30 junho 2013

Da enormidade consensual na sociedade portuguesa

 



 


Na sequência da greve geral, da entrevista que Teixeira dos Santos concedeu a Judite de Sousa e do último programa semanal da TSF, Bloco Central, há algumas coisas que me deixam ainda mais dúvidas (porque eu, ao contrário de Cavaco Silva, tenho cada vez mais dúvidas e estou sempre a enganar-me) das habituais.


 


Teixeira dos Santos foi sóbrio e discreto, fintando as perguntas telenovelescas de Judite de Sousa, cujo único objectivo era fazer alarde e publicidade da irascibilidade de Sócrates, e de quanto os seus colaboradores sofreram às suas mãos. A informação está tabloidizada e a sociedade vive num perpétuo mundo onírico, de tipo Walt Disney, desapegado da realidade e do mundo adulto com que temos que lidar. A apologia da inocência, da espontaneidade e da perpétua adolescência toca as raias do disparate. A maledicência e a coscuvilhice constantes sobre a política são dramáticas e envergonham. Não me interessa se Sócrates tem mau feitio, Teixeira dos Santos se ofendeu, Paulo Portas amua, a ministra Cristas tem fanicos, se há amantes a pulular ou amizades quebradas, vícios tabágicos ou virtudes eclesiásticas. O que me interessa é o serviço público, as ideias políticas, as decisões, os argumentos, os resultados.


 


Mais uma vez passou a ideia de que o chumbo do PEC IV foi totalmente irresponsável e que, mesmo que ninguém possa afirmar que teria sido evitado o pedido de resgate, tê-lo-ia atrasado e, quem sabe, como disse Pedro Adão e Silva, Passos Coelho tivesse sido substituído por alguém capaz e mais competente.


 


Quando falamos do enorme consenso que hoje existe na sociedade, constituído por todos os partidos da oposição, por facções dentro dos partidos do governo, associações sindicais e patronais e a tão propalada e diáfana sociedade civil, quanto à necessidade de substituição do governo (de que eu própria comungo), é preciso lembrarmo-nos de que, há pouco mais de 2 anos, também havia um enorme consenso social e político, protagonizados pelos partidos todos, facções do PS, sindicatos, associações patronais, sociedade civil e Presidente da República, em como Sócrates e o seu governo eram responsáveis por todos os males do universo e deveriam ser demitidos, tendo-se precipitado as eleições.


 


Será que estes enormes consensos, caso sejam invocados sempre que houver decisões governamentais impopulares e situações de crise, deverão associar-se a quedas de governos e eleições antecipadas? Onde está a democracia representativa e a base para mandatos que permitam a implementação de uma política minimamente estável e consequente? E, se poderia ter sido uma bênção a hipotética substituição de Passos Coelho, não seria também uma esperança maravilhosa a substituição de António José Seguro na liderança do maior partido da oposição e representativo da esquerda democrática?


 


Que tem o PS a sugerir, a mudar, a motivar, a envolver os cidadãos, que justifique a sua vontade repetidamente afirmada de ir já a eleições? Na verdade penso que é a certeza de que, quanto mais tempo passar, mais provável será que não chegue a Primeiro-ministro. Quanto ao PCP e ao BE, assim como as palavras de ordem que ouvimos – está na hora de o governo ir embora – elas são exactamente as mesmas desde 25 de Novembro de 1975 e foram gritadas a todos os governos, desde então.


 


Estamos perante um bloqueio político sem precedentes. Mas a repetição do assalto ao poder, visto que ninguém percebe bem qual a alternativa a formar após eleições antecipadas, incerteza que se multiplica ao perceber que este PS nem coragem tem para, claramente, explicitar se apoia ou não a greve geral, talvez não seja a melhor opção. Até porque, ao contrário do governo de Sócrates, este conta (ainda) com uma maioria Parlamentar. Soma-se a este quadro deprimente um Presidente da República que desprestigiou e anulou a função presidencial, instituição que deveria ser o garante do normal funcionamento da democracia.


 


Queda do governo – de que está o CDS à espera? Da saída da Troika? Do próximo orçamento? Será que António José Seguro prepara e espera uma aliança com Paulo Portas, num cenário de eleições antecipadas?


 

27 junho 2013

Da descrença

 



 


Acho sintomático ler várias pessoas referirem-se aos que não fizeram greve com aqueles que tiveram necessidade de justificar esse facto. Realmente está de tal forma impregnado, na ala esquerda, que quem não é grevista está vendido, é amarelo, defende o patrão, é cobarde e outros epítetos, tal como para a ala direita se passa exactamente o contrário, que muitos se sentem compelidos a explicarem-se. No fundo, é o que estou a fazer.


 


Realmente respeito muito quem faz greve, se a faz porque está convencido que essa forma de luta terá consequências, é uma tomada de posição de dignidade e clamor. Tal como respeito quem a não faz, se pensa que não se revê nesse tipo de manifestação de desagrado. Mas há patrulhas ideológicas dos dois lados, que gostam de insultar quem não faz a escolha certa, dependendo da lateralidade em que se está.


 


A verdade é que acredito cada vez menos nas greves como meio de pressão. Parecem-me anacrónicas, um ritual que se repete sem consequências. Penso que a pressão sobre o poder político, pois esta é uma greve com fins políticos e não laborais, a cumplicidade e o ganho da opinião pública se conseguem através da capacidade de chegar aos media e influenciar a opinião pública. É só estarmos atentos ao bombardeamento a que, desde que sequestrou os subsídios no sector privado - o governo tem sido submetido, com comentadores de todos os tipos, jornalistas, politólogos, economistas e filósofos, a desdizerem o que ansiavam como terapêutica salvífica nos últimos tempos do governo anterior. Também foi assim que se criou a onda de crucificação do governo de Sócrates.


 


E temos também o fenómeno das redes sociais, que podem levar à desvalorização da representatividade dos eleitos, pois confunde-se a vontade do povo com o que se lê nas redes e com a organização das ditas manifestações inorgânicas. Fenómeno esse ainda não compreendido nem aproveitado pelo regime.


 


Os bloqueios da circulação das pessoas, como os tentados na ponte 25 de Abril, ou da saída de trabalhadores que não aderiram à greve, cpomo o que aconteceu na Carris, são ilegítimas e a polícia tem por função impedi-las. A democracia assenta no respeito pelas escolhas de todos, por muito que não sejam as nossas.


 

15 junho 2013

Da demagogia e do oportunismo político

 


Seguro culpa Governo por falta de acordo com professores


 


Ou seja, se o próximo governo for do PS e António José Seguro o Primeiro-ministro, na greve aos exames que, fatalmente, será convocada pela FENPROF e pelos retantes 7 sindicatos, não esquecer que não será apenas a FENPROF, Seguro aceitará mudar as datas de exame ao sabor dos pré-avisos de greve?


 

Das patrulhas dos camaradas

 



 


Se o meu objectivo fosse ter muitos comentários aos posts que vou escrevendo, bastava fazer uma qualquer referência semanal que beliscasse a FENPROF, para que que as patrulhas dos camaradas me mimoseassem com os seus insultos. Assim tenho esse privilégio só de vez em quando.


 


Para que fique bem claro e explícito:



  1. Este governo é o governo pior que alguma vez me lembro de ter havido, após o 25 de Abril.

  2. A maioria que nos governa, para além de tentar implementar a sua ideologia que nem sei bem classificar, fá-lo de uma forma totalmente incompetente.

  3. Como já muitas pessoas vão reconhecendo publicamente, houve um assalto ao poder em 2010/2011, com uma total manipulação da população protagonizada, entre outros, pelos partidos da oposição da altura, nomeadamente do PSD, do CDS, do PCP e do BE, que se aliaram para derrubar o governo minoritário do PS, cavalgando as ondas de descontentamento dos cidadãos, mentindo antes e durante a campanha eleitoral, como se prova pelo que têm feito desde então.

  4. A maioria dos sindicatos afectos à CGTP-in, entre os quais a FENPROF (federação de sindicatos), e que é uma correia de transmissão do PCP servindo a sua estratégia política, contribuíram decisivamente para a tomada do poder pela direita conservadora.

  5. Durante os dois governos anteriores, os representantes dos professores em geral e a FENPROF em particular, opuseram-se a tudo o que mudava a cultura de mediocridade, de facilitismo, recusando alguma meritocracia que se tentava implementar. Da fusão de escolas sem condições para os alunos, às aulas de substituição, passando pela avaliação de desempenho, nada escapou aos gritos de destruição da escola pública e de ataque aos indefesos professores.

  6. As alterações aos horários da função pública (que constam do orçamento rectificativo), de 35 para 40h semanais, correspondem a uma redução salarial de 12,5%, o que é totalmente inaceitável – não o aumento do horário de trabalho, mas a redução da remuneração decidida unilateralmente pelo governo, aliás como as reduções anteriores.

  7. O regime de mobilidade é, obviamente, uma forma de despedir funcionários públicos e o chamar-lhe requalificação é uma desvergonha inqualificável

  8. A razão para aumentar o horário de trabalho não é melhorar a eficiência e o atendimento aos cidadãos, é despedir pessoas – uma das gorduras do estado.

  9. Estas medidas não são específicas para os professores.

  10. Em 2005 foi convocada uma greve aos exames, tendo o governo da altura requerido que se decretassem serviços mínimos, em defesa dos alunos e das suas famílias, o que foi legalmente aceite.

  11. Desta vez, e mais uma vez, a FENPROF convoca uma greve aos exames nacionais, num braço de ferro com o governo, que este não pode aceitar, sob pena de continuar refém de uma das mais poderosas corporações existentes.

  12. Mário Nogueira, como líder da FENPROF, foi e é o protagonista destas posições, pelo que é nessa qualidade que o critico.

  13. Penso que este tipo de ações, de que a grave aos exames é um exemplo, descredibiliza a actuação e o papel dos sindicatos, contribuindo para a irrelevância dos protestos dos trabalhadores, sejam eles professores ou outros.

  14. Quando tanto se fala no divórcio entre os cidadãos e os políticos, convinha que os dirigentes dos sindicatos ponderassem o papel que tiveram e têm na descrença que alastra na sociedade, e na desesperança e alheamento em que nos refugiamos.

  15. O facto de a greve ser legítima não me faz concordar com ela. O facto da Colégio Arbitral ter decidido que não havia serviços mínimos não me obriga a concordar com ela. O facto de o Tribunal Central Administrativo do Sul ter considerado ser este um assunto não urgente é, para mim, incompreensível.

  16. Muito me penaliza não ouvir o PS a condenar esta greve e a ler opiniões de muitos quantos defenderam, e bem, Maria de Lurdes Rodrigues, numa situação idêntica à de agora. Os fins não justificam os meios.


 

14 junho 2013

João Pinto e Castro

 


Cruzei-me com João Pinto e Castro no SIMplex, virtualmente, e pessoalmente uma ou duas vezes, em que não trocámos mais do que alguns cumprimentos. Já o lia no seu ...bl-g- -x-st- e continuei a lê-lo no jugular. Foi para mim um choque a notícia da sua morte. Era uma voz lúcida, esclarecida e bem humorada que vai fazer muita falta.


 

13 junho 2013

Gorduras

 


Estou a ouvir Eduardo Catroga explicar que as gorduras do estado corresponde aos salários, às despesas sociais, etc. Se acabarmos com tudo isso, o estado emagrece, definha e morre, que é a solução ideal, para estes senhores.


 


Também falou em equidade entre sectores publico e privado, em relação ao horário de 40h semanais. Eu estou de acordo quanto ao horário de 40h, mas será que Eduardo Catroga acha equitativo aumentar o horário de trabalho sem o consequente aumento do respectivo ordenado? Será que há equidade entre o ordenado de quadros como ele nos dois sectores?


 

Medidas cautelares

 


Pelos vistos, Nuno Crato tinha razão.


 

12 junho 2013

Dos ciclos grevistas aos exames

 


Os professores pedem a demissão de todos os ministros e já não é a primeira vez que ameaçam fazer greve aos exames. Com Maria de Lurdes Rodrigues passou-se o mesmo. Se Nuno Crato muda as datas, por causa do pré-aviso de greve, ficará refém dos sindicatos.


 


Por muito que discorde deste governo, neste caso concordo com Nuno Crato e com Passos Coelho.


 

Um dia como os outros (128)

 



(...) Isto, sim, é a falência do Estado. A falência pura e simples, se de facto não há dinheiro para cumprir os compromisso básicos (apesar da "ajuda" externa), ou, alternativa ou cumulativamente, a falência do Estado de Direito, na medida em que o governo delibera desrespeitar a Lei Fundamental e quem está legalmente incumbido de a fazer respeitar. Governar o país dentro da legalidade está acima das possibilidades desta gente.


 


Porfírio Silva


 

11 junho 2013

Não se acredita

 


Ecrãs dos canais da emissora ERT vão ficar negros a partir da meia noite desta terça-feira.


 

Mousse de chocolate

 



 


Há 24 anos. Conseguia, finalmente, satisfazer a minha curiosidade e olhar para o rosto do meu filho. Durante 9 meses imaginara como seriam as suas feições, se parecido com o pai, se parecido com a mãe. Mas ele parecia-se muito a um daqueles bonecos que as miúdas gostam, os bebé chorão. Perfeito, sereno, chorava para mamar e eu, mãe inexperiente, não sabia a quantidade de leite que precisava, como lhe dar banho, pois o medo de o deixar escorregar era imenso, como o adormecer, como o vestir.


 


Sempre comeu maravilhosamente, tudo o que lhe dava. Lembro-me que a 1ª papa estava horrenda, espessa, com grumos. Depois das primeiras colheradas, que ele lambeu sem se queixar, decidi fazer outra, que ele comeu com a mesma solenidade com que nos olhava de cada vez que queríamos que repetisse as gracinhas típicas dos bebés. Falou tarde, perfeita e pausadamente. Adorava brincar com jornais e fazer filas intermináveis de sapatos. Era delicado e rústico.


 


Comprar-lhe uma prenda era sempre uma aventura. Nunca fez listas de desejos nem ambicionou brinquedos quando passava por eles. Gostava de um e de um só - o Woody, depois uma pistola de cowboy, a seguir tudo o que dissesse respeito ao Astérix, posteriormente o Tim Tim. De tempos a tempos passava a outra fase.


 


Portanto atirei-me hoje a confecção de uma mousse de chocolate, de que ele gosta, que já tinha experimentado algumas vezes mas que me saía sempre mal. Ou porque deslaçava, ou porque as quantidades dos ingredientes não estavam bem, ou porque cozia as claras em castelo.


 


Ingredientes:


6 ovos


chocolate para culinária - 200g


300g de açúcar (para quem é menos guloso, 200 ou 250g chegam)


200ml de leite


uma pitada de sal


 


Para dentro de um tacho parte-se o chocolate aos bocadinhos, deita-se o leite e o açúcar e leva-se ao lume, mexendo sempre até o chocolate derreter por completo e ficar um creme, retirando-o imediatamente do calor. Separam-se as gemas das claras, misturam-se bem as gemas numa tigela e incorporam-se com cuidado no creme. À parte batem-se as claras em castelo bem firme, com uma pitada de sal, e vão-se juntando ao creme, que deve estar apenas morno, sem bater. Vai ao frigorífico cerca de 2 horas.


 


Ficou uma delícia. E ele comeu com gosto, delicadamente, como ao longo dos seus 24 anos.


 

10 junho 2013

Sílabas

 



Almada Negreiros


Partida de Emigrantes


 


O meu país divide-se em sílabas


- por - ele tudo de nada acontece. Afunda-se


encolhe-se enruga-se esvazia-se em gente


mole e arrastada – tu - e eu manchamos a terra.


O meu país divide-nos e abre


os rios por onde se espalha e cresce


em múltiplas sílabas de dor – gal - de fim


afinal


Portugal.


 

Fragile

 



Sting

 


If blood will flow when flesh and steel are one


Drying in the colour of the evening sun


Tomorrow's rain will wash the stains away


But something in our minds will always stay


Perhaps this final act was meant


To clinch a lifetime's argument


That nothing comes from violence and nothing ever could


For all those born beneath an angry star


Lest we forget how fragile we are


 


On and on the rain will fall


Like tears from a star like tears from a star


On and on the rain will say


How fragile we are how fragile we are


 


On and on the rain will fall


Like tears from a star like tears from a star


On and on the rain will say


How fragile we are how fragile we are


How fragile we are how fragile we are


 

Bandeiras

 



Miki de Goodaboom


 

As vozes dos outros (8)

 



(...) Convicções profundas, só as têm as criaturas superficiais. Os que não reparam para as coisas quase que as vêem apenas para não esbarrar com elas, esses são sempre da mesma opinião, são os íntegros e os coerentes. A política e a religião gastam dessa lenha, e é por isso que ardem tão mal ante a Verdade e a Vida. (...)


 


Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980.- 5.


 

As vozes dos outros (7)

 



(...) Sendo nós portugueses, convém saber o que é que somos.


a) adaptabilidade, que no mental dá a instabilidade, e portanto a diversificação do indivíduo dentro de si mesmo. O bom português é várias pessoas.


b) a predominância da emoção sobre a paixão. Somos ternos e pouco intensos, ao contrário dos espanhóis — nossos absolutos contrários — que são apaixonados e frios.


Nunca me sinto tão portuguesmente eu como quando me sinto diferente de mim — Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Fernando Pessoa, e quantos mais haja havidos ou por haver. (...)


 


 


Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966.

09 junho 2013

A luz

 



Laury Dizengremel


 


Tenho tanta pressa no apagar


dos sentidos no reacender da alma


que me foge como se quisesse fintar


o tempo que me falta a luz


que incendeia o teu olhar.


 


 

Nós e os outros

 



Rodrigo Leão


 

Folhas

 



Grant Berg 


 


Aproximo-me da noite em caminhos de curvas


mas na estreita direcção do tempo. A distância


encurta os passos alongados das árvores


que em ciclos de folhas refazem a eternidade.


 

As vozes dos outros (6)

 



(...)Talvez porque eu pense de mais ou sonhe de mais, o certo é que não distingo entre a realidade que existe e o sonho, que é a realidade que não existe. (...)


 


 


Livro do Desassossego


Bernardo Soares


 

As vozes dos outros (5)

 



(...) Porque eu sou do tamanho do que vejo


E não do tamanho da minha altura... (...)


 


 


“O Guardador de Rebanhos”. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993). - 32.

 

Da política de consensos

 


Ainda não percebi muito bem a estratégia do consenso abraçada agora por António José Seguro.


 


Em primeiro lugar era importante que se percebesse exactamente quais as medidas alternativas que o PS sugere, em ralação à política seguida por esta maioria que nos governa, para saber que consensos procura, em que áreas e de que forma se vão traduzir - coligação eleitoral ou bases programáticas para algumas medidas ou repartição de lugares chave em lugares chave ou apoio parlamentar ou... o quê? E com que forças políticas? À direita, à chamada esquerda ou tanto faz? Ou regressa a expressão que nada significa de Sociedade Civil?


 


Eu vejo com muito cepticismo e muita apreensão a retórica do consenso a todo o custo, tal como via e vejo a austeridade a todo o custo. Eu também defendo que deveria haver uma plataforma mínima de entendimento com os partidos que se dizem à sua esquerda. Mas há algo de muito essencial de que não convém esquecer - o PS faz parte de uma área política que defende a democracia enquanto o PCP e o BE mantém discursos e práticas de forças de cariz autoritário. Felizmente, não só pela interpretação dos resultados eleitorais mas por aquilo que as sondagens vão indiciando, a enorme maioria do povo não se revê na sociedade e na política que esses dois partidos defendem.


 


Por isso, qual é exactamente a ideia de António José Seguro? E em relação ao CDS, onde poderão estar as pontes de entendimento com o CDS? Não seria interessante que o líder do PS tornasse claro o seu pensamento, ou teremos que votar nas incógnitas e nas surpresas pós eleitorais?


 


Não me parece que estejamos dispostos a isso. Que este governo deve cair não tenho dúvidas. Mas avolumam-se as dúvidas quanto à actuação do PS, que deveria marcar a agenda política e liderar as negociações, com condições transparentes e conhecidas dos eleitores. Há cada vez menos capacidade de passar cheques em branco. Há demasiado em jogo para jogos florais e de bastidores.


 

08 junho 2013

Esquinas

 



Eva Rothschild


 


Procuro arder no gelo que à minha volta


forma gotículas de sangue e adormecimento.


 


Encontro chamas de aço em irracionais amarras


que no absurdo das esquinas abrem abismos.


 


Sem braços que empurrem nem ombros


que levantem a eterna condição de querer.


 

Dispidida

 



Mayra Andrade 


 


Katorzi mi dja-m bá nha kaminhu
Mi ki s'ta fika ku mi
Es dor ki m-áita leba diáxi mi só ki buskâ-l
Sakédu má m-ka pode ku-el
Detádu e ta mariâ-m kabésa
Lapidu má dj-e karapati ta fasê-m falsiâ !
Ná ná nau, bai gó !
Témpu-simia dja pása, rinka midju na otu lugár
Busu busu si si nau, ó na dispidida !
Tiru ta sai albés pa kulátra,
Mi m-ka fasi náda sima m-kreba
Dádu si ki-m dádu sima m-obi sima m-fládu
Tiru ta sai albés pa kulátra
Mi m-ka fasi náda sima m-kreba
Dádu xikotáda sima flor di midju kankaram !


 

Da requalificação governamental

 


As afirmações que se vão ouvindo dos mais diversos membros do governo são a demonstração do desnorte a que chegaram. Helder Rosalino trata as pessoas como se fossem de uma obtusidade sem mácula, declarando que está convencido que quem entrar no regime de requalificação pode voltar a trabalhar para o estado. Hoje Passos Coelho pede aos sindicatos para reagendarem a greve para quando der mais jeito.


 


E não se pode requalificá-los?


 

Da contínua invernia

 



Kimberly Conrad


 


É, de facto, uma situação muito difícil, como Maria de Lurdes Rodrigues afirma.


 


Portugal é um assunto mesmo dificílimo. Professores e outros funcionários públicos, os cidadãos em geral, têm muitíssimas razões para fazerem greve, geral total e absoluta. Aliás a greve global à capacidade de tentar perceber a realidade já está em acção há muito tempo. Desde há 2 anos que o governo e esta maioria decretaram greve à democracia e ao estado de direito. São grevistas que já perderam a noção de que o mundo está a mudar, mas não eles.


 


O problema é que quem decreta greve geral já decretou tantas vezes greves, manifestações e revoluções sem razão ou razões discerníveis, tanto se queixaram de todos os ministros, de todas as políticas, de todos os governos, de todos os reaccionários, fascistas e esmagadores das classes trabalhadora e do povo, que já ninguém perde tempo a concordar ou não com a greve. É só mais uma.


 


E assim estamos todos, com um enfado tal a toda esta situação, que já nem conseguimos indignar-nos. O clima continua adverso aos investimentos na inteligência dos nossos governantes e dos líderes das nossas oposições. É tempo de nos cobrirmos de casacos e guarda-chuvas. A invernia ainda não acabou.


 

03 junho 2013

Da liberdade como essência

 


Começamos a estar habituados às manifestações de autoritarismo por parte de alguns grupos, algo a que deveria ser proibido habituarmo-nos.


 


É por este género de atitudes que os sindicatos têm tão pouca credibilidade entre nós. Na realidade, que diferença faz para a FENPROF o ministro ser Nuno Crato ou Maria de Lurdes Rodrigues, para citar apenas dois? Todos foram e são mimoseados com os epítetos de atacantes da escola pública e dos professores, destruidores da educação e da democracia. Tal como os da Saúde, Finanças, Economia, Justiça, etc., etc., etc.


 


A insatisfação, o desespero e a vontade de mudança não podem justificar o injustificável. Se aceitarmos o comportamento antidemocrático pela justeza das razões, sepultamos o regime que faz da liberdade de expressão o seu pilar fundamental.


 


Deixemo-nos de brincadeiras, já bem basta o desrespeito a que estamos sujeitos por este governo. Se os ministros fingem que vão às reuniões para consertar qualquer coisa, pois que sejam as várias associações e sindicatos a mostrar seriedade e competência. Nada como a afirmação de conhecimento e de ideias alternativas para construir novamente a esperança. Que é urgente, urgentíssima, antes que esta maioria ou estas minorias nos roubem a democracia.


 

01 junho 2013

As vozes dos outros (4)

 



(...) Hoje já não tenho personalidade: quanto em mim haja de humano, eu o dividi entre os autores vários de cuja obra tenho sido o executor. Sou hoje o ponto de reunião de uma pequena humanidade só minha. (...)


 



Cf. Carta a Adolfo C. Monteiro -13 Jan. 1935


1935 - Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 101.


 


Hipermercado dos livros

 



 


Nada de novo neste cantinho do mundo. Pode parecer que há uma frente imparável entre centrais sindicais unidas, fundadores da democracia a levantarem as massas, manifestações diárias e desacatos na Assembleia da República.


 


Na verdade, é apenas a banalização da demonstração do descontentamento. O governo continua lá, com uma maioria parlamentar que ainda não se desmanchou. A execução orçamental continua a ser horrível, sobe o desemprego, o défice e mantém-se a desvergonha e o mau gosto inexcedível de pessoas como Vítor Gaspar, que nem percebe que é melhor não tentar fazer humor.


 


Nada há, portanto, a dizer de novo, que não se tenha dito já milhares de vezes. Como não se consegue continuar a aumentar exponencialmente a desesperança e a depressão, habituamo-nos. O ser humano adapta-se a tudo para sobreviver.


 


Hoje, pelo menos, São Pedro deu-nos algumas tréguas. Esteve um dia lindo. Por isso decidi ir à Feira do Livro. Arrependi-me ao fim de 10 minutos. A Feira do Livro transformou-se no Hipermercado do Livro, em que há uns cestinhos para ir tirando livros de estantes cheias, propaganda e promoções a autores e a livros, tal como no Jumbo e no Continente, filas de gente para as caixas, desgraçados autores sentados a escrevinharem autógrafos para os eventuais leitores, muitas barraquinhas de gelados, de doçaria regional, água, café e sei lá que mais, para além dos balões, palhaços e carrinhos de bebé porque hoje era o dia mundial da criança.


 


Tenho um problema cada vez mais grave com estas manifestações culturais. Fugi a sete pés.


 

Nova morada - do Sapo para o Blogger

Resilience Paula Crown O Sapo vai deixar de ser uma plataforma de alojamento de blogs. Tudo acaba. Os blogs estão em agonia e só mesmo algu...