17 abril 2007

Câmara de Ecos

Cresci sob um teto sossegado,
meu sonho era um pequenino sonho meu.
Na ciência dos cuidados fui treinado.

Agora, entre meu ser e o ser alheio
a linha de fronteira se rompeu.

(poema de Waly Salomão; pintura de Regi BarDavid)

La Llorona

Fui lembrada da existência deste portento da canção ranchera. Chavela Vargas faz 88 anos. Vale a pena ouvi-la, bem alto, com pouca luz e com um copito de tequila, ou de mezcal.


Todos me dicen el negro, Llorona
Negro pero cariñoso.
Todos me dicen el negro, Llorona
Negro pero cariñoso.
Yo soy como el chile verde,
Llorona
Picante pero sabroso.
Yo soy como el chile verde, Llorona
Picante pero sabroso.

Ay de mí, Llorona Llorona,
Llorona, llévame al rio
Tápame con tu rebozo, Llorona
Porque me muero de frio

Si porque te quiero quieres, Llorona
Quieres que te quieres más
Si ya te he dado la vida, Llorona
¿Qué mas quieres?
¿Quieres más?

15 abril 2007

Odete Santos

Odete Santos é excessiva, arrasadora, fiteira, dramática, manipuladora, apalhaçada, berrante, descabelada, descomposta.

Odete Santos foi deputada (por 26 anos), é actriz, comediante, diseur.

Odete Santos nunca se importou de ser quem é, dedica-se de alma, coração, de corpo inteiro às causas em que acredita, como uma missionária, como uma testemunha do saber divino.

Num mundo em que os políticos são fabricados pela imagem, ela impôs a sua imagem como uma política de gema, como uma marca de paixão.

Não concordei com ela muitíssimas vezes, na maior parte das vezes, mas é como ela que penso que os nossos representantes na Assembleia deveriam agir, incansáveis na defesa dos seus ideais.

Suspeições

Muito se tem falado sobre o fenómeno da emergência de blogues, com denúncias anónimas de males públicos e privados, antros de maledicência e de egos ressentidos, crispados e mal amados.

Haverá milhares deles assim. Como há milhares de pessoas assim. Mas o que preocupa o jornalismo ortodoxo, exclusivista e bem pensante, tanto como os políticos, enredados ou não em jogos pouco claros, é o pouco conhecimento que têm do fenómeno blogosférico, travestido de desprezo e arrogância (como se prova pelas declarações lamentáveis do Procurador-Geral da República, Pinto Monteiro), e a indisfarçável incapacidade de o controlar.

Não é admissível que se façam insinuações e ataques mais ou menos encapotados ao bom-nome das pessoas em blogues, a coberto de anonimatos ou não. Para isso, se se provarem crimes de difamação, existem leis e, caso não existam aplicadas à blogosfera, deverão ser estudadas e criadas pelos órgãos legislativos próprios.

O problema da credibilidade das pessoas e das instituições, que tanto tem preocupado os nossos fazedores de opinião, estende-se que nem fogo em palha seca a todos os media, com especial destaque à imprensa escrita.

Só para citar um exemplo recente, as notícias sobre o acórdão do Supremo Tribunal de Justiça relativamente à condenação do jornal Público, obrigando-o a pagar uma indemnização ao Sporting Clube de Portugal apesar do reconhecimento da verdade das notícias publicadas. Entretanto saiu um artigo no site do clube negando o facto de o Supremo Tribunal de Justiça ter reconhecido a veracidade das acusações por parte do Público. Até hoje, embora eu não conheça todas as notícias que saíram sobre o assunto, não me lembro de ter lido nada sobre a correcção ou incorrecção do desmentido do Sporting.

Afinal em que ficamos? Em quem podemos acreditar?

Essa é a verdadeira tragédia: não acreditamos no governo, porque só diz o que lhe interessa, independentemente dos factos; não acreditamos na oposição porque só desdiz o governo, independentemente das razões que lhe poderão assistir; não acreditamos nos media porque a informação é cirurgicamente manipulada, para servir determinados interesses, mesmo que não nos apercebamos bem de quais.

De facto, como diz JPN no respirar o mesmo ar, em Portugal respira-se e vive-se na suspeita e de suspeitas.


(pintura de Anne Karin Glass: suspicion)

14 abril 2007

Regresso

Regresso do limbo imaculado
das chamas que purificam
das rosas com perfume
de eternidade.
Regresso à lama às nuvens
ao mais intenso e pobre
de mim mesma
à sublime mancha
de humanidade.

Ébria pela esfera que reflecte
a voragem do belo irresistível
regresso virgem irrepetível
à pele que enruga e endurece.

(pintura de Alan Fetterman: heartbeat)

Ambientemo-nos

Todos os dias, antes de arrancar para o trabalho, tomo o meu café na companhia do Correio da Manhã, o jornal que o dono do café disponibiliza aos seus clientes. Parece ter sido estudado para acompanhar os escassos minutos de um café matinal, pois as páginas folheiam-se rapidamente, lêem-se alguns títulos de letras gordas e significados fantasiosos, fazem-se estatísticas dos mais variados crimes de faca e alguidar, roubos estrondosos e prisões escandalosas.

Como todos os fins-de-semana, calma e gulosamente, saboreio o jornal com o primeiro café. Mais propriamente o Público e o DN. Hoje, ao começar pelo DN, por um assustador milionésimo de segundo duvidei de que fosse fim-de-semana e pensei que estava atrasada para o trabalho… Os roubos, os crimes, as letras garrafais, as cores, tudo muito parecido com o Correio da Manhã!

O objectivo deve ser nobre: tudo pela poupança nacional, gasta-se menos €2,40 por semana, €124,80 por ano e, além disso, reduzimos o abate de árvores.

E a saga continua...

Todos os que clamavam pelas explicações de José Sócrates, que as consideravam tardias ou tentativa abjecta de esconder qualquer baixeza, ficaram obviamente insatisfeitos pelo autêntico julgamento televisivo a que foi sujeito.

Tenho dúvidas de que algum dos seus tão tenazes inquisidores se prestasse àquele papel. Como era de supor, os mesmos continuam a pedir mais esclarecimentos, mais aprofundamentos, mais revelações. Até o Procurador-Geral da República, num assomo de generosidade e apego à causa pública, se disponibilizou para investigar!

Mais ridícula e penosa foi a prestação de Marques Mendes que, pensava eu, se tinha mantido higienicamente à margem de tanta porcaria. Mas não se conteve e mergulhou de cabeça, fora de tempo, fora de tom, fora de sensatez e sem um mínimo de sentido ético.

E assim se entretêm aqueles que se arrogam defensores do bem e da moral pública.

Ai de nós, simples mortais!

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...