Todos temos a nostalgia dos contos de fada. Das princesas boas, das bruxas más, dos príncipes encantados, dos heróis, das vítimas indefesas, dos ogres que comem criancinhas.Sempre que a oportunidade se vislumbra, embarcamos a toda a brida na defesa dos inocentes, na admiração pelos indomáveis, de queixo duro, peito saliente e olhar desafiador, na condenação dos tratantes e maus caracteres, de sorriso falso.
Que melhor ocasião senão a que se nos depara com a história de Esmeralda / pai adoptivo / pai biológico? Está lá tudo para que possamos demonstrar a nossa boa índole, satisfazer-nos com a real garantia de que ainda existem heróis que, contra tudo e contra todos, não hesitam em sacrificar-se pelos que amam.
Mas a realidade é diferente da ficção e dos mitos. As pessoas são feitas de todos os tipos de ingredientes, de bruxa má, de ogre, de vítima inocente, de príncipe encantado, de herói e de vilão.
Ao contrário do que a Fernanda Câncio afirma, todas as notícias que foram veiculadas pela comunicação social, escrita e falada, foram absolutamente tendenciosas na forma como falaram da situação, apresentando o pai biológico como um estupor sem coração, a mãe biológica como uma desgraçada que tenta salvar a filha, os pais adoptantes como anjos caídos do céu e o colectivo de juízes como algozes, que administram o mal absoluto.
A única coisa que, mais uma vez, não deixa dúvidas, é a morosidade da justiça, que resulta em maiores injustiças. Porque entre decisões, apelações, recursos e demandas, testes de paternidade e fugas para parte incerta, já se passaram 5 anos. E as crianças não podem esperar, crescem a um ritmo demasiado acelerado.
Afinal o pai biológico, embora arrastado para um teste de paternidade (que custa a módica quantia de 1500 euros), sempre terá afirmado que assumiria a paternidade caso se provasse ser a criança sua filha. Deveria não ter tido dúvidas? Talvez, não sei, não sei quais foram as circunstâncias em que as relações entre ele e a mãe biológica se processaram. Deveria ter aceitado a hipótese de ser pai como uma bênção, como uma coisa maravilhosa? Talvez, não sei, mas será sempre assim que todos assumimos a hipótese de sermos pais/mães? Podia não ter perfilhado, mas perfilhou, podia não ter lutado pela custódia da filha, mas lutou, podia não ter tentado ver a filha, mas tentou. Terá sido porque tinha uma indemnização em vista, ou porque lhe doeu a consciência, ou porque precisou de tempo?
Só que as crianças não podem esperar. Será que é justo retirar a criança a quem lhe deu amor, a quem não teve dúvidas quanto à vontade de ser pai, mesmo apenas ao fim de 6 meses, 1 ano, 2,5 anos? Será que qualquer de nós não teria pressionado a mãe biológica, fugido do pai biológico, da justiça, do mundo inteiro, pelo direito de a cuidar, de a proteger, de a acarinhar? Provavelmente, não sei. Acusar de sequestro alguém que tentou tudo isto é um absurdo, faz revolver-se a noção de justiça de quem quer que seja. Mas será que tudo o que foi provado em tribunal é apenas absurdo? Não sei, mas vale a pena, como diz Paulo Gorjão, ler o Acórdão, para podermos meditar e fazer o nosso próprio juízo.
Para Fernanda Câncio o jornalismo é e só pode ser uma actividade interpretativa. Qualquer coisa que pensemos e escrevamos é uma actividade interpretativa. Em qualquer profissão interpretam-se sinais, interpretam-se factos, sejam eles sintomas de doença, alterações analíticas, cálculos de temperaturas, fenómenos atmosféricos, etc. A divulgação de factos também me parece fazer parte da função dos jornalistas. Ou o jornalismo não é uma actividade informativa, para além de interpretativa?
Independentemente do que se passou, o melhor para Esmeralda deve ser continuar com os pais que a acolheram e que sempre conheceu como tal. Mas a manipulação da informação que tem sido feita a propósito deste caso faz-me duvidar de algumas causas mediáticas a que nos temos dedicado, ao longo dos anos.
É a verdade a que temos direito.
(pintura de Nicolas Poussin: le jugement de Salomon)




