12 março 2006

Untitled


O espírito

Nada a fazer amor, eu sou do bando
Impermanente das aves friorentas;
E nos galhos dos anos desbotando
Já as folhas me ofuscam macilentas;

E vou com as andorinhas. Até quando?
À vida breve não perguntes: cruentas
Rugas me humilham. Não mais em estilo brando
Ave estroina serei em mãos sedentas.

Pensa-me eterna que o eterno gera
Quem na amada o conjura. Além, mais alto,
Em ileso beiral, aí espera:

Andorinha indemne ao sobressalto
Do tempo, núncia de perene primavera.
Confia. Eu sou romântica. Não falto.

(Natália Correia)

Primavera


Dias de glória e prazer,
palavras de luz e de chama
no doce embalo da terra.

O verde e o perfume
inundam a voz das aves,
no manso sabor do poema.

(pintura de Barbara Landstreet: Just When I Thought It Was Spring)

11 março 2006

¡BASTA YA!

Há dois anos assistíamos impotentes, revoltados e atemorizados aos atentados terroristas em Madrid, na estação de Atocha.

Para quem gosta pouco de efemérides, como eu, não pode deixar de assinalar este dia, como mais um em que todos deveriam gritar “¡basta ya!”, e em que a solidariedade e generosidade dos madrilenos foram inexcedíveis.

E em que as mentiras, divulgadas pelos governantes, não venceram tendo, pelo contrário, retirado-lhes o poder.

Preguiça


Estou um pouco abúlica, molenga e ensonada.

Não sei se é do ar viscoso e peganhento, se do rádio roufenho.

Apetece-me e não me apetece.

Vou jiboiar um pouco, com um livro meio aberto e o espírito meio fechado.

(pintura de Rui Zilhão: preguiça)

10 março 2006

Viva a República!


Cavaco Silva é o nosso presidente, democraticamente eleito à 1ª volta. Democraticamente desejo-lhe, e a todos nós, boa sorte e felicidades para o futuro.

Mas ontem, ao ver a enorme fila de ilustres convidados no palácio da Ajuda, à espera de cumprimentar o novíssimo presidente, tive um triste relance do passado, parecendo que tinha recuado uns 12 anos. Bem sei que Miguel Frasquilho não tinha visibilidade há 12 anos (pelo menos para mim), mas é a encarnação de outros iguais a ele.

A sensação de que nada mudou, apagou-se umas horas depois, quando a sensação passou a ser de que tudo tinha mudado... para pior!

Ao assistir à chegada de TODA A FAMÍLIA do novo Presidente ao seu local de trabalho, onde não vai residir, eu própria me envergonhei com a saloiada e a bacoquice desmedida!

A impressão com que se fica é que se elegeu a FAMÍLIA CAVACO para o TRONO da nação.

Eu sou republicana, anti clerical, facção do saudoso Raul Rego, de que Manuel Alegre carrega, agora, o facho!

09 março 2006

Presidente e presidências

Pois é. Cavaco Silva vai ser o nosso Presidente por 5 anos (pelo menos).

Por alguns fragmentos do seu 1º discurso que ouvi, parecia ser um discurso do chefe do governo!

Tenho ouvido múltiplos balanços à actuação de Jorge Sampaio, a grande maioria negativos, com excepção do de Pacheco Pereira que (surpreendentemente) o achou muito bom ou mesmo excelente!

Penso que Jorge Sampaio foi um presidente mediano, nem muito melhor nem muito pior que os outros. Também me parece que os presidentes não têm oportunidade de serem muito bons ou muito maus, a não ser em circunstâncias excepcionais.

Durante os governos de Guterres, mesmo que o presidente se apercebesse do aterro em que nos atolávamos, não tinha poderes para alterar a situação. Falar, falou ele, até à exaustão, de tal maneira que já ninguém lhe ligava importância.

Quanto a mim Jorge Sampaio cometeu 3 erros grandes, mas não por ser fraco ou indeciso ou por ter medo. Acho que a leitura política que fez da situação não foi a correcta.

1 – Nunca deveria ter aceitado a quebra do compromisso de Durão Barroso que, deixando o país em suspenso e com Santana Lopes no cargo partidário que tinha, rasgou o “cumprimento leal das funções que lhe foram confiadas”.
Já que aceitou a fuga do primeiro-ministro, deveria ter pressionado de todas as formas e feitios, para que o sucessor de Durão Barroso viesse do próprio governo, nomeadamente Manuela Ferreira Leite, para que houvesse continuidade no projecto que tinha sido sufragado.

2 – Não deveria ter empossado Santana Lopes, muito menos na sequência da peça teatral em vários actos e 15 dias – A Reflexão Presidencial (ai meu deus que fazer, nossa senhora?)

3 – Deveria ter demitido, já por várias vezes, o Procurador-Geral da República, Souto Moura, um dos grandes responsáveis pelo descrédito da Justiça.

Também me parece que algumas Individualidades, enfim, podiam ter ficado por nomear (Guilherme de Oliveira Martins independente para presidente do Tribunal da Contas?!?!?!)

Mas com Cavaco Silva, Portugal até vai entrar em órbita, tal a velocidade com que vai crescer (espero é que não rebente de vez!)

Originalidade e arrogância

Não assisti a toda a cerimónia de tomada de posse do novo Presidente da República.

Mas assisti à interrupção, por parte da SIC notícias, do discurso do Presidente da Assembleia da República, Jaime Gama, para que se ouvissem os comentários de Ricardo Costa, sobre vários aspectos políticos do próximo mandato presidencial.

Por pouco ritualista que se seja, por menos reverencial ainda que se seja, no que diz respeito às instituições do estado, parece-me de uma arrogância atroz que se pense que os comentários analíticos, por muito espantoso que seja o comentador, neste caso (e se calhar não por acaso) um jornalista, é mais importante que o discurso da 2ª figura da nação, na cerimónia de tomada de posse da 1ª figura da nação!

Acredito que houvesse outros momentos durante o dia de hoje em que se poderia comentar tudo e mais alguma coisa, sem apagar as palavras de Jaime Gama.

Felizmente, pelo que me apercebi, pelo menos nesse momento, foi a única televisão original.

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...