Concordo que será necessário defender políticas que incentivem o aumento da natalidade, mas misturar, mesmo que subtilmente, a aprovação de legislação sobre a IVG e a sua aplicação, com a defesa da vida, no sentido de motivar as pessoas a terem mais filhos, é demagógico e politicamente desonesto.
O Presidente tem todo o direito a ter opinião contrária à lei da IVG, recentemente aprovada. Por sinal, opinião que manteve para si durante todo o debate anterior à realização do referendo, em nome não sei bem de que imparcialidade ou independência. Mas regulamentar e despenalizar a IVG até às 10 semanas de gestação, não aumenta nem diminui a natalidade.
Quanto às políticas de incentivo à natalidade são difíceis de implementar, são polémicas na sua essência, porque injustas e discriminatórias para quem não deseja filhos, e com resultados muito controversos.
É um problema de todos nós, de condições de vida, de condições económicas e de valores. À medida que as sociedades se desenvolvem, que se reduzem a ignorância e a pobreza, que há maior igualdade de oportunidades entre géneros e que as mulheres defendem a sua independência económica e carreira profissional, a tendência é a diminuição do número de filhos por casal.
Com o aumento do desemprego jovem as mulheres tendem a adiar a maternidade, à espera de estabilidade profissional. Por outro lado, a interrupção no trabalho leva as mulheres a dosearem muito bem a prole, com receio de serem despedidas ou de não progredirem o que, legitimamente, ambicionam. As deslocações e a disponibilidade horária acabam quase sempre por penalizar mais as mulheres que os homens.
A tão almejada igualdade entre homens e mulheres, no que diz respeito aos compromissos familiares, com os filhos menores e com os pais idosos, ainda está longe de ser atingida. Nas leis oficiosas do trabalho e nos costumes, há certas liberdades que estão vedadas às mulheres, assim como há alguns deveres que não se exigem aos homens.
Mas o problema é mais vasto. Hoje em dia as prioridades e os valores de vida são diferentes. É mais importante ter tempo livre e dinheiro para comprar bens de consumo que investir nas tarefas, mesmo que menos onerosas, de educar um filho. Por outro lado, a elevada exigência de condições materiais que nos auto impomos, os inúmeros medos e inseguranças, a nossa eterna necessidade de sermos crianças e adolescentes, não só na aparência, como nos gostos e, principalmente, na recusa de determinado tipo de responsabilidades, leva-nos a encarar a maternidade e a paternidade como algo para a qual não temos disponibilidade, principalmente emocional.
Quebrar este ciclo é muito complicado. Com excepção de medidas concretas em termos fiscais, de subsídios, de melhoria das redes de ajuda às mães e aos pais, flexibilização de horários de trabalho, maior equidade nas tarefas domésticas, a alteração das prioridades individuais e, portanto, sociais, não se decreta nem se legisla.
PS – A notícia na TSF, no Público, no Correio da Manhã e no Sol online, apenas foca o que o Presidente disse sobre a melhoria da qualidade da democracia em Portugal, sem fazer qualquer menção às declarações do Presidente sobre a natalidade. Não deve ser importante, nem ter qualquer interesse.
(pintura de Sheila Tiffin: Children on the Beach)



