
Mais uma cerimónia de comemoração da implantação da República, com muito menos pompa e circunstância da evocação do Regicídio. Estamos em tempos de branqueamento e de revivalismo, menorizando uns actos revolucionários e enaltecendo outros.
Tudo isto tem muito pouco a ver com rigor e objectividade históricas, aproveitando-se as várias efemérides para recados e mensagens políticas, neste momento dos sectores mais conservadores da sociedade que, com a cambalhota dos capitalismos desenfreados e da entronização do Mercado, entidade tão ausente e abstracta com o etéreo mas que tem servido de justificação para enormes e pesados despedimentos colectivos quando as empresas deixam de ter lucros milionários, parecem encontrar-se sem norte nem rumo.
Mais uma vez o nosso Presidente Cavaco Silva dissertou sobre a crise e a verdade, sobre a fibra dos portugueses e a ética republicana. Nada de original, motivante ou galvanizador de qualquer vontade.
Vamos vivendo o dia a dia, recuperando a ideologia da poupança, da redução do consumismo e do Estado como regulador e benfazejo, mesmo para os que passaram as últimas décadas a exigir que tudo seja entregue à regulação do mercado e à sacrossanta e caridosa sociedade civil.
Mas o nosso Presidente, tão cinzento, monocórdico, igual a si próprio, prepara-se para liderar a oposição a Sócrates e à maioria socialista. À frente do PSD já se colocou a sua pupila dilecta, que pede audiências urgentes para saber a opinião da Excelentíssima Primeira Figura sobre a independência do Kosovo!
O que vale é mesmo tudo, até esse submundo blogosférico em que nos movemos, todos os dias bafejada com o sopro da higienização que vem dos lados do Abrupto e de mais alguns assépticos como ele, que se transformam em damas sofisticadas e de nariz sensível quando à sua volta tudo tem aspecto lamacento.
Felizmente, e ao contrário dos monárquicos, temos periodicamente oportunidade de mudar e escolher outro Presidente.
Viva a República!