
Enquanto carregava o enorme frasco com a aguardente, as cascas e os caroços de pêssegos, despojos da sessão compoteira de Setembro, subindo as escadas como se tivesse vários longos braços de polvo, com numerosos sacos a abarrotar de garrafas vazias que tinha recolhido nos cafés mais próximos, para reciclar, espantou-se mais uma vez com os caminhos desviantes que a vida percorre.
Quem poderia imaginar, muito menos ela, que seria a guardiã das tradições culinárias do Natal, que seria ela a receber a herança dos licores, das consoadas, do bacalhau cozido, das rabanadas, do ananás com vinho do Porto?
Mediu bem medida a infusão de aguardente e pêssego, e pôs a panela ao lume com o açúcar e a água, para fazer o xarope. Ainda hoje lhe tinham falado mais uma vez de um pesa-xaropes, um utensílio misterioso de que toda a gente sabia a existência, menos ela.
Procurou em várias gavetas um guardanapo de linho para filtrar o licor. Foi provando e aquecendo, à medida que as faces se lhe avermelhavam, e que as pernas se tornavam mais pesadas.
Agora só faltava distribuí-lo pelas garrafas que, entretanto, tinha lavado, desinfectado e limpo de rótulos e cola. E colar os novos rótulos que tinha feito no computador.
Estava divinal, um néctar digno de deuses. Doce e aveludado, mesmo apropriado para Nossa Senhora, que de há 2000 anos a esta parte não parava de dar à luz!
Licor de pêssego
- Deixar cascas e caroços de pêssego dentro de uma boa aguardente vínica, bem forte, por uns 2 meses, num grande frasco de boca larga, bem fechado;
- Quando a cor das cascas tiver passado para a aguardente, filtrar a infusão (em pano de linho, em papel de filtro, naquilo que não abusar demasiado da paciência);
- Fazer um xarope (para 1l de infusão/ 1l de água) com água e açúcar (1l água/750gr açúcar ao lume, a ferver, durante 15 minutos);
- Deitar a infusão filtrada para o xarope e deixar levantar fervura;
- Filtrar outra vez;
- Engarrafar (rolhar só quando estiver frio!).
[pode provar-se (muitas vezes), para ver se não se estragou…]