Tenho um livro na mesa-de-cabeceira, ou dois, ou três, que me acodem de longe, silenciosamente fazem-se lembrados, quando relutantemente apago a luz e tento dormir.
Nem sempre venço as insónias. Com os olhos decididamente fechados, correrias loucas substituem os mares de Finisterra, gente frenética na vez de Jaime Ramos, o mar tão longe dos meus dedos, que lhe sinto o sal, o arrepio gelado na pele, o vento nos braços, o sol que queima nos ombros. Vagarosamente me embalo, recordo o Pico, o sotaque açoriano, o jantar tardio, num terraço da Horta.
Mais constante e fiel que qualquer amigo, que qualquer amante, o livro não nos abandona. Pelo contrário, nós abandonamo-lo, sem culpa nem remorsos, acumulando poeira, mas acordando no imediato momento em que lhe dirigimos o olhar. Revive e transforma-se, murmurando ondas e borbulhando charutos, escondendo pistas e mastigando mistérios.
Tenho muitos livros na minha mesa-de-cabeceira, amizades velhas e confortáveis, compondo almas dentro de mim.(pintura de Ardyn Halter: in the library)