25 dezembro 2006

As Mãos

Com mãos se faz a paz se faz a guerra.
Com mãos tudo se faz e se desfaz.
Com mãos se faz o poema – e são de terra.
Com mãos se faz a guerra – e são a paz.

Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra.
Não são de pedras estas casas mas
de mãos. E estão no fruto e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.

E cravam-se no Tempo como farpas
as mãos que vês nas coisas transformadas.
Folhas que vão no vento: verdes harpas.

De mãos é cada flor cada cidade.
Ninguém pode vencer estas espadas:
nas tuas mãos começa a liberdade.

(poema de Manuel Alegre; desenho de Leonardo Da Vinci: mãos)

Pequenos silêncios

Verdadeiro dia de recolhimento, de ronronice na cama, de gestos lentos e apreciados. A luz do Inverno inunda as janelas, dá vontade de nos aquecermos, uns com os outros, uns aos outros.

Café a fumegar na sala, sentados calmamente a saborear os despojos da noite, folheando gulosamente os livros que secretamente desejávamos, apreciando os pequenos cartõezinhos com ingenuidades simpáticas. Olhando para as receitas com sabores orientais, provando uma ginginha de “reserva 2006, marca registada P.M”, cheirando as folhas de um chá especial, uma colherada de doce de abóbora com amêndoas, nozes e versos, acariciando os nossos pais, os nossos filhos, os nossos amores, os nossos amigos, todos dentro deste casulo a que chamamos casa, a que chamamos alma.

Este é o dia de recolha de pequenas frases, pequenos silêncios, pequenas ausências, algumas que doem com uma dor longínqua e meio doce, outras mais presentes e mais amargas, este é o dia em que na solidão dos nossos dedos podemos dizer o quanto amamos.

(pintura de Vieira da Silva)

24 dezembro 2006

Amizade

De mais ninguém, senão de ti, preciso:
do teu sereno olhar, do teu sorriso,
da tua mão pousada no meu ombro.
Ouvir-te murmurar: - “Espera e confia!”
E sentir converter-se em harmonia,
o que era, dantes, confusão e assombro.

(poema de Carlos Queiroz; pintura de Pablo Picasso: amistad)

23 dezembro 2006

Amanhã

Para aqueles que nos são imprescindíveis, para aqueles que nos ensinam a olhar e a descobrir que todos os dias podem ser o primeiro, para aqueles que fazem da vida uma festa de inícios, que o amanhã seja bom, leve e doce.

Bom Natal.

Comissões

Já muito se disse e escreveu sobre a comissão do Parlamento Europeu que está a investigar o eventual transporte ilegal de prisioneiros de guerra, em voos que terão cruzado espaço aéreo comunitário.

A luta contra o terrorismo não justifica tudo e não é muito crível que os estados membros da UE, tendo acordos com os EUA, por exemplo no âmbito da NATO, tenham registado ou questionado os ditos voos. E até porque, deixemo-nos de hipocrisias, seriam operações de que os mesmos estados membros, caso suspeitassem de ilegalidades, prefeririam com certeza nem ter delas conhecimento. Esta é a crua realidade e os protestos de inocência por parte dos países, assim como a procura das acusações exemplares, por parte da comissão, são encenações de um drama pouco convincente.

Mas a verdade é que existe uma comissão de investigação, cujo objectivo é… investigar! Os deputados europeus que integram essa comissão representam os cidadãos europeus e não um partido ou um governo de um determinado país. Concorde-se ou não com a histeria e a forma demasiado arrebatada de Ana Gomes discutir o problema, não se conseguem perceber as acusações de dama ofendida do Ministro da Defesa, que não justificou a discrepância entre os números de voos fornecidos oficialmente e os números que constam de uma lista a que Ana Gomes teve acesso. Ainda menos se percebem as posições de cavaleiro defensor da dama ofendida assumidas por José Lello, que só conseguiu cobrir-se de ridículo e levantar suspeitas de que, de facto, os números oficiais não são credíveis.

Portugal não está habituado a que comissões de investigação façam o que lhes compete. Pior para Portugal, para o governo e para o grupo de indefectíveis do PS, que têm uma coluna vertebral bastante flexível.

22 dezembro 2006

Em suspenso

Todos os anos é assim. O país, tal como nós, fica suspenso por uns dias, faz um intervalo, à espera de qualquer coisa diferente, que sabe que vai ser exactamente igual a sempre.

Todos os anos é assim. O país, tal como nós, afoga as mágoas nestes dias em que se adornam as emoções de cores fortes e odores intensos, em que se faz muito barulho para abafar o que de verdadeiro nos inunda por dentro, e caminha inevitavelmente para a ressaca das contas e balanços, das desculpabilizações e dos compromissos inabaláveis.

Todos os anos é assim: passamos trezentos e sessenta e dois dias a preparar, a suspirar, a negar, a esperar, apenas por três.


(pintura de Christy Michaels Tremblay: Forest Breath)

Amor

Desde que a tua
a minha mão aqueça
e que o teu olhar
me não esqueça,
desde que o amor
nos converta
e nos mereça,
não há tremor
que estremeça
o nosso mundo.

(pintura de Arpad Szenes: La Vallée)

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...