07 janeiro 2006

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Não me importo com as rimas. Raras vezes
Há duas árvores iguais, uma ao lado da outra.
Penso e escrevo como as flores têm cor
Mas com menos perfeição no meu modo de exprimir-me
Porque me falta a simplicidade divina
De ser todo só o meu exterior.

Olho e comovo-me,
Comovo-me como a água corre quando o chão é inclinado,
E a minha poesia é natural como o levantar-se o vento…

(poesia de Alberto Caeiro; pintura de Chaim Tamir)



Os alinhamentos editoriais são muito semelhantes, nas rádios, televisões e jornais. Todos chamam os mesmos assuntos às primeiras páginas, às notícias de abertura, com tons alarmistas e espectaculares, em letras gordas e espectrais, em vozes estridentes e tonitruantes.

Hoje acordei ao som do estudo divulgado pelo Expresso sobre a falta de equipas de detecção e acompanhamento de crianças abusadas e maltratadas, do boletim clínico de Ariel Sharon, das perguntas a Alberto João Jardim sobre o Sr. Silva e da desgraça profetizada por Mário Soares, no caso de Cavaco Silva ser eleito presidente.

Por outro lado, repentinamente descobrem-se ou redescobrem-se personagens que passam a comentar tudo, a dizer qualquer coisa sobre qualquer assunto, a aparecer em fotografias etc. Exemplos do que digo são o Prof. Sobrinho Simões e Maria Filomena Mónica.

Começo por afirmar que respeito e considero ambos. São pessoas que nos habituaram a uma postura de trabalho, rigor, inteligência e qualidade. Mas agora e sob qualquer pretexto, a sua opinião escrita e falada é pedida a propósito de tudo e de nada. Nesta sociedade de mediatização enorme e feérica, segue-se a destruição implacável dos ídolos de um dia, nem que seja pelo esquecimento, tão súbito quanto o prévio reconhecimento. Tanto se banalizam os assuntos e as pessoas, que se usam e deitam fora com o maior à-vontade.

As últimas sondagens presidenciais demonstram apenas uma coisa: que Cavaco Silva tem IMENSAS probabilidades de vencer à primeira volta. Apesar da “Grândola vila morena”, da bajulação a Alberto João Jardim, personagem inqualificável e bem demonstrativa do nível de caciquismo da nossa classe política. Ou do abraço de Mário Soares a Valentim Loureiro (outro personagem inqualificável e etc.).

Enfim, gostaria que restasse, à esquerda, a dignidade de conseguir uma segunda volta, com Manuel Alegre.

Quem dera que chovesse!


05 janeiro 2006

Les enquêtes du Comissaire Maigret

(Jean Richard; Comissaire Maigret)

Este é o Comissaire Maigret de Simenon, grande, pesado, sempre a fumar o seu cachimbo, na Brasserie Dauphine, a beber uma demi, ou no seu escritório, au Quais des Orfèvres, com Janvier, Lucas, Torrence ou le petit Lapointe, nos passeios au bord du Seine, na sua casa du boulevard Richard Lenoir, com Madame Maigret, que abre a porta enquanto ele ainda sobe as escadas, excepto no dia em que ficou presa num jardim, a tomar conta de um menino (L'amie de Madame Maigret).
A preto e branco, com acordeão e passo de dança, sem acompanhamento musical de fundo, personagens verdadeiramente humanas, vulgares, em que se ouvem os ruídos das canalizações quando se abrem torneiras, em que as velhas fofoqueiras são espantosas, é esse Maigret, interpretado por Jean Richard, que eu vou saborear: L'ombre chinoise.

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Começou a campanha presidencial. Antes era só pré-campanha (???).
Mário Soares qeixa-se da descriminação A QUE ELE ESTÁ SUJEITO (!!!) na comunicação social, mais precisamente, na SIC. É extraordinário, não que não haja descriminação, porque a há e bastante desavergonhada, mas Mário Soares é dos que mais beneficia da dita descriminação.
Os media decidiram, desde o início desta pré-eleição, que o interessante era um combate Soares-Cavaco e tudo têm feito, escolhendo as notícias, dando ênfase a alguns factos, escolhendo cirurgicamente algumas frases, que depois gritam de meia em meia hora, para que seja esse o desfecho da primeira volta.
O que não sei é se os eleitores vão estar de acordo. Suspeito que Mário Soares suspeita que não. Por isso este choro de menino mimado, já não gostam mais de mimmmm.............

03 janeiro 2006

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(pintura de Bobak Etminani)

Ligeiramente atrasada neste começo de ano, devido a (até agora) insolúveis problemas informáticos.
Como de costume, multiplicam-se as retrospectivas (de 2005) e as resoluções (para 2006).
Temos grandes problemas para resolver, mas o que gostaríamos mesmo é que alguém os resolvesse por nós! E trabalhar? Que grande maçada, que enorme desperdício de energia! Enquanto nos queixamos vamos deixando passar tempo, oportunidades, planos tecnológicos, grandes eventos.
Resolução (porque não?) par este (e o próximo) ano - trabalhar mais e melhor, exigir mais e melhor, viver mais e melhor.

31 dezembro 2005

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(pintura de Susan Nares)

Nos últimos dias de todos os anos,
por entre os despojos do que somos,
prometemos heróis de futuro,
acertamos certezas e vitórias,
novas e iluminadas almas.

Que venha chuva,
muita e fria água,
que lave as nódoas do que fomos.

Para o ano, talvez....

30 dezembro 2005

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Neste imenso bocejo colectivo, o país assiste à dança palaciana e ridícula em que se transformou a luta política.
Volta a cabeça, e tenta acreditar no novo ano, esperando que seja diferente.



(pintura de Raquel Martins)

29 dezembro 2005

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No século XXI e na europa civilizada, estão difíceis as relações entre o mundo laboral e os patrões, sejam eles entidades privadas ou o estado.
O sindicalismo, tal como o conhecemos durante as últimas décadas, tende a desaparecer. Neste momento o trabalho é um bem escasso e precioso, de forma que quem reivindicar muito, nesta europa que tantas organizações tem a defender os direitos humanos, pode perder o seu ganha-pão, porque há sempre pessoas em determinados países, em que não existem sindicatos a exigir horários, remunerações condignas e direito ao descanso, que estão dispostas a trabalhar a um preço reduzido e em más condições. É claro que as empresas e os governos do mundo civilizado fecham os olhos a essas condições e a esses cidadãos, a bem da globalização, a bem do mercado, etc.
Por isso, o movimento sindical tem que se adaptar, modernizar e, principalmente, lutar por condições e remunerações realistas.
Considero intolerável a pressão que o governo fez sobre os trabalhadores da Autoeuropa, que raiou a chantagem do tipo "ou se portam bem ou os alemães fecham a fábrica e deslocalizam", quando o sindicato, os trabalhadores e a direcção da empresa têm dado mostra de grande empenho e realismo em todas as negociações, tendo-as sempre levado a bom termo.
Considero igualmente intolerável os sindicatos da função pública começarem a negociar o aumento dos salários com percentagens de 3,5 a 5%!!! É absolutamente inacreditável que, com os limites orçamentais que todos conhecem, o elevado número de funcionários públicos existentes e o fraco desempenho da nossa administração, se inicie a negociação neste nível.
Dá a sensação que o objectivo era acusar o governo de não querer negociar e de querer impôr um aumento irrisório (o que, aliás, é verdade).
Continuamos no país do faz-de-conta: o governo finge que negoceia com os sindicatos, os sindicatos fingem indignação reivindicativa.
A intervenção do presidente???? Dos candidatos a presidente????
(pintura de Leslie Duxbury)

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...