16 maio 2006

Passeios


Desceram a rua íngreme e foram dar às traseiras da Enoteca. O ar abafava. Entraram e a frescura da pedra entranhou-se, provocando até um ligeiro arrepio.

Subiram a escada. Recolhida a um canto, uma mesa quadrada em losango, para recolher um casal.

Pediram dois menus de prova. Veio o espumante para se saudarem, mais uma vez naquele local, mais pesados, com mais rugas e cabelos brancos, com mais assuntos de conversa, mais namoro.

Lentamente foram comendo pequenas iguarias: mexilhões e tâmaras com bacon, com espumante, chévre com tomate seco e carpaccio de bacalhau com branco, pato fumado e morcela de arroz com maçã com tinto, sericaia com Porto, café.

Discorreram sobre muita coisa, saboreando silenciosamente a mútua companhia.

Quando saíram, mais risonhos e aéreos, subiram milhares de degraus e foram até ao Chiado. Lisboa estava tão bonita!

Dança


Caminhamos na praia de mãos dadas.

Falamos como as ondas e as rochas
devagar e duramente,

com espuma sol ou areia.

Desenhamos as pegadas lado a lado
sem medirmos os passos.

Olhamos os dois para o céu.
Um sente pleno o outro azul,
a plenitude do mar que navegamos.


(pintura de Fernando Botero: dance)

15 maio 2006

Pudor


Sinto o calor
da pele
o perfume quente
da camisa
a doçura dos olhos.

Dilata o peito
por ouvir-te
estremece o ardor
ao descobrir-te.

Mas não to digo.

As palavras
congelam
evaporam
desidratam
têm pudor
de ser tão pouco
para que te declare
o meu amor.

(pintura de Gloria Rabinowitz: wet clouds)

O Professor

Ontem, por acaso, vi a análise do Prof. Marcelo na RTP. Já há muito tempo que me tinha deixado disso, devido à forma assertiva, aligeirada e pau-para-toda-a-obra do Professor.

Fiquei siderada pela sapiência salpicada de fait-divers. Mas o mais espantoso é que passou pelo problema das maternidades sem comentar as providências cautelares!

Vou ver se deixo de o ouvir por mais uns tempos! É muito enervante!

O bem comum

É cada vez mais notório o triunfo do individualismo sobre o bem comum.

Nas nossas sociedades ocidentais, livres, democráticas e com elevado nível de vida, as necessidades do indivíduo, a realização pessoal e profissional, alicerçada na conquista de status económico e social, são objectivos prioritários.

A maternidade / paternidade são adiadas até quase ao limite da capacidade biológica para procriar. A assumpção da responsabilidade parental é aligeirada e transferida, sempre que possível e em nome da solidariedade inter gerações, aos avós, esquecendo-se imediatamente essa mesma solidariedade quando a velhice dos mesmos avós se torna incapacitante, tornando-os dependentes.

Nessa altura, porque não estamos preparados para a verdadeira solidariedade, porque o culto da assepcia e da eterna juventude nos impossibilita de encararmos o avanço da idade, das rugas, a perda de memória, etc, instalam-se verdadeiros dramas nas nossas vidas. As mulheres trabalham, os homens também, os filhos têm as suas agendas e ninguém pode prescindir do seu quarto, dos seus telemóveis, dos seus jantares, dos seus computadores, das suas reuniões, dos seus cinemas, dos seus hábitos.

No entanto, com o aumento da esperança de vida, a diminuição do número de crianças e de empregos há pessoas (homens e mulheres) que vão passar a estar em casa, obrigatoriamente, porque não têm trabalho fora dela.

Será que vamos aproveitar para reabilitar a tal solidariedade intra e inter gerações, reconhecendo o importantíssimo papel que têm os cuidadores numa família, que estejam presentes e que apoiem, sem que isso seja considerado uma desgraça, um desprestígio, um falhanço?

Será que vamos aproveitar a melhoria na formação individual e as novas tecnologias, para nos desenvolvermos com qualidade, sem tabus ou preconceitos, que procuremos o nosso lugar na sociedade, sendo capazes de nos adaptarmos às circunstâncias, retirando disso proveito e felicidade?

Será que os homens deste país vão aceitar o desafio de serem eles a acompanharem filhos e pais à escola, às consultas médicas, às refeições, que aprendam que o carinho não é exclusivo das mães?

Será que os empresários deste país se lembram dos velhos e começam a investir em equipamentos sociais de qualidade, gerando emprego nas áreas de cuidados continuados, criando e produzindo aparelhos que facilitem a vida a quem tem dificuldade em caminhar, ver, comer, etc?

Será que as nossas maravilhosas sociedades desenvolvidas se vão esquecer de que o estado tem funções, nomeadamente em áreas de sobrevivência da dignidade individual, da protecção aos mais fracos e necessitados, da prestação de cuidados a todos por igual?

Ou será que, mais uma vez, devido ao papel tradicional da mulher, dona de casa e enfermeira não especialista de cuidados domiciliários, tão divulgado neste país, e ao aumento do desemprego, se assista a um novo escovar das mulheres da vida profissional, retrocedendo algumas décadas nas conquistas dos seus direitos?

13 maio 2006

Untitled



Isto é mesmo muito divertido! Agradeço a ideia ao Blasfémias.

A (nossa) democracia

Subscrevo inteira e totalmente este post de Paulo Gorjão: "SOBRE A SEPARAÇÃO DE PODERES (IV)". Ainda não ouvi ninguém responsável, de nenhuma bancada parlamentar, juíz, magistrado ou outro, pronunciar-se sobre esta matéria.

Isto é uma democracia em que o estado de direito não existe, a não ser para bloquear, em nome não se sabe de quê nem de quem, o poder executivo, legitimamente eleito. Resta dizer que este poder judicial nem sequer é responsabilizável.

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...