16 fevereiro 2007

Bom-senso

Cavaco Silva quebrou o silêncio a que se tinha recolhido durante a campanha para o referendo, silêncio profundo e meditabundo que até o impediu de apelar ao voto, atitude que lhe teria ficado muito bem.

E mais valia que tivesse continuado calado. Porque a sua intervenção, pedindo bom-senso para a legislação sobre um tema que tinha fracturado a sociedade, soou muito parecido com uma orientação à Assembleia da República, mais precisamente ao PS, para ter em conta as opiniões de quem tinha perdido o referendo.

A expressão “melhores práticas europeias” já cansa. O PS está mandatado para legislar, cumprindo as indicações dadas pela vitória do “sim”. Nem mais nem menos. A necessidade imperiosa de aconselhamento obrigatório, tão do agrado dos apoiantes do “não”, mais uma vez uma forma de condicionar, não se sabe exactamente como ou por quem, a decisão das mulheres, esses seres débeis e mentecaptos que Deus deu aos homens para se regalarem, cuidarem e usarem, é uma habilidade ensaiada com o fim de desvirtuar o resultado do referendo.

A decisão informada não tem absolutamente nada a ver com a avaliação da decisão. Espero que o PS mantenha a sua posição, por muito que o Presidente apele ao bom-senso.

14 fevereiro 2007

Namoro

Amor com gomos
e sementes
amor com pele
amor sem tempo
de amar tanto
amor de mel
com que me adoço
com que me aqueço

com que te chamo.

(pintura de Jan Tinholt: encerrados en amor)

Entretenimento

Ontem vi um pedaço do programa abrilhantado por Jaime Nogueira Pinto, em que traçava um Salazar muito à maneira dele, muito patriótico, muito honesto, muito modesto, muito missionário, muito ditador, mas isso até era bom, sem dúvida, mas este povo até gosta, enfim, nunca mais fomos os mesmos, o que era preciso era mesmo outro Salazar para meter isto na ordem.

Há uma ou duas semanas vi um pedaço do mesmo programa, desta vez abrilhantado pela dramática Odete Santos, toda ela em cores de encarnado, com grandes gestos e emocionado semblante, traçando o perfil do herói mais heróico que tivemos a sorte de ter em Portugal, que lutou contra a longa noite do fascismo, com determinação e coragem.

Estes programas, como muito bem disse A. Teixeira, são de entretenimento, e não de informação. Por isso acho absurdas as posições estremadas, de louvor extremo ao programa até à acusação de neosalazarismo encapotado, que se lê pela blogosfera.

Apesar de saber que Álvaro Cunhal defendia um regime idêntico àquele que combatia, não posso deixar de ter alguma simpatia pela sua figura. De facto era inteligente, aventureiro, artista, enfim um herói romântico, que só o foi porque nunca conseguiu chegar ao poder.

Relativamente a Salazar, para mim ele era tudo menos um grande português. Foi um homem que moldou o país à sua imagem e semelhança, sem grandeza de qualquer espécie. A partir do pós guerra, não vejo qualquer justificação para o aprisionamento das pessoas e das ideias, para o empobrecimento, para o enquistamento do conservadorismo e do provincianismo, para a rejeição das novidades na política e na sociedade.

13 fevereiro 2007

Silêncio

Escorre o silêncio
pelas paredes da memória
infiltra o peso
dos fundos escuros dias
buliçosos artefactos
do tempo.


(pintura de Jonas Gerard: Beyond Time and Space I)

12 fevereiro 2007

Eden

Quando escrevo
a minha alma engrandece
e o mundo em que vivo
tem mais brilho.
As palavras são doces
e eternas
rasgando os limites
deste corpo terreno
perecível.

Quando escrevo
vivo vidas de sonho
e pesadelo
paixões sem mágoa
amores encantados
duma beleza pura e interdita
ao meu verdadeiro eu.


(pintura de Gregory Eanes: Tension In Éden)

Alguns considerandos

Muito já se comentou e muito mais se comentará sobre o referendo, a abstenção, os vitoriosos e os derrotados.

A vitória do sim foi um passo para a resolução de vários problemas. Mas foi apenas um passo, o primeiro.

É necessário que os deputados cumpram a sua função, com rapidez, que legislem e regulamentem a alteração ao código penal e outras leis que, verdadeiramente, sem paternalismos nem conversas de ajuda às coitadinhas, implementem políticas de apoio à maternidade e paternidade responsáveis, como creches, flexibilização de horários, partilha entre os progenitores do tempo para acompanhamento das crianças, etc.

É necessário que outras classes com responsabilidades na nossa sociedade compreendam que os tempos são outros. E estou a referir-me, por exemplo, à classe médica. Entre os derrotados estão aqueles que olham a medicina como uma actividade autoritária e tutelar, que se sentem mais respeitados se usarem o argumento da autoridade, dos saberes não partilhados nem questionados. Entre os derrotados está a medicina sobranceira e desligada da realidade, que pretende impor uma ética individual e moralista.

É necessário que essa visão da medicina não ponha entraves à aplicação da lei, no terreno. Como disse Correia de Campos, a objecção de consciência é individual e nunca institucional. Os Directores dos Serviços e os Directores dos Hospitais devem organizar os seus serviços e hospitais de forma a que a lei seja cumprida.

Por outro lado, o código deontológico não pode condenar médicos por praticarem actos permitidos por lei. O argumento de que, na prática, isso não existe, é disparatado e desonesto. A revisão do código deontológico é inevitável e era bom que o Bastonário o reconhecesse, e quanto mais depressa melhor!

11 fevereiro 2007

Do mal o menos!

Ao contrário do que tenho ouvido proclamar pelos vários dirigentes políticos, com ar digno e pose de estado, incluindo José Sócrates, não me parece que esta tenha sido uma vitória da democracia.

Foi mesmo uma derrota, mais uma derrota. Os portugueses não se interessam pelo colectivo, não se acham responsáveis para decidir, não gostam de ser chamados a participar. Por preguiça, por alheamento, não sei. Seja pelo que for, o referendo, quanto a mim, só voltará a ser utilizado por quem, como António Guterres e Marcelo Rebelo de Sousa, aliás, finjam que querem resolver algo, mas não querem mesmo nada.

Do mal o menos, o sim é maioritário e, finalmente, a lei será alterada.

Da campanha, ficará para a história o vídeo dos Gato Fedorento, uma crítica mordaz e mortal a Marcelo Rebelo de Sousa, que nunca mais será visto da mesma forma.

Do ziguezague de Marques Mendes, das mistificações, das chantagens emocionais, das manipulações dos dados científicos, protagonizados pelos adeptos do não, fica a falta de credibilidade e a derrota daqueles que se pensam donos da moral e da consciência de todos.

Alguns blogues prestaram um verdadeiro serviço público, entre os quais o Sim no Referendo, um fórum constituído por gente das mais variadas áreas, das mais variadas tendências, das mais variadas profissões, e o Médicos pela Escolha por ser um blogue rigoroso, com a preocupação de informar, deixando perceber que os médicos são parceiros indispensáveis no aconselhamento sem imposição, sem que as suas posições ideológicas, culturais, éticas, condicionem a escolha dos doentes.

E repito, do mal o menos, ganhou o SIM!

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...