15 julho 2007

Teorizemos

Segundo o site da meteorologia, hoje prevê-se chuva em Lisboa e uma temperatura máxima de 25ºC.

Para além do número de eleitores a mais, fantasmas, inscritos nos cadernos eleitorais de Lisboa, como, aliás, do resto do país, o que aumenta artificialmente a abstenção, tenho curiosidade em ouvir as justificações para não se votar.

Há já várias explicações, segundo os vários comentadores, que vão desde o sol, a praia, as férias, a falta de assunto para se discutir, a fraca campanha, a tristeza dos candidatos, enfim, há para todos os gostos.

Mas também há apelos que, por si só, são já uma explicação engenhosa da provável elevadíssima abstenção – a desobediência civil.

De facto é uma forma de luta teoricamente interessante, não se sabe bem é com que objectivo. Se as pessoas utilizassem essa arma para protestar (?) seria bom que quem defende semelhante opção nos esclarecesse como se deveria encarar o dia seguinte. Acabava-se com as eleições? Como se escolhiam os governantes? Não havia governantes, ou seria melhor organizar um golpe de estado, ou uma revolução, encabeçada por um herdeiro de Salazar que guiasse (e mandasse) este povo de maus costumes, esta sociedade dissoluta, em que até se fazem referendos e se aprovam leis contra a vida? Ou, pura e simplesmente, numa orgia de cada um por si, não houvesse qualquer forma de governo? Ou íamos buscar o D. Duarte Pio e restaurávamos a monarquia? Ou então o proponente da desobediência civil inaugurava a sua própria dinastia?

Gostaria de saber como se levam até à última consequência determinado tipo de ideias. Ou, pura e simplesmente, são apenas um exercício de estilo azedo, resmungão, apocalíptico, resinoso e rezingão, e não são para levar a sério?

14 julho 2007

Abandono

Sei do gozo e do infinito
de te querer
de sair do meu corpo
e fugir
para o fundo de ti.

(escultura de Camille Claudel: o abandono)

A Comissão para a Idiotia Total

Há valores, hoje em dia, que são totalmente diferentes do que existiam há 20, 40, 80 anos. A sociedade mudou, à custa de novas descobertas científicas, de novos relacionamentos entre os povos, de novos valores, nomeadamente os valores de igualdade racial, respeito pelas minorias e protecção dos mais fracos, assim como na educação das crianças.

Mas as mudanças não deverão levar à extinção do que agora se considera incorrecto. A pseudo-moralização que tomou conta da nossa sociedade é ridícula e muito preocupante.

Desde os cartoons de Maomé, à substituição do cigarro de Lucky Luke e, mais recentemente, às reacções a um vídeo promocional europeu que colecciona fragmentos de cenas de orgasmos de um conjunto de filmes, e agora à proibição de colocar o álbum de banda desenhada Tintim no Congo nas prateleiras de livros para crianças, após a declaração da Commission for Racial Equality, no Reino Unido, de que este álbum é altamente ofensivo pelos estereótipos raciais que demonstra, que se tem assistido ao império do pensamento único, da educação única, da moralidade única, do conceito artístico único, tudo com a pretensão de nos proteger e guardar de maus pensamentos, palavras e actos.

É difícil compreender tanto obscurantismo, tanto preconceito e tanta ignorância. Felizmente, nem toda a gente se rendeu à idiotia pseudo-correcta e pseudo-igualitária.

Esperemos que o bom-senso prevaleça.

(agradecimentos ao
Corta-fitas)

Lembro

Lembro-me dos dedos
na areia
da dormência cálida
do sol
do líquido dos teus olhos
na minha sede.

(pintura de Anthony Smith: beach scene)

Algumas notas (imprensa e blogues)

Sobre os resultados dos exames de Matemática do 9º ano, fica-nos o título espantoso de uma entrevista ao DN de ontem, à presidente da Associação Portuguesa de Matemática: Os exames prejudicam o ensino da matemática.

Como salienta Carlos Fiolhais no blogue De Rerum Natura, não se percebe bem se foi isso que a entrevistada disse, mas percebe-se que não acha a matemática muito compatível com exames. Não preciso de dizer que me parece absurda esta opinião. Se calhar o problema é exactamente o facto de não ter havido mais exames há mais tempo, em cada fim de ciclo, e que pesassem mais na nota final, para além de muitas e mais importantes alterações nos programas e métodos de ensino da matemática e, já agora, do português, das línguas, da ciências, etc, etc.

A Região Autónoma da Madeira não vai aplicar a lei da IVG. E assim se faz a afronta às leis da República que, segundo Alberto João Jardim, são as leis do Continente, com a conivência do governo e, até agora, do Presidente.

As análises, desmentidos, denúncia de imprecisões e correcções ao livro de Zita Seabra continuam, com tons e cambiantes muito diferentes. Interessantíssimo.

13 julho 2007

Algunos infelices

Todos necesitamos que nos quieran.
Algunos infelices, sin embargo,
no sabemos vivir para otra cosa.


(poema de Amalia Bautista; pintura de Shelly Roche: lovebirds)

Zita Seabra - Foi assim


Li o livro de Zita Seabra (Foi assim) de um fôlego. Tem ritmo, é muito interessante e é um importante contributo para o conhecimento da nossa história recente.

É um livro de memórias, das memórias dela, escritas com paixão mas cuidadosamente. Não é um ajuste de contas com os seus camaradas, mas um ajuste de contas consigo própria.

Zita Seabra abraçou uma causa com ardor e fanatismo, a causa romântica da luta pela liberdade e pelo povo, pela igualdade, pela revolução socialista, pela tese científica da evolução para o comunismo. O Partido foi a sua casa, a sua vida, a sua religião. Conta a sua militância clandestina, a sua solidão, a sua certeza na vitória, o seu trabalho e vontade de se transformar numa revolucionária profissional. Com ela ficamos a conhecer o que era a vida de um oposicionista, de um militante comunista, o medo, as prisões, a repressão, a tortura, a solidariedade, o martírio de quem se entrega totalmente a uma ideologia, que tudo abarca e tudo molda a si própria. Não há dúvidas, a confiança é cega.

Ficamos também a conhecer o ostracismo a que são votados os traidores, aqueles que não aguentavam as torturas na prisão, os que não aceitavam o centralismo democrático, os que cediam aos apelos da classe burguesa. Ficamos a saber que as vítimas são aceitáveis, que os fins justificavam os meios, para que a ditadura do proletariado vencesse e houvesse um Homem Novo, numa sociedade sem classes.

Ficamos a saber da disciplina férrea, da organização primorosa, da multiplicação dos pequenos partidos satélites, da infiltração das associações académicas, dos sindicatos, dos militares, do secretismo, das conspirações, da alegria da libertação no 25 de Abril, da luta pela libertação dos presos políticos, da luta pela colectivização da terra, pelas nacionalizações, pelas barricadas, das manifestações, contra manifestações e provocações, das armas distribuídas pelos membros da UEC, das tentativas para que não houvesse eleições livres.

Ficamos a saber que o Partido deixou de usar a expressão ditadura do proletariado por razões tácticas, que queria um confronto, a sua revolução de Outubro, que contou as espingardas e que, em 25 de Novembro, desistiu por perceber que não venceria: um passo atrás, dois passos à frente.

Percebemos a luta por uma Constituição que moldaria ainda vários anos do pós 25 de Abril, o trabalho parlamentar subalternizado por Álvaro Cunhal, a justificação da execução de Sita Valles, a progressiva tomada de consciência de um rumo desajustado, a perda da fé.

Porque foi o abandono da fé no comunismo, no Partido e no Camarada, um processo doloroso e espaventoso mas totalmente necessário para a consumação da rotura.

Para quem, como eu, viveu esses tempos heróicos da pós revolução com intensidade e esperança, para quem nunca percebeu as viragens ideológicas de Zita Seabra, compreende agora melhor o que era pertencer a uma organização daquele tipo, com tanto de heróico como de terrível.

Não concordo com Zita Seabra, não me revejo nas suas posições, não percebo certas atitudes e opiniões. Mas reconheço-lhe o mérito de ter tido a coragem de viver como viveu durante tantos anos, missionária de uma causa que lhe pediu tudo e a quem deu tudo, e a coragem de se olhar, de se pôr em causa e de o revelar, com o mesmo espírito de missão.

Gostava que quem viveu aqueles anos, participou e conviveu com este pedaço da nossa história, dentro ou fora do PCP, contasse as suas memórias. Gostava que, em vez de se procurarem pequenos pontos de imprecisão, interpretações sobre o que quereria dizer e não sobre o que está escrito (como a famosa comparação da chegada de Cunhal com a chegada de Lenine) aproveitando para fazer um verdadeiro assassinato de carácter, revelasse a sua verdade, a sua forma de contar a mesma história.

Só assim saberemos se foi (mesmo) assim.

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...