(Antonio Vivaldi - As Quatro Estações - Inverno - "Allegro")
Faze que a tua vida seja o que te nega./ A luta é tua: fá-la./ Agora, os sonhos em farrapos, melhor é a luta que pensá-la.// Ergue com o vigor do teu pulso;/ solda-o em aço./ E da tua obra afirma:/ – Sou o que faço. [João José Cochofel]
A minha primeira reacção às declarações do Cardeal Patriarca foi isso mesmo – primeira e primária.
Achei um disparate atroz o remexer em possíveis feridas de integração e tolerância religiosa, numa altura em que estamos sempre em equilíbrio instável e num país em que a integração dos muçulmanos parece ser bastante boa.
Na verdade, porque é que o Cardeal Patriarca, representante de uma religião monoteísta, com leituras tão fundamentalistas como as que há do Corão, se lembra de alertar as mulheres portuguesas para o perigo de casarem com indivíduos que professam o Islão?
A pouco e pouco, e a coberto das nossas ideias laicas de tolerância e democracia, esquecemos que estamos a condenar manifestações da mais pura e inalienável liberdade de expressão de qualquer pessoa, nomeadamente de um líder religioso que fala para aquelas e aqueles que são religiosos, num mundo ocidentalizado em que é normal discutir opiniões e fazer declarações, por muito que não concordemos com elas.
E de facto, se pusermos de parte a visão idílica que temos de uma sociedade multicultural que respeita os seres humanos enquanto tal, sem olhar a raças, religiões, opções políticas ou sexuais, se ouvirmos aquilo que, precisamente por vivermos em democracia, muitos dos líderes muçulmanos pregam sem qualquer dificuldade, muitas dessas afirmações deviam fazer revoltar-se-nos os estômagos, porque a dignidade humana, a diversidade, a informação e a democracia estão arredadas dessas pregações.
Em relação às mulheres, principalmente, muitas dos países e das comunidades islâmicas olham-nas e tratam-nas como seres que pertencem aos homens, muitas vezes proibidas de procurarem até assistência médica, sujeitas a rituais que nos repugnam, a nós que discutimos as declarações do Cardeal Patriarca.
Será que podemos discutir com a mesma liberdade as interpretações, leituras e leis do Corão, nas sociedades ocidentais que acolhem e tentam preservar as diferenças culturais e religiosas?
O Cardeal Patriarca foi pouco diplomata nas suas afirmações e deveria sê-lo, foi pouco cuidadoso ao deitar achas para uma fogueira que nunca se extingue, mas para além de ter todo o direito de o fazer, até porque fala para os seus fiéis, não terá alguma razão no que diz? E porque temos tanto receio em o admitir?
(pintura de Elizabeth Perry)
Tudo o que deixas para trás
no liso confuso fundo da memória
tudo o que deixas para trás
velho inútil gasto tudo arrasa
o que te falta nesta bruma
névoa irregular tecido do amanhã.
Depois de me chegarem tantos prémios, resolvi criar eu própria um prémio bloguístico mas que não distinga géneros, raças, idades, colectivos ou solitários. Só interessa que goste mesmo de os ler.
Resolvi chamar-lhe Deste, gosto mesmo!
Lá vão alguns dos que gosto mesmo. Não são todos, mas podemos começar por estes quinze.
Quem quiser pode usar este prémio para distinguir outros quinze.
Isto é até muito divertido!
Adenda: já agora gostava de lançar um desafio a estes mesmos blogues: qual foi a notícia mais interessante, saída no dia em que começou o respectivo blogue (em qualquer meio de comunicação, bem entendido - jornais, televisões, revistas, blogues, etc.)?
Não é todos os dias que se recebe um prémio de ouro, principalmente de alguém do mais puro quilate. Agradeço e fico imensamente vaidosa.
É claro que esta é uma das correntes da felicidade que nunca quebro. Sendo assim, tenho que indicar seis blogues excelentes e ainda mais merecedores do título, embora tenha a vida algo dificultada pelos blogues mistos:
Segue a roda!
Mal, ou - ao menos - mais ou menos, este lugar continua-se
Ela caiu há dez dias, em casa, escorregou-se nela e bateu com a cabeça no chão e desmaiou, susto grande. Acordou no hospital e, da queda propriamente dita, nada resultou de nefasto: cabeça limpa.
Tinha era o que tinha, conhecia-a há vinte meses e, já por esse tempo, tinha o que tinha, chegou-me à minha vida numa rampa inclinada da vida dela, ladeira descida com travões a fundo mas sem ABS.
Equiparam-na de pijama bonito, na enfermaria. Ela mais amarela e mais inchada, por dentro dela e do pijama, do que há quinze dias.
"Vais-te...".
Foi-se.
Hoje morreu. Ia dizer "morreu-me", mas já não. Aprendo tarde, mas ainda aprendo.
Ela morreu, sim.
E morreu-lhes a eles, ao homem e aos três filhos, que lhe abraçaram o corpo e lhe beijaram a face como se as lágrimas do fim fossem loção que oleasse despedidas.
A mim, não. A mim não me morreu.
Limita-te, besugo, para já, a acompanhar as rampas inclinadas dos outros. Aprende: tu só acompanhas.
Até sentires que começas a descer a tua - olha, pode ser de repente, besugo, pode ser como foi com o Rui, o teu colega que foi hoje a enterrar, podes até nem dar muita fé da rampa, da ladeira, besugo lorpa.
E, quando isso te chegar a ti, que tenhas alguém que te chore em cima uma loção qualquer de adeus.
Um unguento quase líquido que comova, ao menos, quem estiver ali de bata branca - fardamento nobre da pobreza -, se calhar ser o caso, a acompanhar, calado, quem estiver, se vieres a ter essa sorte por destino, a ungir-te.
(besugo)
Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...