02 agosto 2009

Vejam bem

 



Zeca Afonso


 


 


Vejam bem

que não há só gaivotas em terra

quando um homem se põe a pensar

quando um homem se põe a pensar


 


Quem lá vem

dorme à noite ao relento na areia

dorme à noite ao relento no mar

dorme à noite ao relento no mar


 


E se houver

uma praça de gente madura

e uma estátua

e uma estátua de de febre a arder


 


Anda alguém

pela noite de breu à procura

e não há quem lhe queira valer

e não há quem lhe queira valer


 


Vejam bem

daquele homem a fraca figura

desbravando os caminhos do pão

desbravando os caminhos do pão


 


E se houver

uma praça de gente madura

ninguém vem levantá-lo do chão

ninguém vem levantá-lo do chão


 


Vejam bem

que não há só gaivotas em terra

quando um homem

quando um homem se põe a pensar


 


Quem lá vem

dorme à noite ao relento na areia

dorme à noite ao relento no mar

dorme à noite ao relento no mar

 

Para que

 



pintura de Jennifer Leigh Caine


Topologies #8


 


Para que não lhe falte o apoio, para que não lhe falte a mão, inclina-se na exacta medida da imensidão do que lhe falta, do que pode dar.


 


Para que não lhe sobre a vida, para que não lhe sobre a dor do que ainda não foi, espraia-se na exacta imensidão do que há-de ser.


 


Para que não lhe falte o ar, para que não lhe sobre o amor, reparte-se na exacta divisão do que ainda lhe falta saber.


 


E tende para infinito.


 

Dos incentivos à natalidade

 



(tirado daqui)


 


Os incentivos à natalidade estão na ordem do dia a propósito do anúncio dos 200€ dados pelo estado a cada criança que nasça, com o objectivo de estimular a poupança, cabendo aos pais alimentar a conta, que poderá ser usada para investimento em actividades de formação, académicas ou outras.


 


Apesar do escasso valor em causa (200€) este tipo de incentivos estão já a ser usados por autarquias do nosso país e por outros países, com valores muito mais apelativos mas com o mesmo exacto objectivo.


 


Penso, no entanto, que o incentivo à natalidade não se faz pagando aos pais um determinado valor, por muito que esse valor possa ajudar na educação dos filhos em famílias com mais dificuldades económicas. As famílias precisam de políticas facilitadoras da vida diária, com apoios alargados na rede de creches, escolas, transportes escolares, horários flexíveis, possibilidade de opção por meios horários, teletrabalho, etc.


 


Quando digo famílias falo de ambos os géneros: são precisas políticas activas que promovam a efectiva igualdade de género. As licenças parentais alargadas que podem ser gozadas pelas mães e pelos pais, em regime de igualdade, são um excelente começo. Qualquer acção que pareça melhorar o apoio apenas às mães pode tornar-se discriminatória para as mulheres, desmotivando-as de terem filhos pela dificuldade de encontrarem empregadores dispostos a dispensá-las durante vários meses. Se isso acontecer também aos pais, os empregadores serão dissuadidos de excluírem candidatos pelo facto de serem mulheres. Mesmo que seja proibido sabemos que é isso que se passa, não sendo fácil detectar e punir estas situações.


 


Para além disso mas não menos importante é o facto de ser cada vez mais vulgar os pais participarem no acompanhamento das crianças em todos os aspectos da sua educação, desde a puericultura ao acompanhamento dos filhos na escola, nas idas a médico ou na assistência na doença, áreas que eram quase exclusivas do universo feminino.


 


Uma escola pública de qualidade, apetrechada com os meios necessários em livros, tecnologias, actividades extracurriculares desportivas e artísticas, é essencial para que não haja entraves económicos ao acesso das famílias mais carenciadas ao ensino.




O estado não pode substituir-se às famílias nem aos indivíduos na decisão de ter filhos. Mas pode facilitar a vida aos cidadãos que queiram fazê-lo de formas mais indirectas, mais abrangente e mais eficazes.


 


Nota: também aqui.


 








30 julho 2009

Vida tão estranha

 



Rodrigo Leão & Ana Vieira


 


 


São de veludo as palavras

Daquele que finge que ama

Ao desengano levo a vida

A sorte a mim já não me chama


 


Vida tão só

Vida tão estranha

Meu coração tão mal tratado

Já nem chorar me traz consolo

Resta-me só o triste fado


 


A gente vive na mentira

Já nem dá conta do que sente

Antes sozinha toda a vida

Que ter um coração que mente


 


Vida tão só

Vida tão estranha

Meu coração tão mal tratado

Já nem chorar me traz consolo

Resta-me só o triste fado

 

O direito de receber

A propósito da entrevista dada pelo Presidente do Instituto Português do Sangue, na sequência das notícias veiculadas a 17 de Julho pelos meios de comunicação, acendeu-se de novo a polémica à volta dos critérios de exclusão de dadores de sangue.


 


A transformação deste assunto em problema político, em bandeira de defesa dos direitos dos homossexuais, acusando o Instituto Português de Sangue e o seu responsável de homofobia, exigindo a sua demissão, é uma forma totalmente desfocada de olhar para a realidade.


 


Não se trata de discriminação dos comportamentos ou das escolhas de orientação sexual, trata-se de usar os meios aos dispor da comunidade científica para a redução máxima do risco de um acto médico, que tem sempre riscos, por mínimos que sejam.


 


A existência de critérios de exclusão é um meio de assegurar a quem necessita de transfusões sanguíneas o menor risco possível de contaminação por agentes infecciosos: HIV, HCV, HBC, HHV-8, HHV-2, priões, etc. Existem grupos nacionais e internacionais que analisam os vários contributos científicos em cada área, as consequências para a população, éticas, sociais e de saúde pública, e definem orientações (guidelines)  para cada caso.


 


Podem consultar-se as guidelines da Cruz Vermelha Americana que estipulam as várias circunstâncias em que as pessoas não devem doar sangue. Por exemplo qualquer pessoa que tenha recebido um transplante de dura-mater (membrana que cobre o cérebro) ou hormona de crescimento não pode dar sangue; os familiares em primeiro grau de uma pessoa com a doença de Creutzfeld-Jacob não podem dar sangue; em relação ao risco de HIV/SIDA diz o seguinte:




You should not give blood if you have AIDS or have ever had a positive HIV test, or if you have done something that puts you at risk for becoming infected with HIV.




You are at risk for getting infected if you:





- have ever used needles to take drugs, steroids, or anything not prescribed by your doctor


- are a male who has had sexual contact with another male, even once, since 1977

- have ever taken money, drugs or other payment for sex since 1977

- have had sexual contact in the past 12 months with anyone described above

- received clotting factor concentrates for a bleeding disorder such as hemophilia

- were born in, or lived in, Cameroon, Central African Republic, Chad, Congo, Equatorial Guinea,Gabon, Niger, or Nigeria, since 1977.

- since 1977, received a blood transfusion or medical treatment with a blood product in any of these countries, or

- had sex with anyone who, since 1977, was born in or lived in any of these countries.


 


Pode também consultar-se o Annual Meeting de 2008 da American Medical Association (AMA) - REPORTS OF THE COUNCIL ON SCIENCE AND PUBLIC HEALTH – que (páginas 421 e 428) faz uma revisão das guidelines actuais:

 


CONCLUSIONS (pág. 426)




Men who have had sex with men since 1977 are currently permanently deferred from blood donation. This FDA policy recommendation has generated controversy due concerns that it may be discriminatory and that it stigmatizes the MSM population. It is clear that a policy change with respect to blood donation deferral is a risk management decision wherein the risks of ntroducing additional infected units for transfusion over the current residual risk must be alanced against the benefits of increasing the pool of blood donors. Also important are ethical and societal factors, which this report does not address. Any policy decision on blood donation deferral of the MSM population must be governed by the best available scientific evidence but there are inherent weaknesses in mathemathical models used in the risk assessments on this issue that continue to generate some uncertainty. With respect to the MSM population, it appears that a policy change from a permanent lifetime deferral to a 5-year deferral following the last MSM contact may be supportable, but societal and ethical consequences must be analyzed should this decision be advanced. Such an analysis should include discussion of what society would consider acceptable risk with respect to safety of the blood supply, as that will determine to what extent a precautionary principle must be factored into any policy decision. Finally, should such a policy change occur, blood collection agencies must be marshaled to collect data that will provide actual data for future risk assessments to improve decision-making on this issue.




RECOMMENDATION (pág. 427)

The Council on Science and Public Health recommends that the following statement be adopted in lieu of Resolution 515 (A-07), and that the remainder of this report be filed:


That our American Medical Association (AMA) recognize that based on existing scientific evidence and risk assessment models, a shift to a 5-year deferral policy for blood donation from men who have sex with men is supportable.


 


Há ainda uma directiva da União Europeia (EC Directive 2004/33) que, no anexo III, define quem está permanentemente excluído de doar sangue:


 


Persons whose sexual behaviour puts them at high risk of acquiring severe infectious diseases that can be transmitted by blood.


 


Em Março de 2008 o Conselho Europeu produziu a Resolution on Donor Responsibility and Limitations of the Right to Donate Blood or its Components - Resolution CM/Res (2008)5 - que conclui que:


 


(...) the fundamental right of the patient to receive the safest possible blood overrides all other considerations, including individuals’ willingness to donate blood. This resolution was adopted by all Member States. (...)


 


Nesse mesmo documento existe uma tabela com os Estados membros que seguem o critério de exclusão de homens que têm sexo com homens (MSM) e os que não seguem, quais os motivos e quais as orientações seguidas. De um total de 27 países, 9 não seguem as guidelines (este documento é de Março de 2009).


 



 


Dar sangue não é um direito. O que é um DIREITO e DE TODOS é o de RECEBER SANGUE com a menor probabilidade possível de conter riscos infecciosos. Cabe aos organismos de saúde pública a responsabilidade de garantirem, tanto quanto os conhecimentos científicos o permitam, que quem o recebe está salvaguardado de doenças futuras, directamente relacionadas com a transfusão. Para isto existem critérios científicos que não se devem misturar com activismo político.


 


Nota: também aqui.


 


Adenda (1) (01/08/2009) - os dados e estatísticas nacionais em relação à infecção HIV/SIDA estão no site da Coordenação Nacional para a infecção HIV/SIDA, no separador documentação e informação, Infecção VIH/sida (CVEDT/INSA) - Dados VIH/sida Doc. 140 - A situação em Portugal a 31 de Dezembro de 2008.


 


Adenda (2) (01/08/2009) - usando os dados do INSA, Infecção VIH/SIDA (doc. 140), actualizados a 31/12/2008, os cálculos de incidência (em 2008) e de prevalência (de 1983 a 2008), considerando a existência de 7,5% de população homossexual (feminina e masculina) e/ou bissexual (média das referências nas sociedades ocidentais – 2 a 13%) os valores encontrados são:



  • Incidência (2008) - 6 por 100.000 habitantes na população homo/bissexual e 3 por 100.000 habitantes na população heterossexual

  • Prevalência (1983/2008) – 256 por 100.000 habitantes na população homo/bissexual e 130 por 100.000 habitantes na população heterossexual


Ou seja, existe o dobro da prevalência e da incidência da infecção VIH/SIDA na população homossexual/bissexual quando se compara com a população heterossexual.


 









Mas se considerarmos as percentagens estimadas da população homo/bissexual (2,2%) num trabalho do ICS, coordenado pelos investigadores Manuel Villaverde Cabral e Pedro Moura Ferreira, do qual fizeram parte Sofia Aboim, Duarte Vilar, Alexandre Lourenço e Raquel Lucas (já citado anteriormente), apresentado em Maio do ano passado no auditório do ICS,  com debate integrado por várias personalidades, entre as quais Miguel Vale de Almeida, a prevalência seria 874 por 100.000 e a incidência 21 por 100.000 habitantes, 7 vezes superiores aos da população heterossexual.


 


E estamos apenas a falar da infecção VIH/SIDA. Faltam as hepatites (B, C, D, …), os Herpes Vírus (HHV-8 e HHV-2), etc.


 


Adenda (3) (02/08/2009) - Agradeço à Ana Matos Pires a  chamada de atenção em relação à incorrecção da adenda 2, já corrigida, que dava como co-autor do trabalho do ICS Miguel Vale de Almeida. Aos autores e ao Miguel Vale de Almeida peço desculpa pelo erro.


 





29 julho 2009

Dos deslumbramentos

 


Sou tão deslumbrada que me deslumbro até com os deslumbramentos que provoco com a minha deslumbrada prosa. Mas se alguém duvida do meu deslumbramento por me deslumbrar com causas tão pouco deslumbrantes, deslumbrado fica pelo deslumbramento sem par que pode causar.


 


E a banda larga nos dai hoje, ora e na hora de deslumbrar.








Dos lugares-comuns

 


Na realidade tenho consciência que digo lugares-comuns em relação a muita coisa, como política educativa, de imigração, energética, ambiental, e até de saúde, pois não é a mesma coisa ser-se operacional ou decisor. São os lugares-comuns que resultam daquilo que os cidadãos comuns pensam da vida colectiva, para além do seu estrito ciclo de relações pessoais e familiares e competências profissionais.


 


A educação é um assunto que importa a todos. A universalização do acesso ao ensino público que se massificou, principalmente desde 1974, foi um ganho indesmentível na alfabetização da população. Aumentou esmagadoramente o número de alunos e professores, foi-se ampliando a escolaridade obrigatória, infelizmente desacompanhada de uma proporcional melhoria e adequação dos currículos, da modernização do parque escolar, da exigência de formação e da diferenciação da profissão docente.


 


A sociedade modificou-se e as famílias não estão disponíveis para assegurar o acompanhamento das crianças e jovens, pedindo-se cada vez mais à escola e aos seus profissionais que assumam vários papéis, transformando-os em transmissores e avaliadores de competências e conhecimentos, psicólogos, médicos e assistentes sociais. Exigem-se polivalências mas não se disponibilizam verbas nem espaços para que elas funcionem. Não existem equipas multidisciplinares com representação destas profissões para que se possam desencadear acções preventivas, para que se possam acompanhar situações de instabilidade familiar ou social.


 


É urgente que se olhe para a escola como uma das bases essenciais do tecido social, no que diz respeito à aquisição de saberes, à socialização e à educação para a cidadania. É preciso dotar as escolas de meios que lhes permitam responder a estes desafios, que permitam a todos, independentemente da sua proveniência sócio económico cultural, terem oportunidade de se integrarem e adquirirem formação para a vida. Devem exigir-se disciplina, rigor, trabalho, competência, a professores e alunos, a quem elabora e a quem escolhe manuais escolares, às associações de pais, às autarquias. Devem adequar-se os meios tecnológicos, as bibliotecas, os ginásios, o ensino da música, da pintura, etc. Há muitas crianças e jovens que poderão contar apenas com os meios que a escola pública lhes oferece para as aprendizagens, socialização e formação.


 


O estado não pode ser o substituto da família mas é o garante do direito à educação; a escola pública é um dos melhores viveiros da democracia.


 


Nota: também aqui.

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...