14 janeiro 2007

12 janeiro 2007

Agora

Agora que me criei
dentro das minhas rugas
fundas, castas, sinuosas
vindas da terra e da alma,

agora que me enfrentei
com sonhos e ventos agrestes,
em que me sinto torcer
em árvore seca e rugosa,

agora é que me poisas
aves de asas em leque
que murmuram ladainhas
de letras e versos de sombra,

agora é que me pintas
amoras em ramos quebrados
de horas e dedos abertos
carentes, sedentos de luz.


(pintura de Sylvie Kantorovitz: clump of trees)

11 janeiro 2007

Ética

Não é fácil existirem debates desapaixonados quando nos referimos à IVG. Tudo o que diga respeito a valores ou crenças é acalorado e desafiador.

Ao fundamentarmos as nossas atitudes e opiniões, para além da paixão, devemos socorrer-nos de toda a informação disponível sobre o assunto.

Estudos estatísticos da magnitude do aborto clandestino, as suas consequências nas mulheres que os praticam, sociais e económicas, a curto, médio e longo prazo, estudos e relatórios do que se passa ou passou nos países que adoptaram uma legislação mais liberal, a forma como a IVG é assumida em termos de serviços de saúde, comunicações e artigos científicos sobre as várias vertentes.

A responsabilidade da informação detalhada e rigorosa é de todos. Aos médicos pede-se rigor na análise, transparência e clareza nas exposições, linguagem simples, acessível e exigente. Não se pode aceitar que profissionais de saúde usem palavras sem terem o cuidado adicional de transmitirem o seu significado, falem de sindromas não reconhecidas na literatura científica da especialidade, apontem trabalhos científicos sem revelar quem os fez, onde estão publicados, onde se podem ler, principalmente quando pretendem proporcionar informação científica.

Ao desinformar-se a população apenas se está a contribuir para o aumento do medo, da culpa e dos mitos.

O papel dos médicos neste debate, enquanto investidos do seu papel profissional, deverá ser o de informar e não o de brandir ameaças veladas à saúde futura de quem decidir interromper a gravidez, sem revelar em que se baseiam tais afirmações.

Enquanto meros cidadãos podem assumir a acalorada e intensa paixão dos que defendem valores, sejam eles quais forem. Mas há uma linha de demarcação que não deve ser transposta, em nome da ética e da honestidade intelectual.

10 janeiro 2007

Poção

Ouço-te em passos
distraídos
entreabro a porta
aos feitiços.

Guio-te no silêncio.
Sem demora
chegas e instalas
os sentidos.


(pintura de Mary Burke; potion)

09 janeiro 2007

Foi você que pediu informação?

Muitas vezes me interrogo se vale a pena tanta adrenalina, tanto esgrimir de argumentos, tanto espanto ou consentimento, baseado no que ouvimos.

Se quisermos investigar ligeiramente algumas das notícias que aparecem todos os dias nos media, ou porque nos intrigaram, nos exaltaram, ou apenas porque, por razões profissionais ou de interesse particular, as conhecemos, apercebemo-nos das enormidades que são ditas e repetidas à exaustão durante dias, tecendo-se considerações e opinando a partir de fragmentos de uma conversa ou de declarações improvisadas a perguntas jornalísticas bombásticas.

Os assuntos morrem rapidamente, sem que ninguém aprofunde as tais respostas ou afirmações. Há uns dias ouvi Clara Ferreira Alves dizer, com a petulância que a caracteriza que, em Portugal, não há jornalismo de investigação. E com toda a razão: fala-se de despachos ministeriais que são contraditórios com decretos-lei mas ainda não vi, em nenhum órgão de informação, informar-se o público do que realmente constam os tais despacho ministerial e decretos-lei.

Fala-se de eventuais testemunhos de alegados voos ilegais que terão passado pelas Lages, na saga de espionagem em que se está a transformar o inquérito do parlamento europeu aos voos da CIA, mas as únicas notícias que se ouvem são os fragmentos das declarações dos vários intervenientes no processo, para demonstrar que Ana Gomes enlouqueceu, ou para a defender, como é o caso de raros camaradas seus de partido. Não há nenhum jornalista que informe ao certo de que consta exactamente o mandato da comissão ou que listas (e o que constam delas) são as referidas pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros e Ana Gomes.

Fala-se de corrupção a vários níveis e João Cravinho passou a ser considerado o paladino dos incorruptíveis contra a corrupção. Mas porquê e a que propósito? Como bem lembrou A. Teixeira, não parece ter sido esse o seu papel no caso da Junta Autónoma de Estradas. E todos repetem que é incómodo ao governo, sem ninguém referir que atitude terá ele dito ou feito que incomodasse assim tanto a governação.

Assim como os casos das facturas falsas, do encerramento de maternidade e de escolas, dos anonimatos versus privacidades, do naufrágio dos pescadores na Nazaré, em que ainda não vi qualquer reportagem que abordasse este triste e gravíssimo tema com intenção de perceber, de facto, o que se passou, etc.

As generalizações são sempre perigosas e injustas, mas quando se fala de corporações, e elas aí estão bem vivas, atentas e com posições autistas e de pseudo auto preservação, seria inovador que os jornalistas se apercebessem (e denunciassem vigorosamente) da total ausência de seriedade, rigor e profissionalismo de uma grande parte do seu trabalho.

Mas o que me incomoda mais e que considero perigoso para o funcionamento da democracia, é que toda esta incompetência pode ter consequências sérias na acção política, pela pressão que se impõe a propósito de assuntos que ninguém está interessado em compreender ou que, pelo contrário, o único interesse parece ser induzir a população a pensar de determinada maneira.

Em princípio, o pluralismo de opiniões e a profusão de meios informativos reduz esse perigo mas com as notícias, tal como com os preços da gasolina e do pão, parece haver uma estratégia de concertação (involuntária) na quantidade de ignorância e negligência a evidenciar.

08 janeiro 2007

Trave mestra

Sinto que se vão partindo
traves mestras
cristais de lume
sinto névoas de cinza
perturbando
olhares renovados
de claridade.

Não faço mais que desembrulhar
folhas de metal
presas como sementes
à terra.

07 janeiro 2007

Responsabilidade individual

Ouvem-se todos os dias várias pessoas a comentar a ingerência do Estado na vida privada, regulamentando tudo o que pode e se calhar muito do que não deve. No entanto, não ouço as mesmas pessoas insurgirem-se pelo facto dos cidadãos se desresponsabilizarem totalmente das suas opções e da escolha de prioridades na vida.

Quando lemos várias notícias e reportagens acerca do sobreendividamento das famílias, só falta, no fim, a eterna expressão: o governo é que devia…

O apelo ao consumo, a publicidade enganosa, a relevância da aparência do que se tem, na sociedade ocidental actual, são estímulos constantes e absolutos que nos pressionam a querer mais, sempre mais, sem se saber exactamente o quê e para quê.

Achamos indispensáveis e cremos que são direitos absolutos o que nos aparece como essencial na televisão ou no vizinho do lado. As viagens de férias, os écrans de plasma, o cabeleireiro, a roupa da moda, os relógios a condizer, as remodelações e a decoração das casas, cíclicas e por estação, os telemóveis com fotos, vídeos e internet, os casamentos que custam milhares de euros, os corpos esbeltos, sem rugas, pêlos ou banhas, os trabalhos criativos, sem horários e bem pagos, enfim, tudo o que nos é apresentado como essencial à nossa felicidade e cuja falta nos mergulhará na mais absoluta tristeza e nos transformará nuns marginais pobres e suburbanos.

O acesso ao crédito pessoal é muitíssimo fácil e propagandeado. Mas não conheço nenhuma instituição de crédito, bancária ou outra, que venha a correr atrás dos cidadãos obrigando-os a subscrever um determinado montante e assumindo um compromisso económico durante vários meses, impedindo-os de fazer contas.

São os cidadãos que têm que saber quais são as suas prioridades e assumir a sua total responsabilidade. Antes de ir de férias às Caraíbas com a família inteira, pagando um maravilhoso pacote em suaves prestações, que se somarão às suaves prestações com que se comprou um confortabilíssimo sofá que até estava em promoção, que se somarão às menos suaves prestações do carros e da casa, talvez seja importante saber se é melhor ir às Caraíbas do que comer durante o resto do ano, se é mais importante sentar-se num sofá novo do que pagar os livros de estudo dos filhos, se é preferível prescindir dos transportes públicos ou de uma casa onde morar.

Sou absolutamente solidária com que está desempregado e não sabe como vai pagar compromissos que podia assumir enquanto tinha um ordenado ao fim do mês. Acho muito bem que se criem gabinetes de apoio a quem precisa de aprender a gerir as suas economias, parcas ou abundantes.

O que não posso aceitar é que essas pessoas se achem vítimas dos bancos, das publicidades, da globalização, do mundo, quando, na imensa maioria das vezes, são vítimas delas próprias, não percebendo que a opção está sempre e apenas na sua mão: comprar ou não comprar, eis a questão.

(desenho de Alain Gonçalves: atolados)

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...