02 setembro 2006

Em que ficamos?


O governo socialista de Sócrates usa a comunicação social como caixa de ressonância distorcida dos seus objectivos políticos. Não está em causa se os fins são ou não meritórios. O que questiono são os meios.

Ao contrário da transparência que se exige numa democracia, com ou sem maioria absoluta, este governo ensaia as intenções reformistas deixando escapar para os jornais reflexões ingénuas, absurdas ou populistas, para assustar as corporações e conquistar a restante população.

Declaro desde já que sou militantemente a favor de reformas, que esperançosamente aguardo alterações de fundo em vários sectores profissionais, que os serviços públicos são para servir todos os cidadãos e não para resolver problemas de emprego aos seus funcionários. A saúde, a educação e a justiça são exemplos de sectores em que a necessidade de romper com o imobilismo, de alterar atitudes e rever os objectivos é urgentíssima. São também sectores em que se espera grande oposição corporativa, muitas vezes desleal e estapafúrdia.

Em maior ou menor grau, a sociedade anseia por alterações no seu modo de vida, às vezes pelo pior motivo, que é o desalento. Por outro lado o governo tem uma maioria absoluta parlamentar e uma oposição totalmente frívola, bacoca e agónica.

Por tudo isto parece-me totalmente desnecessário e de muito mau agoiro o jeito boateiro do governo, praticado por todos os ministros. Em relação às propostas de alteração da remuneração dos médicos hospitalares, às quais já me referi, e andando calmamente pela blogosfera, li um artigo de Correia de Campos, num site do Ministério da Saúde, em que não fala de perda da exclusividade (regime laboral que obriga a trabalhar apenas para uma entidade empregadora, neste caso o Ministério da Saúde) mas em que afirma ter enviado as referidas propostas aos sindicatos. Li notícias na imprensa e em blogues dando já como certa a alteração do regime de exclusividade e o início da negociação com os sindicatos. Mas o Sindicato Independente dos Médicos (Jornal virtual - Negociações ou Alzheimer? - de 25/08) assegura que não foi convocado nem recebeu nenhuma proposta para negociar.

Em que ficamos? Não havia necessidade…


(pintura de Johanna Leipold: Pinocchio)

Involuir


  • Ciência – scientia - conhecimento rigoroso e racional de qualquer assunto; conjunto organizado de conhecimentos baseados em relações objectivas verificáveis e dotadas de valor umiversal.
  • Crença – credentia - fé; lei religiosa; convicção.
  • Religião – religione - doutrina; sistema religioso; crença na existência de uma ou mais forças sobrenaturais.
  • Criacionismo – s. m., Filos., Teol. - teoria ou sistema que sustenta terem sido as espécies animais e vegetais criadas de forma distinta e permanecerem invariáveis (este sistema é oposto ao transformismo); no sentido metafísico e cosmológico, o termo criacionismo designa a concepção segundo a qual Deus produziu o Mundo do nada; no sentido psicológico, aplica-se à doutrina, adoptada pela Igreja Católica, que afirma que a alma de cada pessoa é criada por Deus e infundida no corpo, seja no momento da concepção, seja no estado embrionário do corpo.
  • Evolucionismo - s. m. - teoria que defende a existência de uma evolução das espécies das mais simples para as mais complexas, ao longo dos períodos geológicos; Filos. - concepção filosófica que explica a formação e o desenvolvimento do mundo físico e das espécies vivas, da consciência e da sociedade humana, por um processo de evolução contínua; transformismo.

Para além da política, o fundamentalismo vai passar a reger o conhecimento. Mais perigoso que o terrorismo islâmico é o terrorismo da ignorância e a ditadura da fé.

O método científico veio trazer liberdade e criatividade, veio trazer a liberdade de pensar, experimentar, demonstrar.

Esta é uma verdadeira ameaça à nossa concepção de sociedade livre, tolerante e ousada.

Será que nos espera outra Idade Média?

01 setembro 2006

Beslan


Secos os olhos sem lágrimas
secas as mãos vazias
secos os pátios mudos
secas as flores de cinza
secas as pedras feridas
secos de sangue e amor.

(monumento às crianças de Beslan: a árvore da tristeza)

31 agosto 2006

Asas

Num dia como este
em que o brilho do ar
nos desorienta,
guardo aplicadamente
impulsos de voar.

Prendo metodicamente
os dedos de ave
na sombra do desejo.

(fotografia de Victor Zhang: wings 2)

29 agosto 2006

Fio da vida


O progresso científico tem sido tão avassalador que assusta. Mais rápido do que a velocidade com que pensamos nas suas consequências, mais extraordinário do que a imaginação, mais tecnológico do que humanizado.

Por isso há sempre aqueles humanistas, habitualmente mais pensadores do que fazedores, que olham a vida e o mundo, e principalmente o homem, como um conjunto de células e um conjunto de emoções, tudo misturado e moldado por valores resultantes da época, do espaço, das inter relações com outros seres vivos e com o meio físico, ou seja valores culturais, que tentam criar e uniformizar as regras necessárias para que os homens se estudem, se tratem, mas não se destruam, aviltem ou percam as suas características mais humanas.

Entre estes humanistas há os representantes dos valores espirituais e religiosos, que acreditam que a vida é mais do que um conjunto de moléculas, que há mais qualquer coisa para além dos genes e das proteínas, do oxigénio ou do ozono, a que chamam alma.

Alguns destes guias espirituais depõem num ente criador, omnipresente, omnipotente e omnisciente, a capacidade de dar ou tirar a vida.

Respeito muito as religiões e os religiosos. Cada qual é livre de pensar, acreditar, rezar, seguir rituais e partilhá-los com quem quer.

Mas não respeito aqueles que, por terem uma determinada filosofia de vida, por terem abraçado um determinado conjunto de valores morais, o tentam impor a toda a humanidade, achando que para isso estão mandatados pelo divino.

O conceito de início da vida tem variadas ressonâncias.

A investigação que tem sido feita em relação à utilização de células estaminais (palavra que deriva de estame, que significa fio da vida, fio da existência), na tentativa de desenvolver tecidos que possam substituir tecidos adultos lesionados, para dar um pequeno exemplo, são uma fundada esperança para muitos doentes. O facto de se utilizarem embriões excedentários da fertilização in vitro, ao ter como consequência a destruição desses embriões, põe problemas éticos a muitas consciências.

Foram publicados trabalhos em que se demonstra que é possível desenvolver os mesmos tecidos adultos a partir apenas de uma célula retirada de um embrião muito jovem (ele próprio com muito poucas células), sem o lesionar, ficando com a total capacidade para de desenvolver por inteiro, saudavelmente.

Pois mesmo assim, o Vaticano já fez saber que não concorda com este método, porque se uma célula se pode desenvolver totalmente num novo ser, essa mesma célula deve ser considerada um embrião!!!

De certeza que o Papa Bento (ou Benedito) XVI nunca foi nem será submetido a qualquer intervenção cirúrgica. Na verdade é possível, a partir de uma célula adulta, desdiferenciá-la andando para trás na sua evolução, transformando-a numa célula estaminal. Imagine-se a quantidade de potenciais embriões que se matam numa simples excisão do apêndice!

ADENDA: Vale a pena ler os excelentes posts sobre este e outros assuntos no Diário Ateísta (www.ateismo.net/diario)

Quarta-feira de cinzas...

Finalmente! Começa o princípio do fim do vale tudo na Madeira. Finalmente alguém com responsabilidade governativa ousou dizer que o rei vai nu, em vez de desvalorizar os disparates e as enormidades a que Alberto João Jardim se permite.

Convém que os madeirenses olhem bem para o estado a que chegou aquela região, após 30 anos de reinado carnavalesco.

27 agosto 2006

Exemplar

O Sistema Nacional de Saúde (SNS) é pesado, burocrático, alberga em si vícios, irresponsabilidades, profissionais que pouco fazem e, por conseguinte, muito recebem. Mas é universal e tendencialmente gratuito, e a grande maioria dos seus profissionais têm grande qualidade, são trabalhadores e servem o melhor que sabem e podem os seus doentes e os seus serviços.

Por tudo isso, mantenho o que disse sobre o nosso SNS e parece-me injusto e resultante de ignorante atrevimento, portanto ofensivo, apelidar de “irresponsável” António Arnault, e de “monstro” um sistema que, por muitos defeitos que tenha, foi o responsável pela mais espectacular melhoria dos padrões de saúde em Portugal.

Ao contrário do que pensa João Gonçalves, eu não acho o SNS “exemplar”. Acho que é um dos melhores sistemas nacionais de saúde, tal como é reconhecido por organizações internacionais. E não é por uma tarde de troca de sms’s que alguém completamente alheio à matéria se possa permitir fazer avaliações de carácter global. É prova de sabedoria reconhecer as próprias limitações. Histórias exemplificativas, do tipo da que conta, por muito desagradáveis que sejam, há-as infelizmente para todos os gostos.

Penso que é um erro caminhar no sentido da privatização da saúde. É também uma questão ideológica. Para mim todas as pessoas têm direito a ser assistidas na doença, e é o Estado que deve assegurar, se não gratuitamente pelo menos com a tal tendência, essa assistência. É urgente, necessário e inevitável reformar o SNS. Optimizar e concentrar recursos, premiar quem trabalha e punir quem não o faz, reorientar os gastos, reduzir desperdícios, responsabilizar todos os que lá trabalham, incluindo os conselhos de administração. Tudo isto é possível fazer, desde que haja vontade política.

Do que nos vamos apercebendo parece haver interesse em empurrar médicos e doentes para o sector privado, esvaziando o sector público e engordando as seguradoras. Não tenho rigorosamente nada contra o sector privado da saúde. Mas será que o sector privado tem interesse, por exemplo, em ter serviços de Neonatalogia, com internamentos de grandes prematuros em cuidados intensivos, durante meses? Ou serviços de Infecciologia, que tratam doenças crónicas, prolongadas e dispendiosas como a SIDA? Ou serviços de Oncologia com terapêuticas cada vez mais onerosas? Será que há capacidade para fazer seguros que as pessoas todas possam pagar, que cubram todas estas despesas? Ou fica para o Estado o que dá prejuízo? Ou a saúde vai passar a depender do poder económico que cada um tem?

O SNS é ainda das poucas coisas de que o Estado se pode orgulhar. Esperemos que se não transforme o "monstro" numa "irresponsável" inutilidade.

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...