20 maio 2006

Descodifiquemos...


Acho engraçadíssima a preocupação de certas pessoas assegurarem que não leram “O código Da Vinci” mas que acham que o livro representa a literatura menor, de aeroporto, como agora se diz. E que nem sequer vão ver o filme porque (para as mesmas pessoas) de certeza que não vale a pena, a julgar pelo marketing, deve ser uma grande produção comercial, sem nenhuma qualidade, exactamente como o próprio livro e (suspeito eu) o próprio autor.

Habitualmente os filmes cujos argumentos são adaptações de livros são uma desilusão. Entre as honrosas excepções, e que me venham à memória, contam-se “África minha”, “A insustentável leveza do ser” e “O nome da rosa”.

Os dois primeiros conseguiram transmitir e recriar as atmosferas dos livros, respirando-se a beleza e a imensidão de África, a ternura melancólica e doce na ex-Checoslováquia ocupada. O terceiro filme não pretende ser uma cópia fiel do extraordinário livro de Umberto Eco, mas é um excelente filme policial em que o ambiente obscurantista e miserável da idade média está muito bem retratado.

Li “O código Da Vinci” vorazmente e essa é uma das virtudes do livro. Está escrito de uma forma que prende o leitor do princípio ao fim, não lhe dando tréguas. Tem um tema fantástico, utilizando as várias teorias que pululam sobre Jesus Cristo e Maria Madalena, misturando-as com secretismo e esoterismo, fanatismo religioso, maçonarias e ordens secretas, códigos por decifrar e arte.

É um livro com personagens a traço grosso, sem grandes veleidades de modelação psicológica ou de grandeza literária. É um livro de aventuras, que entretém muitíssimo e que, quanto a mim, cumpre bem a sua função.

Por acaso não estou com muita vontade de ir ver o filme, porque não gosto de me desiludir e tenho um preconceito relativamente aos eventos muito badalados. Mas parece haver uma estranha unanimidade entre alguns intelectuais, idêntica à unanimidade entre os guardiães da fé, que já “condenou” o livro e que agora "condena" o filme…

Meditemos


Há dias em que não devíamos ler os jornais, nem ouvir notícias radiofónicas.

Às vezes a santa ignorância é uma bênção. Poderíamos manter algumas ilusões e crenças inocentes.

Providências cautelares, escolas que se decide fechar, irmanar, concentrar, depois já não se irmana nem se concentra, mas fecha-se na mesma (jornal "Público" de hoje, pág. 52). Ninguém sabe porquê, quais as razões de uma ou de outra coisa.

Depois de todo este tempo de urgência, Souto Moura vem revelar que só não concluiu a investigação sobre o caso “envelope 9” porque ainda não pôde investigar os computadores dos jornalistas do “24 horas”. Mas já sabe que a PT e os jornalistas são os culpados. E vem dizer isto para o Expresso!

Marques Mendes torna a fazer demagogia com o assunto maternidades e Manuela Ferreira Leite aplaude o que criticou.

Enfim, vou ver se fecho para meditação transcendental.

À espera de Godot

Confesso que não me lembrava bem da peça de Samuel Beckett. Já a tinha visto há muito tempo, na televisão, e tinha-me ficado na memória qualquer coisa interessante e vagamente ininteligível.

O Teatro Meridional, mais uma vez, superou as minhas expectativas. Um palco minimalista, um excelente jogo de luzes e interpretações extraordinárias de Miguel Seabra (Estragon), João Pedro Vaz (Vladimir), Pedro Gil (Lucky) e António Fonseca (Pozzo), com destaque para os três primeiros.

De tal forma bons que conseguiram manter a plateia atenta até ao fim.

Relativamente à peça em si, ao texto, à estrutura narrativa, aos tempos, foi difícil aguentar-me estoicamente, porque os achei longos, mastigados, entediantes.

O texto é um intrincado aparentemente desconexo sobre a inexorabilidade e omnipresença do tempo, a inutilidade de fugir da teia universal que nos obriga a esperar que algo ou alguém dê um significado à existência, o absurdo das ligações humanas que se tecem, como o poder e a submissão, o companheirismo e a amizade ou, pura e simplesmente, o estar, enquanto Godot não chega.

Nesse aspecto, o texto mantém a sua actualidade. Aliás, é intemporal. Mas, que me perdoem os Beckistas militantes, é demasiado grande, demasiado repetitivo, estendendo-se até ao desespero do espectador.

Mais uma vez, a minha homenagem ao Teatro Meridional pela forma sóbria e intimista com que, apesar de Beckett, me fez apreciar o espectáculo.

17 maio 2006

Criatividade

Há algumas pessoas em quem não se pode acreditar. São como as lendas: quando falam, há sempre um fundo de verdade, enterrado no meio de tanta invenção e acrescento, pormenores e verificações. O desafio é tentar encontrar esse vislumbre do facto em si, que despoletou a história. São pessoas muito imaginativas.

Estamos na mesma com o governo. Os maravilhosos e vultuosos investimentos que seriam feitos no país, anunciados com pompa e circunstância por Sócrates e seus ministros, um deles com o extraordinário e benemérito Patrick Monteiro de Barros, afinal não são bem assim. Qual será o fundo de verdade? Talvez que haverá alguns investimentos…

Agora o ministro das finanças vem à praça pública anunciar que o desemprego, no primeiro trimestre deste ano vai estagnar, ou mesmo descer. Qual será o fundo de verdade? Talvez que há desemprego…

Bem sei que gostamos de ser criativos. Mas tanta criatividade...

16 maio 2006

Demagogia?

Não se percebe muito bem qual o interesse de badalar aos quatro ventos que Manuela Ferreira Leite acha que a posição da direcção do PSD é demagógica, relativamente ao assunto (que já não se aguenta!) das maternidades.

Em geral os partidos (todos!) quando estão na oposição, são contra, quando estão no governo, são a favor, utilizando, enterrando e reciclando argumentos, consoante o caso. Não é novidade.

Mas não vai haver um congresso do PSD? Será que Manuela Ferreira Leite vai lá dizer que o PSD está a ser demagógico? Ou é só para ir marcando terreno, para que, daqui a alguns anos, havja uma reserva moral do PSD que substitua o desgraçado Marques Mendes, antes das próximas legislativas?

Passeios


Desceram a rua íngreme e foram dar às traseiras da Enoteca. O ar abafava. Entraram e a frescura da pedra entranhou-se, provocando até um ligeiro arrepio.

Subiram a escada. Recolhida a um canto, uma mesa quadrada em losango, para recolher um casal.

Pediram dois menus de prova. Veio o espumante para se saudarem, mais uma vez naquele local, mais pesados, com mais rugas e cabelos brancos, com mais assuntos de conversa, mais namoro.

Lentamente foram comendo pequenas iguarias: mexilhões e tâmaras com bacon, com espumante, chévre com tomate seco e carpaccio de bacalhau com branco, pato fumado e morcela de arroz com maçã com tinto, sericaia com Porto, café.

Discorreram sobre muita coisa, saboreando silenciosamente a mútua companhia.

Quando saíram, mais risonhos e aéreos, subiram milhares de degraus e foram até ao Chiado. Lisboa estava tão bonita!

Dança


Caminhamos na praia de mãos dadas.

Falamos como as ondas e as rochas
devagar e duramente,

com espuma sol ou areia.

Desenhamos as pegadas lado a lado
sem medirmos os passos.

Olhamos os dois para o céu.
Um sente pleno o outro azul,
a plenitude do mar que navegamos.


(pintura de Fernando Botero: dance)

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...