05 agosto 2007

Fontes

Seguiremos pelas fontes
até ao âmago da água
elementar e cristalina
pura de ausência.

Seguiremos pela sede
até ao eterno desejo
límpido e sibilino
gota de essência.

Seguiremos pela sombra
até ao limite da luz
matinal e repentina
sopro de consciência.


(escultura de RalphCurtisRoyer: Cross Fountain #2)

Apoucamento ideológico

António Barreto, em entrevista ao DN, a propósito dos 30 anos da Lei Barreto, afirma que O PS está num processo acelerado de desertificação ao nível dos conteúdos, ideias, projectos, causas e programas (esta parte da entrevista não está transcrita no DN on-line).

Infelizmente António Barreto tem razão. O PS está ocupado em gerir a maioria absoluta, em elogiar o pragmatismo e em calar o debate ideológico.

Ao contrário do que se está sempre a dizer, cada vez interessam mais as ideologias, cada vez é mais premente a clarificação das ideias à esquerda e à direita, a estruturação de soluções políticas para a nossa sociedade, a procura de soluções para os excluídos, para a regulamentação do trabalho, para a preservação do meio ambiente, para o apoio aos idosos, para o aumento da natalidade.

É em redor da discussão ideológica que se podem congregar as populações, que se podem motivar as pessoas. O PS está a percorrer um caminho que pretende de auto preservação, mas que será inevitavelmente de destruição. A moda é gerir a crise e dizer que não há alternativas.

Há sempre uma alternativa. E a pior é o descrédito no regime democrático, o divórcio entre os governados e os governantes, o autismo do poder.

Este PS está numa deriva de apoucamento ideológico. Ao contrário do que António Barreto crê, eu penso que José Sócrates irá ganhar as próximas eleições, e até com maioria absoluta, pois o apoucamento ideológico não é exclusivo do PS nem da esquerda.

Mas quem perde com tudo isto é o próprio regime. Abrem-se brechas que não são aproveitadas para a necessária renovação.

Outro dia, em conversa de café, alguém me dizia que não seria possível que António Barreto fizesse parte por muito tempo do governo actual. Infelizmente, pessoas da sua craveira e com o seu empenhamento estão fora de moda. Já há bastante tempo.

(imagem do cartaz retirada daqui)

Nomeações e reconduções

Ainda sobre Dalila Rodrigues.

Dalila Rodrigues foi nomeada para uma comissão de serviço de 3 anos como directora do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), na vigência da anterior Ministra da Cultura, Maria João Burstoff, em Setembro de 2004.

Parece que não restam dúvidas de que exerceu esse cargo com empenhamento e competência, a julgar pela avaliação que dela faz o próprio director do Instituto de Museus e Conservação (IMC), Manuel Bairrão Oleiro.

Por ser um cargo temporário e de nomeação, está sujeito à confiança política de quem a nomeia. Neste caso à Ministra da Cultura actual (que, ela sim, deveria ter dito já qualquer coisa sobre esta polémica) ou, mais directamente, do director do IMC.

Acho admirável como é que uma pessoa que declarada e publicamente se manifesta contra a nova lei orgânica do IMC, que é, aliás, um direito que lhe assiste, espera poder ser reconduzida no cargo de directora do MNAA. Acho ainda mais extraordinário que se sinta perseguida por tal facto e que tenha ficado surpreendida.

Em primeiro lugar ficámos a saber que a renovação das comissões de serviço são obrigatórias. Depois ficámos também a saber que, embora as pessoas declarem publicamente que discordam da política do governo, neste caso de um ínfimo pormenor como é a lei orgânica do organismo que tutela directamente a estrutura a dirigir, devem sacrificar-se a concretizar políticas de que discordam, ou com meios que consideram inadequados.

A liberdade de expressão é um direito, o assumir as responsabilidades das suas posições políticas é um dever. Dalila Rodrigues não foi demitida, nem foi castigada, apenas não vai cumprir mais uma comissão de serviço como directora de um Museu, que se regerá por regras com que ela não concorda.

Se Manuel Bairrão Oleiro decidiu bem, isso é o que será avaliado daqui para a frente.

Quanto ao abaixo-assinado subscrito por 16 directores de museus nacionais, que se demarcaram da posição de Dalila Rodrigues, tem o mesmo significado que outros abaixo-assinados subscritos por outras pessoas, sobre os mais diversos assuntos. A conclusão de que esses directores estariam a defender os seus lugares é, no mínimo, extremamente deselegante, como Dalila Rodrigues insinua, a respeito dos seus ex-homólogos. Será Dalila Rodrigues mais honesta, mais sincera e mais competente que os directores dos outros museus, apenas porque tem uma opinião contrária à da tutela?

Adenda: tenho muita pena de não ter acesso ao documento subscrito pelos 16 directores, pois não gosto muito de ler notícias com bocados escolhidos; gosto mais de escolher eu.

Absolutismo maioritário

O governo e o PS têm sofrido sérios reveses nos últimos dias.

O parecer do Provedor de Justiça sobre o concurso de acesso a Professor Titular é arrasador para quem o concebeu e defendeu, apesar de todas as contestações da classe profissional. Parece-me muito bem que se façam reformas e se resista ao corporativismo, mas o parecer de Nascimento Rodrigues demonstra que o Ministério da Educação e a sua Ministra sofreram uma pesada derrota, pois este é um assunto emblemático da sua política. É indispensável que a Ministra retire as consequências inerentes a este parecer, reconheça o que há de errado no processo, assumindo ela própria a responsabilidade política, e responsabilize os assessores em causa. Não se pode exigir e apregoar rigor e competência com este tipo de prestação dos governantes.

Por outro lado, o veto presidencial ao novo estatuto do Jornalista. Mais uma vez o PS resistiu às críticas das outras bancadas parlamentares e às críticas dos jornalistas. É bem verdade que a acusação de que estávamos a assistir ao maior ataque à liberdade de expressão desde o 25 de Abril é descabido e disparatado, pois os subscritores dessa acusação esqueceram-se de todos os ataques à liberdade de expressão existentes entre o 25 de Abril de 1974 e o 25 de Novembro de 1975, conduzidos também por jornalistas. Mas Augusto Santos Silva e o PS têm de acatar as consequências de um autismo de maioria absoluta, tentando agora minimizar os estragos. Esperemos que prevaleça a humildade democrática, que tem sido bem escassa, e que a lei seja modificada.

Não deixa de me espantar a surpresa de Cavaco Silva pela não renovação da comissão de serviço de Dalila Rodrigues, como directora do Museu Nacional de Arte Antiga. Extraordinariamente, o Presidente surpreende-se com assuntos que, em princípio, não deveriam fazer parte suas preocupações, mas não se surpreende, não se indigna nem tem nada, ou tem muito pouco, a dizer sobre os desmandos, as declarações e a falta de cumprimento das leis por parte de uma região autónoma e do seu Presidente Regional. Será que a coexistência pacífica está a terminar?

03 agosto 2007

Livros

Tenho um livro na mesa-de-cabeceira, ou dois, ou três, que me acodem de longe, silenciosamente fazem-se lembrados, quando relutantemente apago a luz e tento dormir.

Nem sempre venço as insónias. Com os olhos decididamente fechados, correrias loucas substituem os mares de Finisterra, gente frenética na vez de Jaime Ramos, o mar tão longe dos meus dedos, que lhe sinto o sal, o arrepio gelado na pele, o vento nos braços, o sol que queima nos ombros. Vagarosamente me embalo, recordo o Pico, o sotaque açoriano, o jantar tardio, num terraço da Horta.

Mais constante e fiel que qualquer amigo, que qualquer amante, o livro não nos abandona. Pelo contrário, nós abandonamo-lo, sem culpa nem remorsos, acumulando poeira, mas acordando no imediato momento em que lhe dirigimos o olhar. Revive e transforma-se, murmurando ondas e borbulhando charutos, escondendo pistas e mastigando mistérios.

Tenho muitos livros na minha mesa-de-cabeceira, amizades velhas e confortáveis, compondo almas dentro de mim.

(pintura de Ardyn Halter: in the library)

Maratonas

Manter o ritmo louco destas últimas semanas, alterar, planear, remodelar, executar, motivar. Manter a vontade acesa, a chama, sem que me queime ou incendeie, reduzindo a cinzas sonhos de tanta grandeza.

Manter o ritmo e o sentido do efémero, do todo que se perde num segundo, do pouco que se demora eternidades a atingir.

Agora respiro, estendo, relaxo, acalmo.

Manter a vida.


(desenho de Sarah Larsen: maratona)

Penumbra

Se não quisermos este sol
colheremos
a penumbra destes dias
e beberemos
a humidade destas mãos.

Se nos amamos
nestas gotas evaporamos
e repetidamente
condensamos.


(pintura de Wayne Jiang: Rear Windows)

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...