15 agosto 2007

Entardecer

Entardecemos,
meu amor,
com olhos de luz
poente
mãos crepitantes
e sedentas.

Ávidos de verde
empapamos de chuva
as manhãs acesas
e juntos,
meu amor,
renascemos.

(pintura de Hessam Abrishami: Autumn Eve)

Agosto

Reparei que chovia. Agosto revolucionariamente revoltado com o Verão.

Inesperadamente retirarem-se apetrechos a condizer. Mas ninguém estava preparado e as indumentárias matinais foram muito divertidas: calções de banho, chinelos e guarda-chuva, num senhor muito distinto, sandálias e gabardina, numa rapariga gorducha.

Mas todos de bom-humor. Ser do contra dá sempre algum gozo. Talvez por isso tenha escolhido exactamente esta manhã para lavar o carro.

Remodelar

Tem-se falado muito de uma remodelação do governo, entradas e saídas de ministros previstas, com nomes apostados pelos comentadores profissionais.

Pois eu acho que deveria haver remodelação urgente dos assessores jurídicos, de imagem, de imprensa, de tudo. Os erros são mais que muitos. E Cavaco Silva tem aproveitado, e bem, por dar um ar da sua graça.

Sócrates superstar não chega. Vitalino Canas, Augusto Santos Silva e o eterno Pedro Silva Pereira são indecorosamente insuficientes.

E que tal o Sr. Primeiro-Ministro aproveitar as férias para pensar muito, profundamente, olhar-se bem ao espelho e dispensar os aduladores?

13 agosto 2007

Esperar

Correia de Campos está satisfeito com os resultados publicados em relação à melhoria dos tempos médios de espera para cirurgia e tem razões para isso. De facto, mesmo não concordando com a forma como o combate às listas de espera cirúrgica se faz, tenho que reconhecer que os resultados são bons.

No entanto, gostaria que me convencessem de que esta é a melhor forma, mais eficaz, que garante maior qualidade no tratamento, e mais barata. Gostaria de saber porque não se esgota primeiro a capacidade instalada nos hospitais públicos, em termos físicos e humanos, em vez de se contratarem cirurgias com os privados.

Correia de Campos está satisfeito mas espero que não se dê por satisfeito, pois é necessário que se melhore muito mais. E, já agora, o que fazer em relação à Região de Lisboa e Vale do Tejo? Para quando a definição dos tempos máximos de espera para cada tipo de patologia?

Compreende-se

Compreende-se. Joe Berardo é muito mais cultural, muito mais museológico, muito mais mediático. Miguel Torga era um parolo, tinha sotaque, não tinha jeito para a socialização.

É claro que, estando à mão para discursos patrióticos dos nossos socialistas reciclados, era muito enternecedor, no tempo em que a palavra povo, os gestos do povo, a cultura do povo, o saber do povo era importante, ou pelo menos era importante dizer povo, muitas vezes, com a voz directa e embargada dos ecos montanhosos.

Nestes tempos de contemporaneidade, caviar, casaco solto e camisa preta, cabeças escanhoadas e perfume de dinheiro, notas esvoaçantes, contratos chorudos, ambições televisivas de etéreos poderes, a cultura é o Joe Berardo.

12 agosto 2007

Comunicado

Na frente ocidental nada de novo.
O povo
continua a resistir.
Sem ninguém que lhe valha,
geme e trabalha
até cair.


(poema de Miguel Torga; pintura de Ted Stanuga)

Essência

Como a terra dura, como os penedos lisos, sólidos, inamovíveis, como o amor pela pátria, como o silêncio altivo e humilde, como o saber antigo e eterno, como a doçura das uvas e o afago da chuva, como o horizonte e o querer, como a tortura da solidão adiada, como a natureza que nasce e que morre, ciclicamente, esforçadamente, gulosamente, como tudo o que nos faz seres humanos, Miguel Torga é a essência de todos nós.

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...