06 julho 2007

Apresentação

Escrever, tentar concretizar o mundo em que se entrecruzam emoções, angústias, momentos de felicidade e profunda melancolia. Como uma necessidade quase orgânica, preciso de libertar as palavras que me correm pelo corpo, concretizar em letras os sentidos, nomear as coisas que sou ou que quero ser, olhar-me de frente, organizar-me.

Escrever torna mais nítido o quotidiano, intensifica viagens, decompõe enigmas, esclarece e unifica os fragmentos de rotina, bocados incompreensíveis da vida, que me acordam e atormentam, que me maravilham e embelezam.

Escrever é um acto solitário e doloroso, que intimida e assusta, compulsivo e redentor, que me envolve e arrasa. Escrever é um vício, um acto de amor.

Nem sempre me reconheço no que escrevo, naquela que se espelha e se questiona, naquela que se incendeia e se consome. Nem sempre entendo a forma que as palavras desenham, como se houvesse mais que uma forma, mais que uma pessoa que de mim fizesse parte.

Nos versos encontro a arrumação da desordem, o sentido da confusão, a calma na desorientação. A música e o ritmo das palavras escritas, depois ditas, que se refazem e transformam de cada vez que se repetem, quando alguém se apropria delas, como eu me aproprio dos poemas que outros escrevem, como eu me apodero dos sons, das cores, dos ecos dos poetas.

A simetria da minha vida, disciplinada, rigorosa, criteriosa, cheia de regras e de controlos, completa-se com a total insubmissão das palavras. Mesmo dentro da libertação que é escrever, há a contenção do abismo, o medo da vertigem, do absoluto, que se pondera e se mede, autónoma e obsessivamente.

A constante procura do imo, da depuração, da essência, a certeza da eternidade dessa busca e da inevitabilidade do final, espartilham os gestos mas abrem as asas do impossível.

Este é um livro de reencontros, de luzes fracas e longos silêncios. Este é um livro de recomeços, de aceitação, de cortinas, de renascimentos. Este é um livro de afectos. Sem outra razão que uma entrega, com o pudor da alma nua, assim me dou, a um tempo receosa e feliz, com sombras e sem infinitos.

03 julho 2007

Cadeias

FT e Lino, respectivamente dos blogues O País do Burro e thesoundofsilence enlaçaram-me numa cadeia de 5 livros, 5 blogues.

Para além de agradecer tão grande honra, obedecerei sem tardar à nomeação de mais 5 livros:
  • O Pintor de Batalhas – Arturo Pérez-Reverte
  • Flubert’s Parrot – Julian Barnes
  • Lourenço Marques – Francisco José Viegas
  • Cotovia – Desző Kosztolányi
  • Tres Deseos - Amalia Bautista

E 5 blogues:

E quem quiser, continua…


(pintura de Paul Klee: Primary Route and Bypasses)

Leituras

Como tenho tempo, perdi algum dele a ler demoradamente artigos de jornais, mesmo dos económicos. Recomendo o artigo de Teodora Cardoso, no Jornal de Negócios online, sobre a confiança, ou mais precisamente a desconfiança dos portugueses, transcrevendo apenas uma parte do parágrafo final. Mas vale a pena ler e meditar nele todo.

(…) Tudo isto nos leva de volta à confiança. (...) A sua destruição parece, contudo, ter-se tornado, mais do que nunca, no objectivo fundamental dos que se habituaram a explorar a desconfiança em seu benefício.

De um estilo e de uma temática totalmente diferentes, adequado a qualquer altura e circunstância, também recomendo um excelente post de A. Teixeira, intitulado As maminhas da favorita.

A mais

Hoje acordei a mais para o dia. Com pernas e braços excedentários, com muitos neurónios activos.

O meu corpo não se lembrou que está em férias.

(pintura de Marianne Mitchell: reverence)

02 julho 2007

Página em branco

Que poema, de entre todos os poemas,
página em branco?
Um gesto que se afaste e se desligue tanto
que atinja o golpe de sol nas janelas.

Nesta página só há angústia a destruir
um desejo de lisura e branco,
um arco que se curve – até que o pranto
de todas as palavras me liberte.

(poema de Sophia de Mello Breyner Andresen)

01 julho 2007

Portugal europeu

Apesar de dizer, todos os sábados e domingos, que deixarei de comprar o DN, todos os fins-de-semana reincido na compra.

Hoje valeu a pena. Tem um excelente grupo de artigos sobre a presidência portuguesa da União Europeia – Especial Europa – bem escritos, informativos e interessantes.

A propósito do mandato de Sócrates para redigir e aprovar o Tratado Reformado, parece-me de grande desonestidade política argumentar-se contra a necessidade do referendo pelo facto de não ser a Constituição/Tratado Constitucional que será ratificada/o, mas apenas um tratado. É um truque de prestidigitação que corre sérios riscos de desacreditar ainda mais José Sócrates e todo um conjunto de europeístas que defendem não se poder correr o risco de ver o tratado reformado rejeitado.

Em democracia correm-se riscos em todas as eleições. É mesmo a essência da democracia: correr o risco de convencer os cidadãos!

Nomeações

O regime de intimidação, autoritarismo e compadrio político que se vive (e que já se viveu noutras legislaturas) é atrofiante para os cidadãos, reduz a confiança nos governantes e instala a cultura dos capachos profissionais, os olhos e ouvidos dos chefes, tudo o que é mais contrário e pernicioso à vivência democrática. Pelo que temos lido na imprensa, os casos da DREN e do Centro de Saúde de Vieira do Minho são disso excelentes exemplos (se bem que não entendo porque é que um caso passado em Janeiro só agora seja notícia).

Mas, mais uma vez segundo o que leio na imprensa, mais precisamente no Público de hoje (página 8), o caso da não recondução do cirurgião Fernando Portal como director do Hospital Distrital de S. João da Madeira, cargo que exercia há 17 anos, não é idêntico e não pode ser confundido com os outros.

O Director de um Hospital é um lugar de nomeação política. Podemos discutir a correcção ou incorrecção da lei mas, neste caso, não é isso que está em causa. Sendo um cargo de nomeação política, depreende-se que quem o ocupa se revê ou, pelo menos, se compromete a seguir a política e as orientações governamentais.

Ora parece que o Dr. Fernando Portal declarou publicamente a sua divergência em relação à reestruturação dos serviços de urgência, no que dizia respeito ao fecho dos mesmos no Hospital que dirigia.

É um direito que lhe assiste, obviamente, é mesmo um dever de quem pensa e tem lugares de direcção dentro da rede de prestação de cuidados de saúde, se discorda, combater as medidas que considera prejudiciais e contrárias ao bem-estar da população.

Mas cabe ao ministro ajuizar se quem escolhe para a direcção de uma unidade de saúde, e repito é uma escolha política, tem condições políticas para implementar as medidas decididas por ele e pelo resto do governo.

O que me espanta é o próprio Dr. Fernando Portal não ter apresentado a sua demissão por estar em total desacordo com o fecho das urgências do seu hospital.

Acho que se confunde muito o direito de divulgar opiniões com a responsabilização e assumpção das consequências desse mesmo acto. Somos livres de discordar das opções políticas do Ministro da Saúde. O que não podemos é esperar que o Ministro nomeie para a direcção das unidades de saúde pessoas que discordam da sua política e que, logicamente, não terão as melhores condições políticas para exercerem esses cargos.

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...