Provavelmente é assim que nascem os heróis. Sem eles quererem, pelas circunstâncias, pelos acasos, pelas forças avassaladoras que se movem em turbilhão, que os heróis são sempre o fruto de um qualquer tipo de revolução.Ramalho Eanes é um herói. Não porque ele o queira, ou porque para isso tenha trabalhado, mas foi ele que, fruto das circunstâncias de um ano louco de anarquia e de revolução perpétua, emergiu como o chefe dos que conseguiram segurar o país, dando-lhe aquilo que lhe tinham prometido a 25 de Abril de 1974.
Apanhado pelas rodas dentadas da História, nesses anos absolutamente cruciais para a consolidação da democracia, Ramalho Eanes foi presidente, por duas vezes. Sempre no seu estilo seco, inseguro, simples, austero, honesto e humilde, cumpriu com maior ou menor brio a missão que lhe foi confiada, para a qual nunca tinha treinado, nem nos campos de guerra nem nos campos de paz.
Após o fim das suas duas comissões no Palácio de Belém, Ramalho Eanes recolheu-se à sua vida, tão seco, inseguro, simples, austero, honesto e humilde com sempre, largando as luzes da ribalta que nunca lhe agradaram, mas sempre mostrando a sua figura, a sua voz, a sua companhia, pelas causas que considerava importantes.
Ramalho Eanes defendeu a sua tese, perante um júri ibérico (Sociedade civil e poder político em Portugal), que tinha preparado durante 10 anos, para a obtenção do grau de Doutor de Filosofia e Letras da Universidade de Navarra. Como diz José Medeiros Ferreira ele não precisava de o fazer. Aí está a diferença entre Ramalho Eanes e os outros. Não precisava, mas fê-lo.
É desta têmpera, este herói, acidental nas circunstâncias, mas não na dignidade ou na honra.

