e ao Rodrigo Adão da Fonseca - Por um novo caminho, pelo Jamais.


 


Parece-me uma excelente iniciativa para um bom debate de ideias, neste Verão quente de 2009.


 


Fica aqui um pequeno excerto do artigo de João Galamba:


 


Que verdade?



(...) Mas, e independentemente da nossa avaliação sobre a estratégia de desenvolvimento proposta pelo PS, a verdade, em si mesma, não é nem nunca poderá ser um programa político, pois um programa implica duas coisas: um diagnóstico sobre a situação do país e um compromisso com um plano de acção. Desde Aristóteles que a política é entendida como uma forma de acção, mas Ferreira Leite decidiu inovar e propõe uma alternativa: a resignação e a passividade estóica. (...)


 


É só ler e pensar.


 

02 agosto 2009

Dos bastidores









 


O confirmado convite a Joana Amaral Dias agitou a semana política que passou. Aparentemente isto é um caso menor aproveitado para troca de acusações entre PS e BE, com juras de inocência e protestos de moralidade absoluta, de ambos os lados. Ora o episódio não tem nada de inocente. Tem apenas de luta política pura e dura, com armas pouco limpas, utilizadas por todos os protagonistas.


 


A sondagem a Joana Amaral Dias foi feita com a esperança, para o PS, de conseguir mais uma baixa mediática no BE, a seu favor; Joana Amaral Dias pesou os prós e os contras e decidiu que, ao publicitar a abordagem a Francisco Louçã ganharia peso político no BE, peso que tinha perdido por causa do apoio a Mário Soares; Francisco Louçã aproveitou para embelezar a história e dar-lhe um conteúdo moralista e indignado, como tem sido hábito do seu estilo de liderança populista.


 


Ou seja, tal como indicam as últimas sondagens publicadas, o BE tudo fará para atacar o PS pois pensa que assim conseguirá uma votação histórica, do tipo PRD. O PS tudo fará para seduzir os independentes, os descontentes da sua ala esquerda ou aqueles a quem o BE não perdoa dissensões. Foi assim com José Sá Fernandes e com Joana Amaral Dias. Na óptica do PS Miguel Vale de Almeida é um exemplo a replicar. Na óptica do BE a transferência de simpatizantes para o PS faz-lhe perder a imagem de verdadeira e única esquerda e de ética política. Nos bastidores joga-se o tudo por tudo até porque há uma enorme percentagem de indecisos que olha as movimentações sem saber o que fazer.


 


O que a mim me incomoda nestas manobras é que se fica com a sensação que elas são feitas em proveito próprio e não pelos interesses do país ou por motivos ideológicos. Senão como compreender a insistência nas acusações meio fanáticas de Francisco Louçã, a divulgação de uma conversa particular, que deve ser habitual e preparatória de todos os convites, venham eles de quem vierem, o silêncio seráfico que se lhe seguiu, ou os tristes e inacreditáveis desmentidos que de si próprio fez o secretário de estado Paulo Campos?


 


O que interessa ao eleitorado é perceber qual ou quais as forças políticas que podem formar uma maioria e governar o país; qual ou quais as forças políticas que têm uma estratégia de desenvolvimento sustentado, de protecção e apoio social, de optimismo realista.


 


Penso que o BE tem demonstrado diariamente que não pretende cooperar para uma governação estável. Portanto é o PS o único partido que tem estrutura para assumir essa responsabilidade. É bom que mostre o que fez e o que pretende fazer, sem se perder em manobras que apenas distraem as pessoas do essencial.


 


Nota: também aqui.


 






Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...