20 novembro 2006

Ramalho Eanes

Provavelmente é assim que nascem os heróis. Sem eles quererem, pelas circunstâncias, pelos acasos, pelas forças avassaladoras que se movem em turbilhão, que os heróis são sempre o fruto de um qualquer tipo de revolução.

Ramalho Eanes é um herói. Não porque ele o queira, ou porque para isso tenha trabalhado, mas foi ele que, fruto das circunstâncias de um ano louco de anarquia e de revolução perpétua, emergiu como o chefe dos que conseguiram segurar o país, dando-lhe aquilo que lhe tinham prometido a 25 de Abril de 1974.

Apanhado pelas rodas dentadas da História, nesses anos absolutamente cruciais para a consolidação da democracia, Ramalho Eanes foi presidente, por duas vezes. Sempre no seu estilo seco, inseguro, simples, austero, honesto e humilde, cumpriu com maior ou menor brio a missão que lhe foi confiada, para a qual nunca tinha treinado, nem nos campos de guerra nem nos campos de paz.

Após o fim das suas duas comissões no Palácio de Belém, Ramalho Eanes recolheu-se à sua vida, tão seco, inseguro, simples, austero, honesto e humilde com sempre, largando as luzes da ribalta que nunca lhe agradaram, mas sempre mostrando a sua figura, a sua voz, a sua companhia, pelas causas que considerava importantes.

Ramalho Eanes defendeu a sua tese, perante um júri ibérico (Sociedade civil e poder político em Portugal), que tinha preparado durante 10 anos, para a obtenção do grau de Doutor de Filosofia e Letras da Universidade de Navarra. Como diz José Medeiros Ferreira ele não precisava de o fazer. Aí está a diferença entre Ramalho Eanes e os outros. Não precisava, mas fê-lo.

É desta têmpera, este herói, acidental nas circunstâncias, mas não na dignidade ou na honra.

"Half the perfect world"


Madeleine Peyroux é muito melhor ao vivo que no cd. De uma simplicidade assombrosa, ela canta como se estivesse a conversar, a sussurrar, a rir, mas discretamente. Com uma variação de tons invejável, atira a voz, quase negligente, em notas arrastadas, ao jeito de Billie Holiday, menos sofrida. Do folk, aos blues, ao soft jazz, interpretações de canções eternas, com cheiro a tabaco e pó de estrada, com sabor a bebidas fortes de fim de noite.

Os músicos que a acompanham, cúmplices e solidários, mas relevantes só por si, formam um ambiente quase mágico, ajudado pelas luzes envolventes.

Grande espectáculo.

18 novembro 2006

Ciência pós prandial

A oradora debitava moléculas, factores de transcrição, agentes desmetiladores, genes supressores e fenómenos epigenéticos, numa sala penumbrenta, em que se ouvia a chuva persistente e miúda, acinzentando o céu e enublando o dia.

Mesmo em frente da esforçada cientista, numa fila de cadeiras vazias, um professor já entradote, rubicundo e ofegante, adormecia compulsivamente a cada resultado cruzado e medido, a cada estudo randomizado.

O interesse daquela comunicação transformou-se rapidamente num estudo observacional do grau de equilíbrio do dito professor, do momento em que ele iniciaria o ressonar ou, em alternativa, do momento em que a inclinação semelhante à da torre de Piza se transformaria em queda aparatosa e embaraçante.

Após vários estremeções e recaídas na mesma atitude acabou, para bem da oradora, do professor e da restante audiência, a sábia oração de sapiência.

Algo de novo na frente sindical

De vez em quando uma boa notícia, para variar. Esperemos que continue a imperar o bom senso!

Arredondar

Vi um pouco do "Expresso da Meia Noite", na SIC.

O vice-presidente do "Millenium BCP" quer convencer quem, de que os clientes sequer sabiam da existência de arredondamentos, quanto mais de arredondamentos do tipo que todos os bancos praticam??

Entrevistas

A entrevista de Cavaco Silva não agradou a ninguém: ao PS não agradou porque Cavaco Silva fez passar a mensagem de que estaria envolvido na governação. À oposição de direita não agradou porque arrasou as posições de Marques Mendes no combate ao governo e retirou a outros sectores a esperança de comandar a oposição.

Ainda não percebi qual foi o objectivo da entrevista. Terá sido um presente envenenado a Sócrates?

17 novembro 2006

Ruído de fundo

Não percebo muito bem qual o interesse da entrevista de Cavaco Silva a Maria João Avillez. Ainda por cima com a entrevista de Santana Lopes a Judite de Sousa praticamente ao mesmo tempo.

Não entendo a oportunidade, o tom, o tema. Porquê este apoio ao governo, neste momento? Será que se quer criar a confusão entre a vontade presidencial e a vontade governamental? Qual o objectivo de Cavaco Silva? A população está serena, o congresso o PS não aqueceu ânimos.

Que se passou de importante, ou que efeméride se está a comemorar, para que apareça o Presidente a dizer coisas já ditas e reditas? Foi para ouvir reacções ao livro de Santana Lopes?

Acho estranho e esdrúxulo este súbito protagonismo do Presidente.

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...