28 abril 2007

Da poesia

Bolor

Temos uma democracia com eleições e votos, com jornais e televisões, com blogues e manifestações. Temos uma democracia em que nos refastelamos nas queixas, no lacrimejo, no lamento de ser deste país. Temos uma democracia que nos deleita e nos consome, que os chega e nos falta, por não sabermos bem o que temos e o que queremos. Temos uma democracia diminuta como pequena e pouco ambiciosa é a alma lusitana. Não para grandes feitos, não para grandes palavras, não para grandes gestos, mas para o que faz do dia a dia uma sociedade militante e vigilante da liberdade, um país onde se goste de viver. Temos uma democracia com chefes que são amigos e compadres, de compadrios e vizinhanças, piscares de olhos e palmadas nas costas. Temos uma democracia que diz que disse mas não diz, que volta a cabeça e murmura sem nunca falar alto, de olhos no chão e sorriso matreiro.

Temos uma democracia suspeita, sufocada, um mal-estar feito de névoa e de fumo, de silêncios cúmplices e de ruído de fundo, sem medo mas com receio e cuidado, pé atrás e insegurança, falta de honra e honestidade.

Falta encher os cantos com claridade, deitar fora restos bafientos e bolorentos, falta vontade de agir, todos, sempre, todos os dias.

25 abril 2007

Liberdade

Hoje
não fui acordada
pelo som
da multidão que gritava
feliz.

Hoje
fiz
da minha alvorada
o que quis.
Embrenhei-me
no meu país.


(pintura de Vieira da Silva)

Hospitais privados

O título da notícia de primeira página do Público de ontem demonstra bem a mistificação e a manipulação que se pretende fazer no que diz respeito à política de saúde e ao SNS. Se lermos o corpo da notícia ficamos a saber que entre 300 a 500 médicos pediram licença sem vencimento ou reforma. Mais adiante diz-se que houve 400 médicos a reformarem-se, sem explicitar se são a somar aos anteriores ou não. Depois afirma-se que, numa determinada unidade hospitalar pública, 8 de 800 médicos pediram licença sem vencimento para passarem a exercer medicina em hospitais privados. A enorme percentagem de … 1%! Depois fala-se em cabeças de cartaz que se mudaram para a privada – quais?

Há no entanto uma pequena frase, que eu gostaria que estivesse em letras garrafais, essa sim como título, em que se refere a exclusividade de funções pretendidas pelos hospitais privados.

E que tal o ministro da saúde seguir este exemplar exemplo??

25 de Abril

Há dias que têm anos
que têm segundos
velhos como a existência
de quem aguarda mundos
de quem já perdeu horas
de quem desespera
pelas demoras
de dias sólidos
e fecundos.

Todos os dias pelo dia
em que nos deram armas e flor
todos os dias pela semente
que ficou depois da cor
do perfume do ar leve
todos os dias sem temor
sem desistir
todos os dias a florir.

23 abril 2007

Ramo


Talvez eu não consiga quanto amo
ou amei teu ser dizer, talvez
como num mar que tu não vês
o meu corpo submerso seja o ramo
final que estendo já não sei a quem

(poema de Gastão da Cruz; pintura de Susan Hostetler: Tuscan Grove)

Dos heróis

À medida que vai deixando de haver ideias, debates de ideias, definições ideológicas, missões a cumprir, desígnios nacionais ou internacionais, lutas colectivas; à medida que o individualismo vai substituindo a noção da sociedade, da comunidade, em que o bem comum é menos importante que o bem próprio; à medida que os objectivos políticos se esbatem e em que não há diferenças entre os vários partidos; à medida que deixamos de acreditar em ideias passamos a acreditar nas pessoas.

Deixamos de pensar no geral para darmos importância ao particular, deixamos de ver o Homem como parte da humanidade, que tem uma função a bem da humanidade, para fazer de um homem o centro da humanidade e o responsável por ela.

Exigimos-lhe a perfeição; tem que ser belo, forte, sensível, saudável, inteligente, culto, bem pensante, sedutor, apaixonado, íntegro. Tem que ter sucesso, ter preocupações ambientais, dizer as coisas certas nos momentos certos, ser tudo o que nós não somos e gostaríamos de ser.

Nós não somos mas ele tem que ser. O nosso herói, o nosso deus, que nos salvará de todos e de nós mesmos. Retrocedemos da fase adulta para a fase da infância e da adolescência, em que os nossos pais são a encarnação do bem, capazes de tudo e imortais.

Temo esta sociedade cada vez mais perigosa, pela falta de esperança naquilo que podemos fazer enquanto comunidade, e pela demasiada ilusão na exigência a quem damos o supremo dom da nossa cega confiança.

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...