15 junho 2006

Manipulação

Não percebo a vantagem desta manobra. O primeiro-ministro é tão rápido a propagandear as hipóteses de vitória, que deveria ser igualmente rápido a admitir a certeza da derrota.

O governo está à espera de um milagre? Faz fé na vitória de Portugal no mundial, para que se esqueça o desemprego crescente? Ou pensa que vai tudo de férias?

A descarada manipulação da informação é uma bofetada nos que ainda tentam acreditar na boa fé dos governantes.

Sem remorsos


Assaltei o João Gonçalves e, sem remorsos, roubei o Jorge Luis Borges…


He cometido el peor de los pecados
que un hombre puede cometer. No he sido
feliz. Que los glaciares del olvido
me arrastren y me pierdan, despiadados.

Mis padres me engendraron para el juego
arriesgado y hermoso de la vida,
para la tierra, el agua, el aire, el fuego.
Los defraudé. No fui feliz. Cumplida

no fue su joven voluntad. Mi mente
se aplicó a las simétricas porfias
del arte, que entreteje naderías.

Me legaron valor. No fui valiente.
No me abandona. Siempre está a mi lado
La sombra de haber sido un desdichado.


(pintura de Fernando Ureña Rib)

14 junho 2006

Para longe


Olho para longe desta ausência
de flores na mesa e nos cabelos,

Olho para longe do olhar,
para lá do mundo que quero fechar.

Pode ser o mar.



(pintura de Angela Rossen: turtles)

Deprimente

Não consigo deixar de me sentir revoltada com o fecho anunciado da fábrica da Opel da Azambuja. Bem sei que é o mercado e a globalização e tudo o que quiserem. Mas que não me parece moralmente correcto despedir 1500 trabalhadores que o ano passado eram considerados muito bons, muito produtivos, maravilhosos, enfim, não me parece.

O ministro da economia vem dizer que está tudo em aberto. Pois está, as portas bem abertas para todos saírem, o mais depressa possível, e transferirem tudo para Saragoça cujos trabalhadores, este ano, vão passar a ser, por sua vez, maravilhosos.

Ao menos alguma coisa mexe na educação. Espero que mexa ainda mais, na saúde também, na justiça, e em muitos outros sectores, que tanto precisam, que tanto precisamos de um pouco de esperança.

Mas o que se está a passar na Azambuja é deprimente. Triste e deprimente.

Lisboa à chuva


Lisboa molhada e aflita, sacode a água dos passeios e encharca as sandálias nas bermas das ruas.

Há pedras soltas nas calçadas. As pernas nuas das mulheres salpicadas de frio e o arrepio que encolhe os ombros, por baixo do guarda chuva de carteira e do gozo danado de quem olha.



(fotografia de Oscar Garcia Suarez: rain paints the streets)

Dia de prisão


Hoje está um dia de prisão, em que as nuvens são como portas trancadas, as árvores gritam e gemem, os relâmpagos escrevem temor.

Hoje está um dia que não nasceu.

(pintura de Vorontzov)

12 junho 2006

Há palavras que nos beijam


Há palavras que nos beijam
como se tivessem boca,
palavras de amor, de esperança,
de imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
quando a noite perde o rosto,
palavras que se recusam
aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas
entre palavras sem cor,
esperadas, inesperadas
como a poesia ou o amor.
(O nome de quem se ama
letra a letra revelado
no mármore distraído,

no papel abandonado).
Palavras que nos transportam
aonde a noite é mais forte,
ao silêncio dos amantes.


(poema de Alexandre O’Neill)
(pintura de Paulina Parra: And the words got in the way II)

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...