16 fevereiro 2007

Trabalho

Alguma coisa tem de mudar na nossa administração pública, nomeadamente no que diz respeito aos vínculos contratuais e à flexibilidade de emprego.

O despedimento de mais de 3000 estagiários que completam o seu estágio profissional, para o qual foi investido muito dinheiro, para depois não se aproveitarem aqueles que se distinguem pela motivação, pelo empenho e pela competência, apenas e só porque a enormíssima quantidade de funcionários públicos que existe, tantos com fraca produtividade, com fraco empenho e com fraca competência, entope qualquer possibilidade de renovar os quadros de pessoal e de dar emprego aos jovens, que precisam de iniciar a sua vida adulta e autónoma.

É claro que não há artes mágicas que, num abrir e fechar de olhos, solucionem um problema crescente nas nossas sociedades tecnológicas e automatizadas. O trabalho transforma-se num luxo, num privilégio a que só alguns têm acesso. Mas a prestação dos representantes dos trabalhadores tem que olhar para essa fatia da população, tem que defender propostas que dêem hipóteses aos mais jovens.

Em Portugal o movimento sindical, na sua generalidade, tem tentado manter aquilo que já não é possível manter, tem tentado defender o trabalho de quem já tem trabalho, em vez de defender a possibilidade de todos terem acesso ao trabalho, em igualdade de circunstâncias, com o mínimo de dignidade.

Estes jovens são usados depois como mão-de-obra barata, sem protecção social, sem qualquer vínculo, por precário que seja, sem qualquer horizonte de continuidade, de formação, de realização profissional.

Eu não sei quais são as soluções. Mas alguma coisa tem de mudar, e depressa!

A demissão

A notícia da demissão em bloco da direcção do DN deixou-me triste. Tenho vindo a comprar o DN e a gostar cada vez mais dele, principalmente desde que António José Teixeira assumiu a direcção. Tem feito um esforço para melhorar a qualidade dos seus conteúdos e um esforço de isenção (nem sempre conseguido, diga-se em abono da verdade).

A redução do número de leitores e assinantes dos jornais diários, ditos generalistas, prende-se com a tendência geral da comunicação, com crescimento do audiovisual e redução da escrita, e não com a diminuição da qualidade do DN. Mesmo que haja uma aposta na qualidade do jornal, na especialização dos jornalistas para que possam informar com rigor, no aprofundamento das análises por gente credenciada e capaz, mesmo assim, estou convencida que continuará a diminuir o número de compradores. Mas também me parece que a aposta num formato superficial, telegráfico e folclórico levará ao mesmo.

O problema é que, se calhar, o número de leitores de um jornal sério não chega para muitos projectos editoriais. Nesse sentido, tenho pena que o DN esteja a ficar pelo caminho. Não merece.

Bom-senso

Cavaco Silva quebrou o silêncio a que se tinha recolhido durante a campanha para o referendo, silêncio profundo e meditabundo que até o impediu de apelar ao voto, atitude que lhe teria ficado muito bem.

E mais valia que tivesse continuado calado. Porque a sua intervenção, pedindo bom-senso para a legislação sobre um tema que tinha fracturado a sociedade, soou muito parecido com uma orientação à Assembleia da República, mais precisamente ao PS, para ter em conta as opiniões de quem tinha perdido o referendo.

A expressão “melhores práticas europeias” já cansa. O PS está mandatado para legislar, cumprindo as indicações dadas pela vitória do “sim”. Nem mais nem menos. A necessidade imperiosa de aconselhamento obrigatório, tão do agrado dos apoiantes do “não”, mais uma vez uma forma de condicionar, não se sabe exactamente como ou por quem, a decisão das mulheres, esses seres débeis e mentecaptos que Deus deu aos homens para se regalarem, cuidarem e usarem, é uma habilidade ensaiada com o fim de desvirtuar o resultado do referendo.

A decisão informada não tem absolutamente nada a ver com a avaliação da decisão. Espero que o PS mantenha a sua posição, por muito que o Presidente apele ao bom-senso.

14 fevereiro 2007

Namoro

Amor com gomos
e sementes
amor com pele
amor sem tempo
de amar tanto
amor de mel
com que me adoço
com que me aqueço

com que te chamo.

(pintura de Jan Tinholt: encerrados en amor)

Entretenimento

Ontem vi um pedaço do programa abrilhantado por Jaime Nogueira Pinto, em que traçava um Salazar muito à maneira dele, muito patriótico, muito honesto, muito modesto, muito missionário, muito ditador, mas isso até era bom, sem dúvida, mas este povo até gosta, enfim, nunca mais fomos os mesmos, o que era preciso era mesmo outro Salazar para meter isto na ordem.

Há uma ou duas semanas vi um pedaço do mesmo programa, desta vez abrilhantado pela dramática Odete Santos, toda ela em cores de encarnado, com grandes gestos e emocionado semblante, traçando o perfil do herói mais heróico que tivemos a sorte de ter em Portugal, que lutou contra a longa noite do fascismo, com determinação e coragem.

Estes programas, como muito bem disse A. Teixeira, são de entretenimento, e não de informação. Por isso acho absurdas as posições estremadas, de louvor extremo ao programa até à acusação de neosalazarismo encapotado, que se lê pela blogosfera.

Apesar de saber que Álvaro Cunhal defendia um regime idêntico àquele que combatia, não posso deixar de ter alguma simpatia pela sua figura. De facto era inteligente, aventureiro, artista, enfim um herói romântico, que só o foi porque nunca conseguiu chegar ao poder.

Relativamente a Salazar, para mim ele era tudo menos um grande português. Foi um homem que moldou o país à sua imagem e semelhança, sem grandeza de qualquer espécie. A partir do pós guerra, não vejo qualquer justificação para o aprisionamento das pessoas e das ideias, para o empobrecimento, para o enquistamento do conservadorismo e do provincianismo, para a rejeição das novidades na política e na sociedade.

13 fevereiro 2007

Silêncio

Escorre o silêncio
pelas paredes da memória
infiltra o peso
dos fundos escuros dias
buliçosos artefactos
do tempo.


(pintura de Jonas Gerard: Beyond Time and Space I)

12 fevereiro 2007

Eden

Quando escrevo
a minha alma engrandece
e o mundo em que vivo
tem mais brilho.
As palavras são doces
e eternas
rasgando os limites
deste corpo terreno
perecível.

Quando escrevo
vivo vidas de sonho
e pesadelo
paixões sem mágoa
amores encantados
duma beleza pura e interdita
ao meu verdadeiro eu.


(pintura de Gregory Eanes: Tension In Éden)

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...