03 dezembro 2006

Urgência


Espero pelos dados das máquinas observadoras de células, pelas contagens automáticas, pelas imagens a preto e branco, pela realidade revelada, pela devassa da intimidade da pele.

Espero pelos milagres dos soros a correrem a um ritmo estudado, tantas vezes ensaiado, pelos gestos matemáticos de quem cuida, pelo olhar profissional dos magos da ciência.

Espero pelo ar que hei-de respirar, quando te levantares com esse sorriso meio torto, e franzires as sobrancelhas de modo espantado mas confiante. Espero por este Domingo que tarda em chegar.

02 dezembro 2006

Avaria

Não sei o que se passa com o blogue, mas é muito irritante, seja lá o que for!

Modernices!!

Fuga de informação

O Almirante Mendes Cabeçadas fez questão em dizer que o facto do memorando enviado ao Ministro da Defesa ter vindo a público nesta altura é muito interessante, frisando que poucas pessoas sabiam da existência do documento: ele próprio, os Chefes de Estado-Maior e o gabinete do Ministro.

A quem interessava que o documento fosse publicitado? Às Forças Armadas, mesmo que o Almirante negue ter sido ele a origem da fuga de informação? Aos Chefes de Estado-Maior, para questionar o governo ou o próprio Almirante Mendes Cabeçadas? Ao ministro, para colar as Forças Armadas aos passeios manifestantes e assim retirar-lhes credibilidade? Ou terá sido alguém do gabinete do Ministro, que o quer pôr em cheque e demonstrar que não tem força?

É um facto intrigante, que pode suscitar múltiplas interpretações, qual delas a mais interessante!

Música



Por dentro da música
nas cordas da guitarra
sem ver nem ouvir
sou as notas dedilhadas
fogosas ou solitárias
efémeras como o som.

01 dezembro 2006

Heranças




Enquanto carregava o enorme frasco com a aguardente, as cascas e os caroços de pêssegos, despojos da sessão compoteira de Setembro, subindo as escadas como se tivesse vários longos braços de polvo, com numerosos sacos a abarrotar de garrafas vazias que tinha recolhido nos cafés mais próximos, para reciclar, espantou-se mais uma vez com os caminhos desviantes que a vida percorre.

Quem poderia imaginar, muito menos ela, que seria a guardiã das tradições culinárias do Natal, que seria ela a receber a herança dos licores, das consoadas, do bacalhau cozido, das rabanadas, do ananás com vinho do Porto?

Mediu bem medida a infusão de aguardente e pêssego, e pôs a panela ao lume com o açúcar e a água, para fazer o xarope. Ainda hoje lhe tinham falado mais uma vez de um pesa-xaropes, um utensílio misterioso de que toda a gente sabia a existência, menos ela.

Procurou em várias gavetas um guardanapo de linho para filtrar o licor. Foi provando e aquecendo, à medida que as faces se lhe avermelhavam, e que as pernas se tornavam mais pesadas.

Agora só faltava distribuí-lo pelas garrafas que, entretanto, tinha lavado, desinfectado e limpo de rótulos e cola. E colar os novos rótulos que tinha feito no computador.

Estava divinal, um néctar digno de deuses. Doce e aveludado, mesmo apropriado para Nossa Senhora, que de há 2000 anos a esta parte não parava de dar à luz!

Licor de pêssego



  • Deixar cascas e caroços de pêssego dentro de uma boa aguardente vínica, bem forte, por uns 2 meses, num grande frasco de boca larga, bem fechado;

  • Quando a cor das cascas tiver passado para a aguardente, filtrar a infusão (em pano de linho, em papel de filtro, naquilo que não abusar demasiado da paciência);

  • Fazer um xarope (para 1l de infusão/ 1l de água) com água e açúcar (1l água/750gr açúcar ao lume, a ferver, durante 15 minutos);

  • Deitar a infusão filtrada para o xarope e deixar levantar fervura;

  • Filtrar outra vez;

  • Engarrafar (rolhar só quando estiver frio!).


[pode provar-se (muitas vezes), para ver se não se estragou…]

Poeira


Frutos do acaso, do encontro
fortuito, da troca azarada
de matéria orgânica,
insignificantes partículas
do universo,
preocupados com a relevância
que não temos,
com focos de originalidade
que não somos,
orbitamos à volta da esfera
dos corpos,
numa amálgama deformada
de moléculas e sentimentos
irrepetíveis,
irrelevantes.


(fotografia de Ignacio de la Cueva Torregrosa: La Vía Láctea en Sagitário)

Dezembro

O dia amanheceu de cara lavada. Bach convida à meditação.

Começamos o mês da boa vontade artificial, da solidariedade encomendada e enfeitada, dos coros pouco celestiais.

Olhemos para nós, para o percurso da nossa vontade, dos nossos gestos diários, das nossas prioridades enquanto cidadãos. Dezembro é o exemplo do desperdício, do cinismo e da hipocrisia, da inveja e da ambição, de tudo o que é descartável e perecível.

Ainda estamos a 1 de Dezembro deste ano. Eu gostaria de estar já a 1 de Janeiro do próximo ano.


(Ilustração de Stefan Mart: christmas shopping)

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...